Neste ano, o debate sobre a criminalização do funk ganhou destaque nas casas legislativas de diversas capitais e no Congresso Nacional. O gênero, que compõe as múltiplas expressões da cultura negra, é frequentemente estigmatizado e associado a atividades criminosas.
De acordo com um levantamento da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, 2025 registrou a maior quantidade de projetos de lei contra o funk, com 63 propostas municipais, estaduais e federais apresentadas somente nos primeiros cinco meses.
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Sem citar diretamente a criminalização, a maioria das proposições relaciona o gênero à apologia ao tráfico de drogas e à sexualização de crianças e adolescentes, e proíbe a contratação de artistas para eventos produzidos pela administração pública.
Mas, para quem integra a cultura — em geral, pessoas negras e periféricas —, o funk não só é uma ferramenta que retrata a realidade, como também um símbolo da cultura negra e uma importante cadeia econômica, que gera emprego e renda para a população.
Em entrevista à Alma Preta, Caio Prince e Luana Maia, dois jovens artistas negros, destacam que a movimentação anti-funk de deputados e vereadores representa uma repressão da cultura periférica.
Luana Maia, de 23 anos, é uma cantora do Grajaú, periferia da Zona Sul da capital paulista, que transita entre o funk e o hip-hop, dois gêneros comumente visados pelos movimentos de criminalização. Para ela, a articulação apresenta um risco real de censura à população negra.
“Eles mexem não só com o funk, mas com a nossa comunidade, com a música, com a nossa vivência. E a nossa vivência, que é de quebrada, a gente curte e expressa de uma maneira diferente. E o risco de silenciar nossa voz e apagar nossa história é o que reforça ainda mais aquele estigma de sempre, de que sempre vem da periferia o problema. A periferia não é um problema”, aponta.

Criado no Jardim Miriam, periferia também da Zona Sul, o DJ e produtor musical Caio Prince, recorda que, além dos projetos de lei, a repressão também ocorre a partir das operações policiais deflagradas nos bailes funk, destacados pelo artista como “principal fonte cultural” do gênero.
“Com isso, temos a cultura sendo realizada de forma inacessível, impossibilitando a fonte de renda de pessoas que têm bares e restaurantes na quebrada. É claro que justificam essa perseguição dizendo que é combate à apologia ao crime e contra barulho e perturbação, mas sabemos que vai além disso”.
Os dois artistas tiveram o primeiro contato com o funk ainda na infância e seguiram até começarem a criar suas próprias músicas.
“A sociedade ainda não é capaz de enxergar que o funk apenas representa o que acontece dentro da própria sociedade. Tentam a todo custo criminalizar o funk, mas ele fala sobre dançar, sobre amor, ascensão, ostentação. […] E talvez falar sobre tudo isso de forma escrachada choca as pessoas, porque elas não estão acostumadas com isso. Com a verdade e a realidade sendo dita e principalmente por pessoas quebradas, que estão em ascensão”, considera Prince.

‘Megafones da realidade’
Para Luana Maia, a cultura do hip-hop e a do funk são porta-vozes, que funcionam como “megafones” sobre a realidade e geram identificação entre os jovens. A articulação por meio da música, segundo a artista, é uma forma de resistência e autoestima da juventude negra.
“Nós vamos cantar nossas dores, vitórias e a nossa visão para o mundo, sabe? A visão do mundo que a gente tem. Isso é resistência pura e autoestima, porque a gente cria moda, cria tendência. Somos diferentes, autênticos e nos expressamos de uma maneira diferente, que não dá nem para explicar, porque só nós temos a vivência”, conta.
A cantora defende que o tempo gasto com a articulação parlamentar anti-funk poderia ser melhor utilizado, como no fortalecimento de ações educacionais aos jovens negros ou a democratização aos espaços de lazer, para que exista um local seguro para os eventos da cultura.
Já Prince celebra o espaço que o gênero vem ganhando ao longo dos anos no cenário musical, e destaca que, cada vez mais, artistas do funk ocupam lugares nas listas de mais tocadas no Brasil. O DJ ainda diz que isso é uma mostra clara da popularização.
“O funk está gigante e nos resta aceitar, respeitar e democratizar o acesso de pessoas periféricas ao lazer e cultura, além de garantir a segurança dessas pessoas, que estão representando o nosso Brasil”, conclui.