Lázaro Ramos enfrenta um desafio inédito em seus mais de 30 anos de carreira. Pela primeira vez o ator interpreta um vilão na televisão. O tirano Jendal é o antagonista de “A Nobreza do Amor”, novela das seis da TV Globo que estreia nesta segunda-feira (16) e propõe uma reconexão histórica entre Brasil e África através de uma fábula ambientada nos anos 1920.
“Eu nunca tinha sonhado em fazer um vilão porque, pela urgência do meu ativismo, eu queria fazer heróis, anti-heróis, heróis românticos”, conta o ator em entrevista exclusiva à Alma Preta.
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“Aí eu entendi que nesse momento e nessa novela, que tem tantos personagens diferentes, era uma oportunidade como ator de eu me experimentar num outro lugar e essa é uma liberdade importante na profissão que eu exerço.”
O interesse de Lázaro Ramos pela nova trama da faixa das 18h veio antes do convite para o papel. “Eu pedi para entrar na novela antes de saber o personagem, porque eu queria estar nesse movimento. Uma novela que traz uma diversidade de personagens, tanto no continente africano quanto no Nordeste, nas duas cidades imaginárias. Acho que ‘A Nobreza do Amor’ tem uma estética poderosíssima, trazendo e valorizando a nobreza que faz parte da nossa história também”, revela.
Para o intérprete de Jendal, a novela tem um potencial de provocar mudança de imaginário, uma vez que o ator já pautou durante muito tempo a importância de fazer personagens diferentes e sobre a maneira que o continente africano deve ser retratado.
A experiência nas primeiras gravações tem sido marcante. Segundo Ramos, ele se sente como se estivesse começando a carreira de novo. “Virei espectador dos meus colegas, isso é muito lindo também, chegar em cena e ver o talento da Duda Santos e do Hilton Cobra, que foi uma das minhas primeiras referências”. Para ele, é um momento que vai ficar para sempre em seu coração.

A novela “A Nobreza do Amor” aposta em uma narrativa que propõe reflexões sobre ancestralidade, deslocamento e construção de vínculos. Foto: TV Globo/Estevam Avellar
Novela conecta África e Nordeste brasileiro
“A Nobreza do Amor” se passa em dois universos fictícios. De um lado do oceano, Batanga, ex-colônia portuguesa na costa ocidental da África, reino marcado por uma disputa de poder central na trama. Do outro, Barro Preto, interior do Rio Grande do Norte, cidade onde litoral e sertão se cruzam.
A trama começa com um golpe de estado em Batanga. O ambicioso Jendal (Lázaro Ramos) trai e derruba o rei Cayman II (Welket Bungué), usurpando seu trono. O vilão age quando vê desmoronar seus planos de ascensão ao poder, que incluíam o casamento arranjado com a princesa Alika (Duda Santos) e o acordo com os ingleses para exploração de tungstênio no país.
Na tentativa de escapar da tirania, a família real foge. O rei Cayman se fere e, antes de morrer, revela à princesa e à rainha Niara (Erika Januza) o lugar para onde deveriam ir: o Brasil. Lá vive Zambi/José (Bukassa Kabengele), irmão do rei deposto, que anos antes renunciou à coroa para se casar com a brasileira Teresa (Ana Cecília Costa). Além do encontro familiar, Barro Preto reserva a Alika o despertar do amor ao lado do jovem Tonho (Ronald Sotto).
Negros em posição de poder e África representada em sua grandeza
A atriz Vitória Rodrigues interpreta Auxiliadora, primeira dama da cidade de Barro Preto. Para ela, a personagem representa uma virada em termos de representatividade na teledramaturgia brasileira.
“É muito emocionante e ao mesmo tempo uma lavada de alma, que eu não sei explicar. Quando me convidaram para essa personagem, eu demorei para entender o que era. Ser a primeira dama da cidade em uma novela de época. Eu falei: ‘Sou eu mesma que vou fazer essa pessoa em um lugar de poder?’. A partir daí eu entendi a grandeza do que seria essa novela para mim, na minha pele”, relata, também em entrevista.

A atriz destaca que o cabelo é o maior conflito de sua personagem e espera que isso tenha impacto sobre o público. “Por ser uma primeira dama, ela quer estar na alta sociedade e alisa o cabelo com o ferro para se encaixar no padrão, como a gente [mulheres negras] fazia também. Ela passará por uma trajetória até entender a magnitude do cabelo crespo, que é a nossa coroa. Por isso eu estou muito honrada de fazer essa novela.”
O ator congolês Bukassa Kabengele, que vive Zambi, irmão do rei deposto, vê sua participação como parte de um movimento maior, conforme compartilha também em entrevista exclusiva. “Eu estou muito feliz e honrado de estar nesse elenco, nesse projeto, nessa época, nesse momento, que é extremamente importante e necessário. Eu sou um africano brasileiro, cheguei no Brasil muito novo, mas esse é o meu lugar de pertencimento.”

Bukassa destaca a importância de falar de uma África que reconecta o imaginário das pessoas a um lugar de dignidade. “Falar desse lugar que, para além da ficção, reconecta o imaginário das pessoas de um país onde o apagamento é constante e há muito tempo, é extremamente importante, porque a gente precisa se ver em lugares de dignidade, de pertencimento, de beleza.”