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Ocupação homenageia Grande Othelo em seus 110 anos de nascimento

Exposição é dedicada ao artista brasileiro multifacetado, que resistiu a apagamentos estruturais e contribuiu com o teatro, o cinema, a literatura e a música
O artista Grande Othelo.

O artista Grande Othelo.

— Reprodução/Redes sociais

30 de novembro de 2025

Nos anos de 1980, o cineasta alemão  Werner Herzog dirigiu “Fitzcarraldo”,  filme em que levou uma ópera à  Amazônia e se tornou um clássico do  cinema mundial. No elenco, estavam o  ator alemão Klaus Kinski, os atores  brasileiros José Lewgoy e Grande Othelo e o cantor e compositor Milton  Nascimento, que fez uma ponta.  Algumas décadas depois, em nova visita  ao Brasil, o diretor contou como Othelo o encantou: “Ele era ao mesmo tempo  caótico e selvagem. Havia tanta vida  naquele pequeno homem!  Simplesmente maravilhoso!” 

É esta personalidade marcante nacional  e internacionalmente, irrequieta, icônica e fundamental para a cultura  brasileira que encerra as exposições da  série Ocupação Itaú Cultural de 2025. A  partir das 11h de 6 de  dezembro, a Ocupação Grande Othelo reúne no piso 1 do Itaú Cultural (IC), em São Paulo, mais  de 160 peças do artista. A  mostra permanece em cartaz até 8 de março de 2026. 

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O espaço expositivo apresenta  rascunhos de poemas ou outros  concluídos – como “Cadê você,  Gonzagão?” que ele escreveu em  homenagem a Luiz Gonzaga –,  partituras originais dos anos 1940,  roteiros, objetos, cartas, fotografias,  indumentárias, suas agendas para  recados e outros cadernos pessoais,  documentos históricos como um  contrato com a Rede Globo, de 1967, ou  um diploma de cidadão paulistano, de  1978, e troféus como o Velho Guerreiro,  que Chacrinha lhe ofereceu em seu  programa dominical. 

Há ainda livros, objetos táteis,  depoimentos em vídeos – como o de um  de seus filhos, o ator José Antonio Souza  Prata, conhecido como Pratinha –,  capturados pela equipe IC, que também  confeccionou uma publicação nos  formatos impresso e digital e um site com outros conteúdos inéditos

A maioria dos objetos em exposição faz  parte do acervo de Othelo guardado no  Centro de Documentação e Pesquisa da  Fundação Nacional de Artes  (Cedoc/Funarte) – parceiro do Itaú  Cultural nesta mostra –, que se insere  no Programa Funarte Memória das  Artes, o qual, desde 2008, visa  reconhecer, valorizar e preservar a  memória das artes no Brasil. 

Outros itens presentes na mostra têm  origem nos arquivos da TV Cultura e da  TV Globo. A concepção, realização,  curadoria e projeto de acessibilidade  são do Itaú Cultural, com consultoria da  pesquisadora Deise de Brito, projeto  expográfico de Kleber Montanheiro e  desenho técnico de Lígia Zilbersztejn. 

A mostra 

De nome de batismo Sebastião  Bernardes de Souza Prata, nascido em  Uberlândia (MG) em 1915 (ou 1917, de  acordo com alguns registros), ele  adotou primeiro o nome Pequeno Otelo  e depois Grande Othelo – ele mesmo  acrescentou o “h” no nome e assim está  registrado em sua lápide. Morreu aos 78  anos no aeroporto Charles de Gaulle,  em Paris, França, em 1993, vítima de  um ataque cardíaco fulminante quando  se preparava para seguir para o Festival de Nantes, onde receberia uma homenagem

Othelo deixou um vasto legado artístico,  iniciado em um circo, em 1923, quando  ainda era pequeno: 103 atuações nos  palcos, mais de 100 filmes e 42  gravações em discos. Ele atuou no teatro de revista – gênero  popular que combinava música, humor,  crítica social e números de variedades – entre as décadas de 1930 e 1950.  Quando criança, ingressou na  Companhia de Comédia e Variedades  Sarah Bernhardt e, depois, para a  Companhia Negra de Revistas pautada  pela crítica social e o humor. Assim,  abriu o caminho nesse tipo de arte  cênica para artistas e talentos negros no  cenário artístico nacional. Ele também  participou da fase áurea do Cinema  Novo e do Cinema Marginal. Orson  Welles, para quem Othelo atuou em It’s  All True, que nunca chegou a ser  finalizado, o considerou o maior ator da  América Latina. 

Ator, comediante, cantor, produtor e  compositor brasileiro, considerado um  dos maiores ícones da cultura popular  brasileira do século XX, ele nunca deixou de lado a questão racial em suas  declarações e entrevistas. Em 1987, foi  entrevistado no programa “Roda Viva”, da  TV Cultura, e denunciou abertamente a  existência do preconceito racial. Para Othelo, a chamada democracia racial era uma falácia e afirmava que, apesar de seu sucesso individual, a  discriminação ainda persistia para a  maioria da população negra. Ele também se relacionou com diversas  personalidades artísticas, entre eles, a  amizade com Abdias Nascimento, do Teatro Experimental do Negro (TEN) e que também foi homenageado por uma Ocupação Itaú Cultural, em 2016. 

A sua trajetória ainda envolve atuações  com o humorista Oscarito, especialmente nas chanchadas da  companhia cinematográfica Atlântida, a cantora e dançarina Josephine Backer, as atrizes Bibi Ferreira e Ruth de Souza,  a atriz, intérprete, bailarina e cantora  Watusi, o cantor Nath King Cole, entre  muitos outros. Atingiu o ápice em  “Macunaíma”, filme lançado em 1969 e  dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. 

Todos esses aspectos de sua vida e obra  estão presentes na Ocupação, que se propõe em revelar percursos pouco conhecidos do público sobre Othelo, como, por exemplo, suas  contribuições à classe artística  brasileira, tendo sido vice-presidente da Associação Brasileira de Atores  Cinematográficos. Na exposição, um documento de 26 de setembro de 1961  revela o convite para assumir o cargo. 

Na Itaú Cultural Play 

Em sintonia com a Ocupação Grande Othelo, a plataforma gratuita de cinema brasileiro do Itaú Cultural exibe, a partir  de 5 de dezembro, uma mostra em  homenagem ao ator. Os filmes são as comédias “Carnaval Atlântida” (1952), de José Carlos Burle, no qual ele contracena com Oscarito, Cyll Farney, Eliana e José Lewgoy, e “Matar ou correr” (1954), de Carlos Manga, com Oscarito, José Lewgoy, Renato Restier e Inalda de Carvalho. Ainda, os dramas “Jubiabá” (1987), de Nelson Pereira dos Santos, ao  lado de Charles Baiano, Françoise  Goussard, Catherine Rouvel e Betty  Faria, e “Rio, Zona Norte” (1957), do mesmo diretor e no qual atuou com Jece Valadão, Paulo Goulart, Maria Petar, Malú Maia, Haroldo de Oliveira, a cantora Ângela Maria e Zé Ketti. 

Também fazem parte da programação o policial Lúcio Flávio, de “O Passageiro da  Agonia” (1977), de Hector Babenco, e  Ana Maria Magalhães, Ivan Cândido,  Milton Gonçalves, Paulo César Pereio,  Reginaldo Faria no elenco ao seu lado; o clássico “Macunaíma” (1969), de Joaquim  Pedro de Andrade, em que atua com Paulo José, Dina Sfat, Jardel Filho e Milton Gonçalves. Por fim, Também  “Somos Irmãos’, realizado por José Carlos  Burle em 1949, com Aguinaldo Camargo, Vera Nunes, Jorge Dória e Ruth de Souza.

Serviço 

Ocupação Grande Othelo 

Quando: de 6 de dezembro de 2025, a partir das  11h, a 8 de março de 2026 

Horários: erças-feiras a sábados, das 11h às 20h domingos e feriados das 11h às 19h 

Onde: Itaú Cultural – Piso 1 – Avenida Paulista, 149, São Paulo – SP

Entrada gratuita.

 

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