O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) exibe até 2 de agosto a primeira individual no Brasil do artista peruano Santiago Yahuarcani, que dá forma aos seres físicos e espirituais que compõem a identidade e a cultura do povo indígena Uitoto, localizado na região amazônica entre o sul da Colômbia e o norte do Peru.
Yahuarcani entrelaça a cosmologia do seu povo com a denúncia da violência extrativista contra povos indígenas na Amazônia. Com curadoria de Amanda Carneiro, “Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento” abrange 35 obras que propõem uma imersão nos saberes, mitos e traumas uitotos.
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A exposição é organizada em cinco núcleos: Pintura de sons, Tempo do choro de sangue, Mundos espirituais, Plantas sagradas e Guardiões da Amazônia. A pintura “O princípio do conhecimento”, que inspira o título da mostra, traz, em seu centro, uma folha de coca, que também é corpo com mãos. De sua boca emerge uma folha de tabaco.
Esse trabalho materializa o mito de criação em que a entidade Buinaima (Deus) concede sabedoria ao povo por meio de duas plantas sagradas, a coca e o tabaco, que são usadas em rituais espirituais e medicinais para a comunicação com o divino.
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Yahuarcani articula a riqueza da cosmologia uitoto com a memória ancestral profundamente marcada pela resistência e sobrevivência ao ciclo da borracha. Seu avô, Gregorio López, foi um dos sobreviventes do genocídio de Putumayo — ocorrido entre 1879 e 1912, quando a atuação de empresas extrativistas resultou no assassinato de cerca de 30 mil indígenas. “
Yahuarcani usa a pintura como um meio de honrar sua ancestralidade e denunciar injustiças históricas. Mais do que habilidades práticas, ele herdou de seus antepassados e familiares um modo de ver o mundo — modo esse profundamente enraizado na preservação da memória indígena, na importância espiritual da natureza e no poder da contação de histórias”, afirma a curadora Amanda Carneiro.
Relatos da coerção, trabalho forçado e outras violências contra povos indígenas são o tema do segundo núcleo da exposição: Tempo do choro de sangue. A obra “Lugar quente” expressa um desequilíbrio entre o espiritual e o humano. A pintura mostra figuras humanas de cabeça para baixo, pessoas sendo jogadas em uma fogueira e movimentos de perseguição.
“O tempo da borracha foi o choro de sangue. É assim que nós, uitotos, chamamos esse período, porque foi muito cruel. Nós, descendentes, sentimos essa dor, pois foi a destruição da nossa cultura”, diz Yahuarcani.
A parte interna das cascas de árvores amazônicas é manuseada e transformada por Santiago em uma tela natural, chamada llanchama. Esse uso reforça a relação direta do artista com a floresta, que não é considerada uma fonte de recursos ou paisagem, mas uma entidade viva, guardiã de conhecimento e história.
Para os uitotos, não há fronteira entre o material e o invisível, entre o presente e a ancestralidade. A floresta, os rios e os seres humanos, assim como as existências espirituais e físicas, coexistem e não se separam da vida cotidiana. Os humanos podem se tornar animais ou plantas, os rios escutam e a terra responde.
A exposição é organizada em parceria com The Whitworth (Inglaterra), onde esteve em cartaz de julho de 2025 a janeiro de 2026, e com o Museo Universitario del Chopo (México), que a receberá de outubro de 2026 a março de 2027.
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Serviço
Exposição “Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento”
Quando: até 2 de agosto de 2026
Onde: Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo – SP
Ingressos: R$ 85 (entrada) R$ 42 (meia-entrada)