Você já parou para pensar quem segura as pontas quando tudo falha? Quem garante o mínimo de dignidade quando as políticas públicas não chegam, quando a escola não acolhe, quando a saúde não dá respostas e quando a sociedade escolhe virar o rosto? A resposta, quase sempre, tem cor, gênero e endereço: são as mulheres negras, sobretudo as periféricas. Agora imagine o que acontece quando essas mulheres, além de tudo, são atípicas – neurodivergentes, com deficiência ou adoecidas – e criam filhos que também fogem do padrão esperado pela sociedade.
Julho é o mês da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, um tempo de memória, denúncia e afirmação de existência. É nesse marco que precisamos, sobretudo, lançar luz sobre uma realidade brutalmente invisibilizada: a das mulheres negras atípicas e seus filhos atípicos, cujas vidas são atravessadas pela interseção do racismo, capacitismo, sexismo e da desigualdade social.
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A maternidade atípica da mulher negra periférica é uma das expressões mais cruéis do abandono histórico. Essas mulheres carregam o peso do cuidado quase sempre sozinhas, criando filhos com deficiência ou condições específicas em territórios onde o Estado se faz ausente. Quando não encontram apoio nas políticas públicas, lidam com serviços de saúde precários, escolas excludentes, racismo institucional e estigmas que as culpabilizam.
E há algo ainda mais perverso: muitas dessas mães também são mulheres com deficiência ou neurodivergentes. São, portanto, duplamente invisibilizadas – por serem mulheres negras atípicas e por criarem filhos atípicos. Essa sobreposição de violências mostra o quanto os sistemas de proteção social falham em reconhecer suas subjetividades, suas necessidades e seus direitos.
À luz do Bem Viver como horizonte político, é urgente denunciar a lógica perversa que concentra o peso do cuidado nas mulheres negras sem oferecer suporte digno. O Bem Viver nos lembra que não há justiça social sem justiça reprodutiva, sem acolhimento à diversidade dos corpos, das infâncias e das maternagens.
Não podemos romantizar essas mulheres como heroínas solitárias. Elas são, sobretudo, potência ancestral e embasamento estrutural de uma sociedade que insiste em excluí-las. O cuidado que ofertam, mesmo diante das violências, é ato de amor radical e enfrentamento político. Desafia o neoliberalismo, o racismo institucional, o capacitismo e o patriarcado – estruturas que querem transformar violências sociais em falhas individuais.
Reivindicar o Bem Viver para essas mães e seus filhos é romper com a lógica da mera sobrevivência. É exigir uma sociedade que reconheça o cuidado como responsabilidade coletiva, que valorize a diversidade das infâncias e que ouça, respeite e fortaleça as mulheres negras – inclusive aquelas que também são pessoas com deficiência, neurodivergentes ou adoecidas.
Essa luta não é das mães sozinhas. É de uma sociedade que precisa decidir: continuar sustentando a barbárie ou ousar construir outro horizonte. E, sobretudo, entender que a saída não está na caridade nem em políticas fragmentadas. A solução real exige um pacto civilizatório, capaz de reerguer as bases éticas, sociais e políticas que garantam vida digna para todas as pessoas. Um pacto que rompa com o silêncio, reconheça o valor do cuidado e afirme, com radicalidade, que não há Bem Viver possível sem justiça para as mulheres negras atípicas e seus filhos atípicos.