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Thiaguinho une sonho e ancestralidade no projeto ‘Bem Black’

Com participações especiais, álbum marca fase experimental focada na celebração da música preta brasileira
Thiaguinho divulga "Bem Black", novo projeto musical focado na celebração da música preta brasileira

Thiaguinho divulga "Bem Black", novo projeto musical focado na celebração da música preta brasileira

— Divulgação / André Nicolau

31 de março de 2026

Lançado em janeiro com o seu primeiro volume, “Bem Black” não é apenas o nome do novo projeto de Thiaguinho, é a assinatura de uma virada de chave estética e sonora na carreira do cantor. A segunda metade do álbum chegou às plataformas nesta sexta-feira (27), realizando um desejo antigo do artista e entregando aos fãs um trabalho carregado de propósito.

No repertório, majoritariamente inédito, Thiago André mergulha fundo na pluralidade da black music. O disco é um convite para transitar entre o soul, o jazz e o R&B, tudo isso sem abrir mão da essência do pagode que o consagrou.

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Em entrevista à Alma Preta, o artista compartilhou as expectativas e as responsabilidades envolvidas na estreia da turnê “Bem Black”, que ocorre no palco da Suhai Music Hall no próximo dia 11.

O encontro promete ser um marco de celebração à cultura preta com convidados muito especiais, como Sandra Sá, Negra Li, Walmir Borges, Gaab e Sampa Crew.

“Na ideia do álbum eu já tinha esse sentimento de mostrar essa beleza que a gente tem, a potência que a gente tem. No meu caso é a música, então mostrar a importância que a nossa música preta tem para o Brasil, acho que todos os gêneros se espelham na música preta brasileira. E isso na gravação foi algo lindo”, compartilha Thiaguinho.

A emoção do projeto transbordou na gravação do álbum, realizada no Clube Holmes, em São Paulo, um território histórico de resistência e ocupação preta.

“O Walmir Borges falou algo muito lindo. Ele falou ‘cara, a gente não está sozinho. Está lotado de gente aqui que está orgulhoso do que estamos fazendo’. E eu espero replicar isso nos shows que vamos fazer nessa turnê, tenho certeza que vamos viver momentos especiais”, ressalta animado.

Leia mais: Thiaguinho lança álbum em celebração à música negra brasileira

“Aprendi a ser negro ouvindo pagode”

Mas se engana quem acredita que Thiaguinho cresceu norteado pela “excelência preta”. O artista conta que cresceu no Mato Grosso do Sul com poucos amigos negros, até adentrar no universo do pagode. 

“A vivência negra que eu tinha na minha vida era minha família: meu pai, minha mãe e minha irmã. Só. Não tinha negro na minha escola. Não tinha negro no futebol. Não tinha negro em lugar nenhum. Então, eu aprendi a ser negro ouvindo pagode. Eu aprendi a ser negro ouvindo rap”, afirma.

Foi assistindo à programas de televisão que o cantor passou a admirar alguns artistas que, mais tarde, serviriam de referência negra e musical, fortalecendo sua autoestima e transformando aquele garoto sonhador em inspiração para milhares de pessoas.

“Depois que eu vi o Alexandre Pires na televisão, Rodriguinho, Salgadinho, Péricles, Mano Brown, esses artistas nas televisões, eles me ensinaram muito sobre autoestima, sobre poder, sobre tanta coisa que eu, na época, não tinha defesa, sabe? Não tinha arma pra me defender”, conta.

“Eu aprendi a ter contato, de fato, com essa cultura negra quando eu entrei no Exalta. Quando eu vim morar em São Paulo. Quando eu virei amigo do Rodriguinho. Quando eu comecei a andar rodeado disso. Então, isso foi crescendo e apurando em mim. Não que eu não soubesse como é ser e o que é ser. Porque acho que isso a gente já nasce sabendo. E mesmo se você não souber, o mundo vai te mostrar”, explica.

Com este cenário em mente, Thiaguinho ainda compartilha a sua perspectiva de que todo artista negro traz consigo uma responsabilidade para ser referência de futuras gerações, e como essa maturidade impactou o seu novo projeto.

“Eu fui tomando isso como algo mais presente na minha vida naturalmente. Hoje eu enxergo essa responsabilidade com mais consciência ainda. Eu acho que a gente, com o tempo, vai criando consciência, vai aprendendo a lidar mais com todas essas situações que a sociedade nos obriga a viver. Principalmente pra mim, que tudo foi muito, entre aspas, diferente”, diz.

“Acho que o ‘Bem Black’ é mais um passo para isso. De poder demonstrar esse orgulho que eu tenho de ser negro. De poder deixar mais um legado para o meu filho que acabou de nascer. E não só para o meu, mas para outros meninos, para outras meninas. Que possam utilizar a minha música como empoderamento.”

Um baile black que transborda poder e beleza

Calçado no samba, o álbum é a realização de um desejo antigo de Thiaguinho: um projeto inteiramente dedicado ao “balanço”. A vertente, que injetou o suíngue do R&B e do soul no samba carioca das décadas de 50 e 60, segue viva na identidade do artista em hits como “Falta Você”, sucesso de 2021. 

Com ajuda do produtor musical Wilson Prateado (Grupo Kiloucura, Exaltasamba, Só Pra Contrariar, Negritude Jr.) e Walmir Borges, um dos maiores representantes do balanço no Brasil, o projeto ganhou forma e glamour.

“O balanço é algo que eu gosto muito de ouvir. Mas eu nunca tinha feito um álbum só de balanço. E aí eu quis deixar mais explícito essa mistura que eu sempre gostei de fazer da minha música com R&B, com Soul, com Hip Hop… Eu sempre gostei de trazer outros elementos para dentro da minha música. E no ‘Bem Black’ isso fica mais explícito, tem jazz, que eu amo ouvir desde criança, nesse álbum eu tenho essa chance de misturar tudo isso”, conta à Alma Preta.

E tudo isso, segundo ele, foi pensado para criar uma atmosfera de baile. Thiaguinho compartilha que gostaria de ter vidido na época em que os bailes eram liderados por cantores ilustres como Wilson Simonal e Sandra Sá.

“Hoje ainda temos bailes, mas eu acho que foi uma outra época também do preto do Brasil, sabe? A gente ainda tem as nossas lutas, ainda temos as nossas batalhas, mas acho que é uma época que eu gostaria de ter vivido. E aí eu quero transformar o meu show nesse momento, nessa turnê, com essa atmosfera. Um baile que é para todos, óbvio, mas com essa nossa marca, com essa nossa demonstração de poder e beleza”, afirma o artista.

Leia mais: Silvio Modesto lança álbum após 20 anos e celebra trajetória no samba

Para essa atmosfera ganhar forma, o convite à Sandra Sá e Negra Li, duas mulheres negras que são íconês da musica brasileira, foi essencial, para ele, que destaca que “a força feminina na força brasileira é muito grande”.

“Primeiro, é uma honra muito grande ter as duas no meu trabalho e no meu convívio. E segundo, o convite também serviu para poder honrar também tudo que elas conquistaram e continuam conquistando, né? Foi muito bonito receber elas, pela contribuição que elas vêm trazendo mesmo para o álbum. E fora o talento, né, cara? Que vem na frente”, elogia.

No projeto, Sandra Sá revisita “Olhos Coloridos”, enquanto com Negra Li, Thiaguinho divide os vocais de “Empoeirado Violão”, uma música que fala sobre amor, e a potência e doçura na voz da artista que marcou gerações no Hip Hop é a liga perfeita entre a rua e o balanço sofisticado. 

“Negrali é uma das vozes que também trouxe uma sensibilidade muito grande para a nossa juventude, principalmente no rap, né? Porque o rap tem a função social, tem a mensagem, que eu acho importantíssima, mas também nos ensinou a falar de amor”, conta.

“A Sandra dispensa comentários. Quando a Sandra abre a boca [em Olhos Coloridos], é um acontecimento. Ela é uma das poucas pessoas que me fazem chorar. Quantas vezes eu já chorei sozinho, sem ter motivo para sofrer? É um sentimento musical mesmo. Ela consegue entrar no meu coração de uma maneira… Porque eu acho que a voz dela é ancestral”, exalta o artista.

O álbum “Bem Black” está disponível na íntegra em todas as plataformas digitais. Os ingressos para o show em São Paulo, estão disponíveis no Ticket Master.

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  • Mariane Barbosa

    Curiosa por vocação, é movida pela paixão por música, fotografia e diferentes culturas. Já trabalhou com esporte, tecnologia e América Latina, tema em que descobriu o poder da comunicação como ferramenta de defesa dos direitos humanos, princípio que leva em seu jornalismo antirracista e LGBTQIA+.

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