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Carnaval para além dos símbolos: herança ancestral de organização social 

Discutir o Carnaval, portanto, exige deslocar o foco exclusivo das narrativas visíveis e olhar para a base que sustenta a festa
Bloco Vez e Voz.

Bloco Vez e Voz.

— Divulgação

10 de fevereiro de 2026

Recentemente, soubemos do retorno de uma lenda viva à avenida do samba, Nei Lopes, artista e intelectual conhecido como cantor, compositor de samba, escritor, pesquisador da cultura afro-brasileira e advogado. Seu retorno reacendeu um debate que vai além dos enredos e recoloca no centro a importância de não ceder à superficialização e à homogeneização que as redes sociais frequentemente produzem sobre a cultura negra.

Ao questionar a repetição de certos temas nas escolas de samba, Nei Lopes nos convida a olhar para o Carnaval brasileiro não apenas como manifestação simbólica de crenças, mas como prática social viva, atravessada por disputas de sentido, por trabalho e por economia. O que se coloca em questão não é o valor de determinados repertórios culturais, mas o risco de transformar a realidade de uma comunidade plural e complexa em uma estética simples, previsível e segregada, individualizando e, em última instância, ocidentalizando uma identidade que sempre foi construída de forma coletiva.

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O Carnaval brasileiro, como tantos outros processos protagonizados pela população negra, organiza-se a partir de uma lógica de reprodução social. Ele não nasce necessariamente do espetáculo. Nasce da necessidade de produzir vida digna em contextos marcados pela escassez estrutural. Antes de gerar lucro, a festa, tal como se dá no Brasil, garante pertencimento, circulação, cuidado e permanência. Essa base, quase sempre invisibilizada, é o que torna possível a produção econômica associada ao Carnaval. Não há bloco, escola de samba ou festa de rua sem uma extensa rede de trabalho cotidiano que antecede e ultrapassa os dias oficiais da folia.

A cultura negra nunca operou sob a lógica capitalista tradicional que separa produção econômica e reprodução da vida. Essa cisão é própria de uma racionalidade que hierarquiza o que conta como trabalho e empurra para a sombra tudo aquilo que sustenta a existência coletiva. Do barracão aos blocos de rua, essa contradição se evidencia de forma contundente. A folia movimenta cidades inteiras, ativa cadeias produtivas, gera renda e visibilidade, mas se apoia em um trabalho majoritariamente não remunerado, feminizado, racializado e territorializado. Ensaios, costuras, reuniões, escutas, articulações comunitárias e o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência fazem parte dessa engrenagem, ainda que raramente sejam reconhecidos como economia.

Essa coletividade negra que estrutura o Carnaval opera a partir de uma ética em que cada pessoa importa para o funcionamento do todo. Não se trata de um ideal abstrato de diversidade, mas de uma prática concreta fundada na interdependência. Não há indivíduo autossuficiente. A produção só acontece porque a reprodução da vida foi garantida coletivamente.

É a partir desse entendimento que trago o bloco do meu coração, o Bloco Vez e Voz, que nasce do desejo de afirmar a presença efetiva de corpos historicamente excluídos do espaço público, tendo como mestra de bateria uma mulher. Mais do que uma escolha estética, trata-se de uma decisão política que reorganiza quem pode ocupar a rua, em que condições e com que legitimidade.

De acordo com Éric Tomas, a comercialização do Carnaval tem avançado ano após ano, tornando a festa cada vez mais direcionada por quem a patrocina. Esse movimento inverte a lógica original em que a reprodução social sustentava a produção econômica. Para Éric, a mercantilização engessa a experiência carnavalesca e cria um jogo de interesses que limita a presença, a troca e o convívio, resultando em uma homogeneização da festa. É nesse ponto que se toca o centro da provocação feita por Nei Lopes ao afirmar que esse grande espetáculo deveria diversificar mais os temas sobre a cultura negra.

“A gente sempre se colocou nesse lugar de que a mulher precisa ocupar e pertencer, mas isso tem que ser o ano todo, não pode ser só aquela coisa da vitrine”, afirma Éric. Discutir o Carnaval, portanto, exige deslocar o foco exclusivo das narrativas visíveis e olhar para a base que sustenta a festa. Exige perguntar quem trabalha, em que condições, com quais recursos e com quais custos sociais. A cultura negra sempre respondeu a essas questões com prática e a partir do território, organizando coletivos, criando redes, sustentando associações e inventando formas de existir apesar da precarização imposta.

Reconhecer o Carnaval como festa negra para além da diversão é reconhecer que ele produz economia, mas não parte dela. Ao contrário, inverte a lógica eurocêntrica ao ter origem na reprodução social que o torna possível. É um momento privilegiado para evidenciar que não existe produção sem vida sustentada e que a cultura negra produz economia precisamente porque nunca separou essas duas dimensões. Talvez seja justamente essa lição ancestral que os poucos dias de Carnaval insistem em nos lembrar todos os anos.

Em tempo, o Bloco Vez e Voz é da cidade de São Paulo e sai da Rua Augusta, 1.300, no bairro da Consolação, no dia 17 de fevereiro, a partir das 12h. Vem gente!

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Camila Santos

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