Seria possível imaginar um lugar entre o que convencionalmente é chamado de cinema brasileiro e o cinema negro brasileiro? Essa é a proposta de “Entrenegro”, nova mostra da Itaú Cultural Play, plataforma de streaming gratuita do cinema brasileiro.
Lançada na sexta-feira (29), a seleção tem curadoria da INDETERMINAÇÕES, plataforma de crítica e cinema negro brasileiro fundada pela historiadora, programadora e crítica cinematográfica pernambucana Lorenna Rocha e pelo jornalista, crítico e curador mineiro Gabriel Araújo.
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A mostra reúne dez filmes de diferentes lugares do Brasil e épocas — da década de 1960 a 2025 —, realizados por cineastas negros, brancos e indígenas, que ressoam as multiplicidades e disputas que caracterizam a formação e a delimitação das negritudes no país.
Ao destacar tensões e ambiguidades, as produções desafiam visões essencialistas sobre raça e questionam os pressupostos a respeito do que seria um cinema negro brasileiro. Organizados em eixos que abordam temas como religiosidade, memória e identidades, os filmes de Entrenegro foram pensados pela curadoria para serem assistidos em pares, de modo a friccionar e provocar reflexões entre as obras.
O acesso à Itaú Cultural Play é gratuito, disponível em itauculturalplay.com.br, nas smart TVs da Samsung, LG, Android TV e Apple TV, nos aplicativos para dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast. O conteúdo também pode ser encontrado na IC Play nas plataformas Claro TV+ e Watch Brasil.
Fricções que geram significado
A mostra começa com o documentário “Viramundo” (São Paulo, 1965), primeira direção do baiano Geraldo Sarno (1938-2022). Na década de 1960, a capital paulista recebia a cada ano mais de 100 mil migrantes, de várias partes do Brasil, em especial do Nordeste. Nesse contexto de efervescência cultural, Sarno registra depoimentos dessas pessoas, que contam seus sonhos por melhores condições de vida e demonstram a força das religiosidades em meio ao desemprego, à baixa remuneração e à fome. Lançado quase cinco décadas depois, o curta-metragem experimental Terremoto Santo (Pernambuco, 2017) também se volta às relações entre a religião, o corpo e o canto, e, por isso, a curadoria recomenda que seja visto junto a Viramundo.
Realizado em colaboração com grupos locais, “Terremoto Santo” observa jovens da Zona da Mata pernambucana que encontram, na liturgia evangélica e nos cantos de louvor, possíveis espaços de pertencimento e criação artística em meio ao trabalho. No filme, a dupla de diretores Bárbara Wagner e Benjamin de Burca sublinha aspectos estéticos e sociais do neopentecostalismo, ressaltando as “oralituras” que esses corpos carregam consigo enquanto professam sua fé.
As tensões entre memória e território aparecem em “Curió” (Ceará, 2022), curta-metragem documental de Priscila Smiths e P.H. Diaz que observa o cotidiano do bairro homônimo em Fortaleza, capital cearense, repercutindo a história das três décadas de sua formação. O registro dessa vida e as falas dos moradores revelam histórias de resistência e esperança em um espaço marcado por violência, mas também por laços comunitários.
Em diálogo com esse filme, o também documentário cearense “Alegoria dos autômatos” (2021), de Josy Macedo e Clébson Francisco, desconstrói, a partir de trechos de filmes, programas de televisão, propagandas, ilustrações e outras fontes, o mito da democracia racial no Brasil, denunciando as violências e apagamentos que atravessam a história do país.
A terceira dupla é composta pelos documentários “Maria Piauí “(Ceará, 2025), dirigido por Juma Pariri e pela Coletiva Maria Piauí, e “A baiana” (Bahia e Rio de Janeiro, 1973), de Moisés Kendler. Os filmes se complementam por oposição: enquanto o primeiro registra a construção, por um grupo de jovens indígenas, de um busto de barro da líder indígena cearense Maria Piauí, o segundo revisita a representação da baiana, considerada um símbolo da cultura brasileira, dando vazão à vida que escapa mesmo em imaginários construídos com base em estereótipos racistas. A cópia de A baiana foi cedida pelo Centro Técnico Audiovisual (CTAv).
A dupla composta pelo curta-metragem documental “Waldir Onofre “(Rio de Janeiro, 1979), de Tininho Fonseca, e pelo longa-metragem de ficção “Mugunzá” (Bahia, 2022), de Ary Rosa e Glenda Nicácio, estabelece um contato entre dois momentos específicos da cinematografia negra brasileira. O filme de Fonseca resgata a trajetória do cineasta, ator e roteirista Waldir Onofre (1934-2015), um dos cineastas que marcaram a produção negra brasileira da década de 70 com obras ousadas e populares. Já Mugunzá mistura teatro, cinema e música para contar a trajetória de Arlete, vivida pela atriz Arlete Dias, que busca se reerguer após perder seu amor, seu filho e sua casa. A cópia de Waldir Onofre também foi cedida pelo CTAv.
Fechando a seleção, duas produções contemporâneas aproximam arte e ancestralidade. No curta-metragem documental “Mborairapé “(São Paulo, 2023), Roney Freitas propõe um imbricamento entre as culturas negras e indígenas quando filma jovens rappers Guarani, da Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo, que transformam música em afirmação e luta por terra e existência. Já o longa-metragem “Cavalo” (Alagoas, 2020), de Rafhael Barbosa e Werner Salles, é um híbrido entre ficção, documentário e experimentação que convoca sete jovens dançarinos a mergulhar nos movimentos do corpo para se reconectar com suas origens e espiritualidade.