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‘Dívida secular com o povo negro’: Câmara instala comissão especial para analisar fundo de reparação racial

Proposta constitucional prevê repasses anuais de R$ 1 bilhão para políticas de promoção da igualdade racial; Benedita da Silva (PT-RJ) preside comissão
Parlamentares durante a instalação da comissão que analisará a PEC da Reparação e eleição do presidente e vice-presidentes, na Câmara dos Deputados.

Parlamentares durante a instalação da comissão que analisará a PEC da Reparação e eleição do presidente e vice-presidentes, na Câmara dos Deputados.

— Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

17 de setembro de 2025

A Câmara dos Deputados instalou nesta terça-feira (16) a comissão especial responsável por analisar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 27/24, que cria o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial. O início dos trabalhos foi marcado pela intensa mobilização de movimentos negros, que lotaram dois plenários do corredor das comissões com faixas, cartazes e palavras de ordem em defesa da medida.

O fundo será incluído na Constituição e terá caráter permanente. A União deverá repassar R$ 20 bilhões de forma escalonada, em parcelas anuais de R$ 1 bilhão. A proposta também permite complementação por doações internacionais e outras fontes definidas em lei.

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A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) foi eleita presidente da comissão especial, derrotando o deputado Helio Lopes (PL-RJ) por 12 votos a 1. Ela destacou que o fundo será administrado por um banco federal, contará com conselho consultivo e terá duração permanente. “Com essa vinculação constitucional, o fundo vai ganhar status de política de Estado”, afirmou a parlamentar.

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) foi designado relator da proposta. Ele defendeu a construção de uma campanha nacional para ampliar o apoio ao texto no Congresso. “Para termos 308 votos a favor da PEC da Reparação, teremos que ir além dos 120 votos da esquerda. Não será uma tarefa simples. Nós temos que pagar essa dívida histórica com a nossa gente”, declarou.

O relator Orlando Silva (PCdoB-SP) afirmou que a proposta ainda enfrentará desafios no plenário. Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Foram eleitos para as vice-presidências os deputados Márcio Marinho (Republicanos-BA), Dandara (PT-MG) e Josivaldo JP (PSD-MA).

A secretária nacional de Acesso à Justiça, Sheila Carvalho, representante do Ministério da Justiça, manifestou apoio à proposta e ressaltou a importância do fundo para assegurar recursos às políticas de promoção da igualdade racial.  “Políticas só são criadas quando elas estão no orçamento. E a reparação é um elemento essencial do acesso à justiça para o povo negro”, afirmou durante a sessão.

“Dívida secular com o povo negro”

Em entrevista à Alma Preta, Orlando Silva reforçou que a PEC busca transformar uma reivindicação histórica em norma constituciona e que a proposta será construída em diálogo com o movimento negro e a sociedade civil. Segundo ele, o fundo tem o objetivo de consolidar políticas de reparação e equidade racial como política de Estado. 

“Precisamos de meios para financiar políticas públicas e garantir direitos ao povo negro brasileiro. O sentido dessa emenda é dar estabilidade a uma regra que assegure financiamento de políticas públicas que afirmem os direitos da população negra, de forma independente do governo de turno”, disse.

Para Orlando Silva, a PEC representa um passo decisivo no enfrentamento ao racismo estrutural. “Queremos que o Brasil avance, de fato, e essa será uma das medidas mais importantes que conquistaremos nesse objetivo”, concluiu.

Uma das promessas da comissão é o diálogo com o movimento negro e a sociedade civil. Foto: Mariane Barbosa/Alma Preta

Conferência e mobilização social

A instalação da comissão ocorreu durante a 5ª Conferência Nacional da Promoção da Igualdade Racial, que acontece até sexta-feira (19) em Brasília com o tema “Reparação e Justiça Social“. Houve também ato público em frente à Câmara em defesa da PEC. Paulo Ferreira, militante do Coletivo Nacional de Juventude Negra (Enegrecer), destacou que a luta pela reparação atravessa gerações. 

“Nas palavras de Lélia González, não só reparação já, mas reparação histórica e econômica. Nós debatemos isso desde as propostas do senador Abdias Nascimento. A reparação não vai vir das mãos de nenhuma princesa, mas a partir de cada negro organizado politicamente”, afirmou.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

  • Mariane Barbosa

    Curiosa por vocação, é movida pela paixão por música, fotografia e diferentes culturas. Já trabalhou com esporte, tecnologia e América Latina, tema em que descobriu o poder da comunicação como ferramenta de defesa dos direitos humanos, princípio que leva em seu jornalismo antirracista e LGBTQIA+.

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