A expressão “Tempo é Orixá” circula como um verdadeiro slogan entre adeptos das matrizes africanas. No entanto, é preciso cuidado: para não incorrermos em equívocos, devemos recolocar cada cultura em seu devido lugar, reconhecendo suas especificidades. Na verdade, a divindade associada ao tempo, chamada Kitembo, não pertence ao panteão yorubano, mas é um Inquice (Nkisi) cultuado nos candomblés de matriz centro-africana. Nos candomblés de matriz yorubana, quem guarda essa relação é Iroko, orixá reverenciado aos pés da gameleira branca, árvore que se torna espaço de culto e de passagem do tempo.
Já nos terreiros de Umbanda, para além de todas as positivas contribuições sincréticas do Candomblé, o tempo se personifica através dos Pretos e Pretas Velhas que deslocam com maestria a realidade cronológica que se observa dentro dos terreiros quando se fazem presentes.
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O tempo, nos territórios afroespirituais, gira em um ritmo deslocado da realidade social, distante da lógica acelerada da vida contemporânea e, sobretudo, do ritmo imposto pelas redes digitais. No terreiro, há uma ruptura com essa temporalidade hegemônica, pois se aprende a reconstruir a relação com o tempo, reconhecendo-o não como recurso a ser consumido, mas como presença a ser cultuada. O Senhor da Razão é então percebido como divindade digna de ser contemplada, respeitada e reverenciada em seu passar.
A ideia de “sociedade do cansaço”, desenvolvida pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, aponta para a transformação do tempo em mercadoria, dotada de preço e valor de troca. Nesse processo, a produtividade converte-se em fetiche e símbolo de status social, conduzindo o corpo ao esgotamento. O autor compara a relação contemporânea com os celulares à prática religiosa, descrevendo o aparelho como um “novo rosário”: uma ferramenta de dominação que organiza o nosso tempo e impõe um ritmo artificial de devoções seculares, marcadas pelo fluxo incessante de notificações e pela vigilância constante dos algoritmos.
Han aponta que a sociedade atual avança para o que denomina de “sociedade do doping”, em que substâncias e tecnologias prolongam artificialmente o desempenho, sob a promessa de ultrapassar os limites do corpo. Aquilo que parece liberdade se converte em nova forma de coerção. A exigência por rendimento ininterrupto transforma a autossuperação em imposição, de modo que não apenas o trabalho, mas a própria vida se vê capturada por essa lógica de exaustão, na qual até o descanso passa a ser calculado como recurso para voltar a produzir. Resultado: o descanso deixa de ser direito e se converte em simples combustível para manter a engrenagem da exaustão em movimento.
No mundo 24/7 descrito por Jonathan Crary, até o sono é tratado como falha, um intervalo inconveniente que precisa ser reduzido ou instrumentalizado. O corpo que dorme é visto com suspeita por se ausentar da lógica produtiva, não consome, não performa, é reduzido à condição de inutilidade. A noite, período de silêncio, recolhimento e regeneração, é transformada em turno extra de trabalho, em tela acesa, em consumo permanente. A insônia passa a ser normalizada e domesticada por formas alopáticas, enquanto a paciência, a pausa e o silêncio são reduzidos à condição de fraqueza.
Diante deste cenário de esgotamento, o terreiro toca seus tambores em outro ritmo. Em uma cadência que se adapta ao que Leda Maria Martins denomina tempo espiralar. Trata-se de um tempo que não caminha apenas para frente, mas que retorna, se dobra. Uma noção de realidade que não se limita ao tempo de um story ou vídeo viral, mas que se faz presente na memória e na presença dos ancestrais. Uma forma de estar no mundo que desafia a pressa e a ideia de progresso contínuo, tão próprias da modernidade.
Se a sociedade do cansaço exige aceleração e autossuperação, Pretos e Pretas Velhas comunicam a pausa. O tempo do café não é o da cápsula, é o do coador. Um rito que ensina que ver o tempo passar não é um ato improdutivo, mas pedagógico. Tomar o café com a Preta Velha obriga a desacelerar, a exercitar a escutar, a perceber que a vida não se sustenta apenas pelo desempenho e pela performance. O silêncio, a paciência e a sabedoria dos mais velhos instauram outra lógica de tempo, em que o valor não está no acúmulo, mas na partilha.
O café servido pelo Preto Velho é um convite à desaceleração. O tempo do café é, na verdade, um rito ao Tempo: a xícara quente nas mãos obriga a pausa, o respiro, o silêncio. O café esfria no seu tempo. Um ritual que ensina que ver o Tempo passar não é um sintoma da improdutividade, mas de uma consciência ampliada sobre a própria vida. Diferente da lógica algorítmica, que exige respostas imediatas, o Preto Velho responde com histórias longas, gargalhadas lentas, fumaças que curam. Trata-se de uma pedagogia radical que devolve ao corpo e à comunidade a possibilidade de respirar fora do compasso dos algoritmos. Distante da ideia de improdutividade, mas de uma outra forma de produzir vida e consciência.
É partindo deste pressuposto que os territórios de culto à afroespiritualidade se colocam como lugar de respiro e cuidado, em contraste direto com a aceleração e o esgotamento que marcam a sociedade em que vivemos.
Se a sociedade do cansaço nos impõe telas luminosas e algoritmos de captura da atenção, o terreiro oferece a penumbra da vela e o som do atabaque. Um território onde o corpo respira em outro compasso, a mente encontra um intervalo e a comunidade partilha um tempo que não é regido por relógios ou aplicativos. É nesse sentido que o terreiro e as divindades que ali se manifestam se convertem em resposta política e espiritual ao mundo hiperacelerado, não apenas como fuga, mas como criação de um tempo outro, onde o passado é quem garante o futuro.
Saravá o Tempo.
Jonathan Crary, 24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono. Tradução de Joaquim Toledo Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2014.