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Quando o racismo é relativizado, a democracia adoece

O colunista Felipe Ruffino discute decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de analisar entendimento da Justiça sobre casos de racismo; questionamento do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras busca melhorar aplicação da lei e proteger vítimas de discriminação racial
Estátua da Justiça no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF).

Estátua da Justiça no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF).

— Reprodução/Gil Ferreira/SCO/STF

17 de janeiro de 2026

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de analisar um caso de racismo envolvendo a cantora Ludmilla vai muito além de um episódio ocorrido em 2017. Trata-se de um julgamento simbólico, que toca em uma das feridas mais profundas da sociedade brasileira: a insistente relativização do racismo quando ele se manifesta de forma explícita, pública e violenta.

A ação apresentada pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras questiona uma decisão judicial que reconheceu a ofensa racista, mas a classificou como de menor relevância, resultando na absolvição do agressor. Esse entendimento é perigoso. Quando o Estado admite que houve racismo, mas conclui que ele não merece punição, o que se faz, na prática, é autorizar a repetição da violência.

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O racismo não é um ataque isolado. Ele opera como um sistema que constrange, silencia e desumaniza coletivamente pessoas negras. Decisões que minimizam esse tipo de crime reforçam a ideia de que a dor negra é tolerável, administrável e negociável. Isso não é neutralidade jurídica. É escolha política.

O caso voltou a ganhar repercussão após Ludmilla recusar uma homenagem do SBT, apontando a incoerência de aceitar reconhecimento de uma emissora que mantém espaço para práticas e discursos racistas. Sua decisão foi um gesto político e ético. Um lembrete de que representatividade não pode ser simbólica quando a estrutura que homenageia também reproduz exclusão.

As manifestações públicas de apoio de organizações do movimento negro reforçam que o debate extrapola a figura da artista. Trata-se de afirmar que o racismo, ainda que travestido de opinião, humor ou excesso de linguagem, continua sendo crime. E crime não pode ser hierarquizado conforme o status da vítima ou a conveniência social.

O julgamento no STF tem potencial para se tornar um marco histórico. Não apenas pelo desfecho jurídico, mas pela mensagem que será enviada à sociedade brasileira. Ou reafirmamos que o racismo é intolerável em qualquer instância, inclusive nos grandes meios de comunicação, ou seguimos normalizando a violência simbólica que sustenta desigualdades profundas.

O Brasil gosta de se enxergar como um país cordial e miscigenado. Mas enquanto o racismo for tratado como algo “menor” pelas instituições, seguiremos distantes de uma democracia plena. Combater o racismo exige mais do que discursos. Exige responsabilização, coragem institucional e o entendimento de que dignidade não se relativiza.

O STF não analisa apenas um caso. Analisa qual país escolhemos ser.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Felipe Ruffino

    Felipe Ruffino é jornalista, pós-graduado em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação, possui a agência Ruffino Assessoria e ativista racial, onde aborda pautas relacionada à comunidade negra em suas redes sociais @ruffinoficial.

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