Na última semana, Parintins viveu mais uma edição de seu festival folclórico e novamente a arena se transformou em palco para uma das histórias mais simbólicas do Brasil. Entre lendas indígenas, entidades da floresta e alegorias monumentais, é sempre a narrativa de Pai Francisco e Mãe Catirina que costura o espetáculo apresentado pelos bois Garantido e Caprichoso. Muito além de um conto popular, essa história é uma metáfora potente sobre desigualdade, resistência e identidade nacional.
O enredo é conhecido: Mãe Catirina, grávida, sente desejo de comer a língua do boi mais bonito da fazenda. Para atender o pedido da esposa, Pai Francisco mata o animal, que pertence ao patrão. A partir daí, se desenrola uma série de consequências que envolve autoridades, igreja, curandeiros e a própria comunidade, até que o boi é ressuscitado, marcando a reconciliação e o retorno à harmonia.
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Esse ciclo, repetido a cada ano, é uma síntese de como o povo brasileiro aprende a sobreviver em meio às adversidades. Pai Francisco e Mãe Catirina são pessoas negras ou caboclas, que ocupam a base da pirâmide social. Vivem com pouco, enfrentam a fome e o racismo, mas mantêm o afeto, a coragem e o senso de coletividade.
Matar o boi do patrão é uma transgressão, mas também um símbolo. Representa o momento em que o povo rompe com o medo para atender suas necessidades mais urgentes. É um gesto de desobediência que, ao contrário do que se esperaria em uma narrativa punitiva, é acolhido com cura e festa.
No Bumbá, a justiça não é feita com punição, mas com perdão. A sabedoria popular e o conhecimento ancestral vencem. Essa escolha narrativa fala muito sobre o desejo de um país que precisa de reconciliação e respeito à diversidade.
O Festival de Parintins transforma esse enredo em espetáculo, com luzes, som e emoção, mas sua força está na raiz. Pai Francisco e Mãe Catirina continuam sendo a imagem do povo que luta, sonha e resiste. Ao contar sua história, Parintins nos lembra de onde viemos e para onde ainda podemos ir.