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Celebrações de Ogum e São Jorge expõem diferenças entre orixá e santo católico

Data mobiliza festas, ritos e encontros no país e evidencia papel histórico do diálogo entre religiões afro-brasileiras e catolicismo; Em entrevista à Alma Preta, Babalaô explica por que associação é um equívoco histórico
O ator Thiago Thomé representa Ogum na série "Meu Orixá", da artista visual e fotógrafa ancestral Márvila de Ewá.

O ator Thiago Thomé representa Ogum na série "Meu Orixá", da artista visual e fotógrafa ancestral Márvila de Ewá.

— Reprodução/@thiagothome/@eumarvilaaraujo

23 de abril de 2026

O dia 23 de abril reúne celebrações dedicadas a Ogum e a São Jorge em diferentes regiões do Brasil. A data tem forte tradição no Rio de Janeiro, onde se tornou feriado estadual e concentra manifestações religiosas e culturais que envolvem igrejas, terreiros, escolas de samba e encontros familiares.

Apesar da associação frequente, Ogum e São Jorge pertencem a tradições distintas. A aproximação entre eles resulta de processos históricos ligados à colonização e à repressão religiosa, que levaram populações africanas escravizadas a desenvolverem estratégias para manter seus cultos.

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Segundo o Babalawô Ivanir dos Santos, professor do Programa de Pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGH-UFRJ), Ogum ocupa um papel central nas religiões de matriz africana. 

“Ele é um orixá iorubá, caçador e ferreiro. Preparava ferramentas para agricultura, pesca, caça e também para defesa e guerra”, afirma em entrevista à Alma Preta.

Na tradição iorubá, Ogum está ligado ao domínio do ferro e à produção de instrumentos essenciais à vida coletiva. Facas, enxadas, espadas e outros utensílios fazem parte de seu campo simbólico. Essa relação o conecta ao trabalho, à tecnologia e à organização social.

Ivanir destaca que Ogum também se associa à transformação da natureza. “Ele está no berço do que chamamos hoje de ciência moderna, ao transformar mineral em ferramenta com o uso do fogo, da terra e da água”, diz.

A dimensão civilizatória do orixá ajuda a explicar sua relevância nas comunidades afro-brasileiras. No Brasil, Ogum se consolida como figura ligada à proteção e à vida cotidiana. 

“Pessoas que têm dificuldade no trabalho recorrem a Ogum. Ele também está ligado à proteção da vida”, afirma. A associação com caminhos e batalhas reforça sua presença simbólica em diferentes contextos sociais.

São Jorge integra a tradição católica. De acordo com registros históricos, nasceu na Capadócia, região que hoje pertence à Turquia, e atuou como militar do Império Romano. A execução ocorreu em 23 de abril de 303, após perseguições motivadas por sua fé cristã.

A imagem do guerreiro que enfrenta o dragão se tornou símbolo de proteção. Esse elemento contribuiu para a aproximação com Ogum no Brasil, sobretudo em contextos populares. 

“Como ele era um soldado, um guerreiro, associou-se a Ogum, especialmente na Umbanda”, explica Ivanir

Leia mais: Ogum e a dimensão civilizatória: uma leitura para além da guerra

Associação entre Ogum e São Jorge nasce no período colonial

A relação entre o orixá e o santo se estrutura durante o período colonial. Com o Catolicismo como religião oficial, práticas religiosas africanas sofreram repressão. Nesse cenário, a associação com santos funcionou como estratégia de preservação cultural.

Ivanir propõe outra leitura para esse processo. “Não gosto de chamar de sincretismo. Esse termo subordina a tradição afro ao catolicismo”, afirma. Ele define a prática como um “diálogo de proteção” ou “discurso oculto”, no qual símbolos católicos encobrem a continuidade dos cultos africanos.

A associação não ocorre de forma uniforme no país. Em estados como Bahia, Ogum pode ser relacionado a outras figuras religiosas. Já no Rio de Janeiro, a ligação com São Jorge se consolida com mais intensidade, sobretudo pela influência da Umbanda.

Uma escultura de São Jorge, santo celebrado no dia 23 de abril, junto do orixá Ogum.
Uma escultura de São Jorge, santo celebrado no dia 23 de abril, junto do orixá Ogum. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

As formas de celebração variam conforme a religião. Na Umbanda, o 23 de abril costuma concentrar festas dedicadas a Ogum. Em terreiros, há rituais, cantos e oferendas que marcam a data.

No Candomblé, o calendário segue outra lógica. “O ciclo litúrgico é próprio de cada casa. A festa de Ogum pode acontecer ou não nesse dia”, explica Ivanir. Em muitas casas, a celebração ocorre em períodos definidos internamente, sem relação direta com o calendário católico.

Leia mais: ‘São cultos completamente diferentes, mas que se ligam hoje’, diz líder religioso sobre Dia de São Jorge e de Ogum

Feijoada e encontros populares ampliam alcance da data

A feijoada se tornou um dos elementos mais conhecidos das celebrações. Embora não seja uma oferenda ritual tradicional, o prato ganhou espaço em eventos públicos e familiares.

Segundo Ivanir, a prática tem origem na Bahia. “O feijão está ligado a Ogum, mas a feijoada se popularizou e se espalhou pelo país”, afirma. Hoje, a comida aparece em encontros que reúnem pessoas de diferentes religiões.

Além da alimentação, a data envolve rodas de samba, encontros em praças e celebrações em casas e quintais. Esse conjunto amplia o caráter cultural do 23 de abril.

Para além das diferenças entre Ogum e São Jorge, o 23 de abril revela que a convivência entre tradições religiosas distintas é um aspecto central da sociedade brasileira.

“É uma celebração do diálogo inter-religioso”, afirma Ivanir. Segundo o babalawô, a data simboliza a possibilidade de coexistência entre crenças, sem hierarquia entre elas.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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