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Ogum e a dimensão civilizatória: uma leitura para além da guerra

Ogum pode ser concebido como o orixá que dá sentido às criações, pois não basta transformar um punhado de terra em ferro, nem mesmo criar um  bloco de metal se este não tiver função relacionada ao propósito de sua criação
Registro de celebração no Terreiro Aruanda, em São Paulo.

Registro de celebração no Terreiro Aruanda, em São Paulo.

— Divulgação/Thiago Torres

23 de abril de 2026

Não é possível falar de Ogum sem falar sobre seus aspectos sociais. Ogum, um dos orixás mais populares em boa parte das matrizes africanas, é cultuado nos mais diversos terreiros. Tido como o orixá guerreiro, muito em virtude das sequelas do sincretismo com São Jorge, santo da igreja católica, é oportuno que se confira a Ogum características mais amplas do que simplesmente guerrear.

Conta um mito que Ogum, junto de seus dois companheiros, Alaka e Ajero, decidiu consultar o oráculo de Ifá. Queriam saber o que deveria ser feito para que cada um se tornasse rei de sua própria aldeia. 

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Ifá então orientou caminhos distintos: para Alaka e Ajero, a prescrição era clara:  deveriam preparar um ebó com 200 búzios, 200 obis e uma quantidade generosa de azeite de dendê. Tais elementos deveriam ser levados às encruzilhadas próximas de suas comunidades. Ogum, por sua vez, recebeu uma orientação diferente.  Deveria sacrificar um cachorro. 

Cada um retornou para sua casa e cumpriu exatamente aquilo que Ifá havia recomendado. 

Com o passar do tempo, algo se tornou evidente. Alaka e Ajero passaram a ser  amplamente reconhecidos por seus povos. Sua popularidade cresceu rapidamente, e não demorou para que fossem escolhidos como reis de seus povos. Ogum, entretanto, permaneceu na mesma condição; mesmo tendo realizado o ebó, nada havia mudado. 

Leia mais: Celebrações de Ogum e São Jorge expõem diferenças entre orixá e santo católico

Diante disso, Ogum retornou a Ifá, relatando a Òrúnmilà tudo o que havia feito. Após ouvir seu relato, Òrúnmilà percebeu que algo precisava ser ajustado e lhe deu novas instruções. Ogum deveria novamente providenciar um cachorro. Ao sacrificá-lo, deveria  passar o sangue do animal por todo o seu corpo. A carne deveria ser cozida e partilhada  entre ele e sua família.

Após o feito, Ogum deveria aguardar a próxima chuva e sair em busca de um lugar onde a terra tivesse sido cortada pela água, revelando uma erosão. Ali, onde encontrasse uma areia preta e fina, deveria recolhê-la e levá-la para queimar. 

Feito como orientado, após realizar o ritual, aguardou. Na noite seguinte, a chuva finalmente caiu. No dia seguinte, Ogum saiu em busca da tal areia, caminhando por longas horas, até encontrá-la. Recolheu uma grande quantidade e levou ao fogo. 

Ao aquecer a areia recolhida, presenciou algo inesperado: ela se transformou em  ferro. A partir desse ferro, Ogum forjou as primeiras ferramentas: uma faca e um facão.

Passando então a produzir esses instrumentos, a utilizá-los e a presentear outros orixás  com suas obras. Com isso, sua presença deixou de passar despercebida, seu nome  começou a circular entre os mais diversos reinos, tornando sua habilidade reconhecida e  sua importância evidente. 

Ogum, enfim, foi admirado e celebrado por seu povo. 

Tal mito concede a oportunidade de alargar as noções mais íntimas sobre este orixá que, para além de guerrear, é o orixá das criações e transformações, sobretudo aquelas que exigem grandes esforços e propõem alterar a forma como a sociedade se desenvolve. A forja e as ferramentas de sua criação são símbolos centrais deste orixá que reafirma um compromisso tecnológico com seu povo, rompendo com a ideia de subalternização e atraso tecnológico. 

A presença de Ogum diante de suas comunidades se inscreve não apenas na transformação da terra em ferro, mas também na construção de sentido para essa transformação. Em síntese, Ogum pode ser concebido como o orixá que dá sentido às criações, pois não basta transformar um punhado de terra em ferro, nem mesmo criar um  bloco de metal se este não tiver função relacionada ao propósito de sua criação. Para além  disso, é Ogum o orixá que busca reconhecimento de seu povo em virtude de seus feitos. 

Celebrar, tornar-se assim, parte da obra e da conquista, pois onde não cabe celebração, Ogum não faz morada. 

Ao se aprofundar nas noções mais íntimas de Ogum, torna-se possível perceber o quanto esse orixá se distancia da interpretação sincrética e, por que não, simplória, do “cavaleiro supremo que mora dentro da lua”. Essa leitura não apenas reduz Ogum a uma figura imagética, como também esvazia sua dimensão enquanto princípio ativo de  organização da vida social.

Ao deslocá-lo para o campo da fantasia ou da devoção descolada da materialidade, perde-se aquilo que há de mais estruturante em sua presença:  sua relação com a técnica, com a produção, com o fazer e com a transformação concreta  do mundo. Ogum não opera no plano da contemplação, mas no da intervenção, do relacionamento. É ele quem inaugura caminhos, quem viabiliza ferramentas, quem  inscreve no cotidiano a possibilidade de alterar a realidade a partir do trabalho e da  criação. 

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Por isso, compreender Ogum para além da chave sincrética é também reposicionar as matrizes africanas no campo da produção de conhecimento e tecnologia, rompendo  com leituras que insistem em situá-las fora dos processos de elaboração civilizatória.

Por fim, Ogum é o orixá a quem se canta para encontrar sentido naquilo que se  cria, ou mesmo para desenvolver a capacidade de transformar o que não tem sentido em  algo útil para si e para toda a sua comunidade. 

Que seja Ogum o orixá das possibilidades de um Brasil cada vez mais liberto de  modos arcaicos, retrógrados e disfuncionais de se viver, que se sustentam não por sua força, mas pela incapacidade de imaginar outras possibilidades de mundo. 

Ògún yè, mo yè! 

Ògún vive, eu vivo! 

Saravá!

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Sacerdote e Pai-de-Santo de Umbanda do Terreiro Aruanda, em São Paulo. Mestre em Ciência da Religião pela (PUC-SP) e doutorando em Ciências pela USP (FFLCH). Pesquisa o sincretismo nas religiões de matrizes africanas, sobretudo as sequelas provocadas nos terreiros de Umbanda. É autor do livro "Sincretismo na Umbanda - pactos e impactos na identidade dos povos de terreiro". Apresenta o podcast “Atina pra Isso!”, onde promove um mergulho em saberes tradicionais de terreiros e cultura afro-brasileira.

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