O dia 23 de abril reúne celebrações dedicadas a Ogum e a São Jorge em diferentes regiões do Brasil. A data tem forte tradição no Rio de Janeiro, onde se tornou feriado estadual e concentra manifestações religiosas e culturais que envolvem igrejas, terreiros, escolas de samba e encontros familiares.
Apesar da associação frequente, Ogum e São Jorge pertencem a tradições distintas. A aproximação entre eles resulta de processos históricos ligados à colonização e à repressão religiosa, que levaram populações africanas escravizadas a desenvolverem estratégias para manter seus cultos.
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Segundo o Babalawô Ivanir dos Santos, professor do Programa de Pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGH-UFRJ), Ogum ocupa um papel central nas religiões de matriz africana.
“Ele é um orixá iorubá, caçador e ferreiro. Preparava ferramentas para agricultura, pesca, caça e também para defesa e guerra”, afirma em entrevista à Alma Preta.
Na tradição iorubá, Ogum está ligado ao domínio do ferro e à produção de instrumentos essenciais à vida coletiva. Facas, enxadas, espadas e outros utensílios fazem parte de seu campo simbólico. Essa relação o conecta ao trabalho, à tecnologia e à organização social.
Ivanir destaca que Ogum também se associa à transformação da natureza. “Ele está no berço do que chamamos hoje de ciência moderna, ao transformar mineral em ferramenta com o uso do fogo, da terra e da água”, diz.
A dimensão civilizatória do orixá ajuda a explicar sua relevância nas comunidades afro-brasileiras. No Brasil, Ogum se consolida como figura ligada à proteção e à vida cotidiana.
“Pessoas que têm dificuldade no trabalho recorrem a Ogum. Ele também está ligado à proteção da vida”, afirma. A associação com caminhos e batalhas reforça sua presença simbólica em diferentes contextos sociais.
São Jorge integra a tradição católica. De acordo com registros históricos, nasceu na Capadócia, região que hoje pertence à Turquia, e atuou como militar do Império Romano. A execução ocorreu em 23 de abril de 303, após perseguições motivadas por sua fé cristã.
A imagem do guerreiro que enfrenta o dragão se tornou símbolo de proteção. Esse elemento contribuiu para a aproximação com Ogum no Brasil, sobretudo em contextos populares.
“Como ele era um soldado, um guerreiro, associou-se a Ogum, especialmente na Umbanda”, explica Ivanir
Leia mais: Ogum e a dimensão civilizatória: uma leitura para além da guerra
Associação entre Ogum e São Jorge nasce no período colonial
A relação entre o orixá e o santo se estrutura durante o período colonial. Com o Catolicismo como religião oficial, práticas religiosas africanas sofreram repressão. Nesse cenário, a associação com santos funcionou como estratégia de preservação cultural.
Ivanir propõe outra leitura para esse processo. “Não gosto de chamar de sincretismo. Esse termo subordina a tradição afro ao catolicismo”, afirma. Ele define a prática como um “diálogo de proteção” ou “discurso oculto”, no qual símbolos católicos encobrem a continuidade dos cultos africanos.
A associação não ocorre de forma uniforme no país. Em estados como Bahia, Ogum pode ser relacionado a outras figuras religiosas. Já no Rio de Janeiro, a ligação com São Jorge se consolida com mais intensidade, sobretudo pela influência da Umbanda.

As formas de celebração variam conforme a religião. Na Umbanda, o 23 de abril costuma concentrar festas dedicadas a Ogum. Em terreiros, há rituais, cantos e oferendas que marcam a data.
No Candomblé, o calendário segue outra lógica. “O ciclo litúrgico é próprio de cada casa. A festa de Ogum pode acontecer ou não nesse dia”, explica Ivanir. Em muitas casas, a celebração ocorre em períodos definidos internamente, sem relação direta com o calendário católico.
Feijoada e encontros populares ampliam alcance da data
A feijoada se tornou um dos elementos mais conhecidos das celebrações. Embora não seja uma oferenda ritual tradicional, o prato ganhou espaço em eventos públicos e familiares.
Segundo Ivanir, a prática tem origem na Bahia. “O feijão está ligado a Ogum, mas a feijoada se popularizou e se espalhou pelo país”, afirma. Hoje, a comida aparece em encontros que reúnem pessoas de diferentes religiões.
Além da alimentação, a data envolve rodas de samba, encontros em praças e celebrações em casas e quintais. Esse conjunto amplia o caráter cultural do 23 de abril.
Para além das diferenças entre Ogum e São Jorge, o 23 de abril revela que a convivência entre tradições religiosas distintas é um aspecto central da sociedade brasileira.
“É uma celebração do diálogo inter-religioso”, afirma Ivanir. Segundo o babalawô, a data simboliza a possibilidade de coexistência entre crenças, sem hierarquia entre elas.