A escritora e ativista visual Lubi Prates apresenta seu projeto de pesquisa, criação e difusão artística “Maternidade Negra à Luz”, que usa a fotografia para investigar novas formas de representar as mães negras, em uma exposição no Complexo Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, de 22 de agosto a 19 de setembro.
Com curadoria de Renata Felinto, a iniciativa conta com 50 fotografias coloridas e impressas em fine art. O trabalho foi realizado com o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
A proposta nasce de um processo de pós-doutorado da artista, cujo eixo central é a libertação simbólica da imagem das amas de leite, figuras historicamente vinculadas à escravidão e à servidão física e simbólica, para dar lugar à potência, à complexidade e à diversidade das maternidades negras no presente. Essa investigação se constrói a partir de um atravessamento entre pesquisa acadêmica, memória pessoal e escuta sensível.
A relação de Lubi Prates com a fotografia é marcada por uma experiência íntima que revela tanto um gesto de cuidado quanto uma exceção. Entre as três filhas de sua família, foi a única a ter um álbum de infância. Embora a irmã mais velha tenha muitos registros dos primeiros anos de vida, quando ainda era filha única, a irmã do meio quase não possui fotografias enquanto criança.
Leia mais: Exposição reúne histórias que revelam afetos e complexidades das periferias de Fortaleza
Lubi, a caçula, teve um ensaio fotográfico realizado em casa, com direito a penteado, troca de roupas e acompanhamento profissional, um investimento significativo para uma família negra dos anos 1980. A artista se pergunta o que teria mudado internamente em seus pais para desejarem registrar aquele momento, reconhecendo hoje que “há um cuidado poderoso em se registrar”.
Entre as imagens do álbum, uma fotografia em especial marca uma ruptura. Nela, Lubi aparece ao lado da irmã do meio, que entrou em cena chorando, vestida com sua roupa preferida, porque também queria ser fotografada.
A cena, guardada em um álbum de capa dura que a artista mantém até hoje, revela, mesmo na infância, uma denúncia silenciosa: o reconhecimento de que aquele cuidado não havia sido distribuído igualmente. Apesar de nunca ter perguntado à mãe por que decidiu fotografá-la, Lubi reconhece a importância daquele gesto e afirma que é por meio dessas fotografias que pôde conhecer a sua imagem enquanto criança.

Ausência de registros fotográficos: um padrão entre pessoas negras
Essa memória ganha dimensão coletiva quando, já no doutorado, a artista passa a pesquisar a fotografia de mulheres negras e a realizar entrevistas. Ao ouvir diferentes histórias, percebe que a ausência de registros fotográficos não era um caso isolado, mas um padrão recorrente entre pessoas negras.
Relatos de mães, avós e famílias inteiras sem imagens de si mesmas atravessam a pesquisa, evidenciando como o apagamento visual também opera como forma de violência simbólica. Para a artista, ouvir essas histórias foi profundamente impactante, revelando que a falta de imagens não é apenas uma lacuna, mas uma ferida histórica.
É nesse contexto que Maternidade Negra à Luz propõe a criação de imagens libertadoras, capazes de romper com os estereótipos racistas e sexistas que historicamente marcaram a representação das mulheres negras, especialmente por meio da figura da ama de leite, amplamente romantizada pela iconografia europeia do século XIX.
Leia mais: Exposição ‘Pelé: Tempo Rei’ reúne retratos do ícone do futebol em momentos de intimidade e lazer
Segundo as pesquisas da artista, essas imagens atenderam a interesses estéticos e ideológicos que consolidaram hierarquias raciais ainda presentes no imaginário social contemporâneo.
Os ensaios fotográficos do projeto foram realizados com seis mães negras e seus filhos, reunindo mulheres de distintas idades, origens, classes sociais e trajetórias. A escolha dos territórios é atravessada pela vivência da artista em Lisboa, Portugal, e pelo desejo de conhecer a Amadora, bairro historicamente marcado pela presença de populações negras.
Além da exposição, o projeto desenvolve um conjunto de ações formativas e de democratização do acesso à cultura, como visitas guiadas semanais, mesas de debate, oficinas de artes visuais, formações em fotografia e em maternidade e liberdade, além da produção de um catálogo crítico, vídeos de processo e uma newsletter mensal, escrita pela artista, que compartilha reflexões e bastidores do projeto.
Serviço
Exposição: “Maternidade Negra à Luz”
Data: 22 de agosto a 19 de setembro.
Local: Complexo Cultural Oswald de Andrade | Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo – SP