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Peça de teatro no Rio valoriza ancestralidade a partir do imaginário de griô

Solo de Felipe Silcler perpassa suas memórias enquanto homem negro que cresceu nos subúrbios e valoriza a ancestralidade a partir das histórias do imaginário do seu avô, um griô mineiro
O ator Felipe Silcler protagoniza o solo "Raízes de Mim".

O ator Felipe Silcler protagoniza o solo "Raízes de Mim".

— Divulgação/Renato Mangolin

3 de agosto de 2025

Felipe Silcler percebeu que não era mais criança quando começou a ser impedido de pegar os tradicionais doces de São Cosme e Damião nas ruas de sua vizinhança. E descobriu que atingia a maturidade quando começou a querer se unir aos adultos para ouvir as histórias contadas por seu avô, Sr. José Clemente, numa rodinha de cadeiras na calçada. Criado entre Marechal Hermes e Praça Seca, bairros do subúrbio carioca, foi nas vivências desses espaços que o menino preto foi se entendendo na vida, e percebendo nas histórias – as suas e as do avô – um tesouro a ser compartilhado.

Assim nasceu o solo inédito “Raízes de Mim”, que estreia sob direção de Marcos dos Anjos no dia 5 de agosto às 20h no Teatro Ziembinski, na Tijuca, no Rio de Janeiro. A entrada é gratuita.

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Contemplado pelo edital Pró-Carioca, o espetáculo é um misto de cena, rito e conversa com o público, onde o ator vai costurando histórias, entrelaçando memórias reais a outras imaginadas. Neste processo, cria também um espaço de confissão, onde relata as descobertas sobre si mesmo e trata de temas como o racismo sofrido cotidianamente, em um difícil exercício de olhar para si mesmo.

“Escrever algo que falava de mim me travou em muitos momentos. Vários assuntos foram bem difíceis de tratar. Construir esse espetáculo me fez lidar com vários sentimentos e me abriu novas possibilidades. A gente fala com muito cuidado sobre lembranças e sobre a importância de aproveitar o tempo, de compartilhar as histórias. É um monólogo, mas eu não estou sozinho”, acredita Silcler, que ficou conhecido pelo grande público em papéis na TV, como o jornalista Libério na novela “Novo Mundo” (TV Globo). 

Com uma dramaturgia que fala de saudade e afeto e uma montagem que mistura dança e teatro, a ideia de Felipe era ter construído o espetáculo junto ao seu avô materno, com quem conviveu por quase três décadas, mas não houve tempo. “Eu sempre quis levar para os palcos um trabalho que honrasse os que vieram antes, trazendo o rito e o sensorial pra cena. Construí o espetáculo mesclando algumas das muitas histórias contadas pelo meu avô, que veio de Minas Gerais, com outras histórias minhas. Ele sempre foi um griô, e eu só fui me dar conta disso durante o processo de construção deste espetáculo, quando ele já não estava mais aqui. Embora parta de mim e das minhas raízes, esta montagem também é sobre muita gente. No fundo, todos nos conectamos em muitas histórias”, pondera Felipe Silcler. 

A diversidade e a inclusão permeiam toda a montagem, e o diretor Marcos dos Anjos lançou mão de um recurso onde a acessibilidade estará em cena. O intérprete de LIBRAS Christofer Moreira acompanhará Silcler no centro do palco, em diálogo direto com o ator. “Esta é uma pesquisa minha que está em processo, onde investigo os formatos possíveis para ter a comunicação acessível dentro da cena. Deste modo, evitamos que seja um recurso externo inserido e que a atenção do espectador seja dividida”, antecipa Marcos.

Tendo em vista a riqueza que compõe as tantas camadas da cena suburbana, Felipe Silcler é categórico sobre as que, para ele, não podem ser deixadas de lado: como aproveitar o tempo sem essa aceleração que estamos vivendo hoje? “É sobre colocar as cadeiras nas portas das casas num dia quente de verão e ficar até tarde na rua, conversando sem ver a hora passar. E a leveza de encontrar a felicidade mesmo nas maiores dificuldades. Acho que o subúrbio traz essa coisa de casa, de família, de uma junção coletiva pra construção de algo maior – de uma festa na calçada a pintar a rua na Copa do Mundo. Eu tenho muito orgulho dessas minhas raízes”, finaliza.

Serviço

Solo “Raízes de Mim”

Temporada: 5 a 27 de agosto de 2025

Horário: Terças e quartas-feiras às 20h

Local: Teatro Municipal Ziembinski

Endereço: Av. Heitor Beltrão, s/nº – Tijuca – Rio de Janeiro

Classificação Indicativa: 12 anos

Duração: 60 minutos

Gênero: Drama

Entrada gratuita. Todas as sessões possuem intérprete de LIBRAS.

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