Licença para entrar. Eu sou Rachel Quintiliano, jornalista e escritora, atuando na imprensa negra desde 1996. Passei por publicações como as revistas Swingando, Rap Nacional, Som Na Caixa, Revista Raça, site Bocada Forte e muitas outras iniciativas. Recentemente lancei o livro “Negra Percepção: sobre mim e nós na pandemia” e estou chegando aqui no Alma Preta para compartilhar leituras e reflexões que ajudam a pensar o Brasil a partir da palavra escrita e de um olhar negro.
Neste primeiro texto, chamo a atenção para escritores (as) negros (as) que estão construindo narrativas de futuro disruptivas e insurgentes. Eles e elas estão projetando futuros para pessoas negras a partir da literatura, e isso, para mim, é uma ação antirracista, na medida em que o racismo opera para aniquilar as pessoas negras e, por consequência, o seu futuro, enquanto indivíduos e como grupo.
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Distópico, fantasioso, com elementos de ficção científica, dialogando com as mitologias africanas — seja como for —, a literatura ofertada por essas pessoas nos permite sonhar com um futuro diferente e possível. Não à toa, a vertente mais popular desse movimento, no cinema — o filme “Pantera Negra” — alcançou bilheteiras superlativas, inclusive no Brasil.
E, por aqui, autores como Lu Ain-Zaila, Fábio Kabral, Sandra Menezes e Ale Santos, têm nos permitido conhecer e imaginar o futuro.
Segundo a Academia Brasileira de Letras, instituição fundada por Machado de Assis — também escritor negro —, afrofuturismo é: “[…] movimento cultural, estético e político que se manifesta no campo da literatura, do cinema, da fotografia, da moda, da arte e da música, a partir da perspectiva negra, e utiliza elementos da ficção científica e da fantasia para criar narrativas de protagonismo negro, por meio da celebração de sua identidade, ancestralidade e história; em geral, obras pertencentes a este movimento procuram retratar um futuro grandioso, caracterizado tanto pela tecnologia avançada quanto pela superação das condições determinadas pela opressão racial, dentro do contexto da vivência africana e diaspórica”.
Lu Ain-Zaila (foto de capa)
Precursora deste nicho da literatura brasileira, Lu Ain-Zaila é pedagoga e escritora, e agiu de forma independente para que suas publicações pudessem existir e circular. O seu primeiro livro já é uma referência para o gênero. “(In) Verdades”, de 2016, faz parte da duologia “Brasil 2408” e conta a história de Ena, jovem que vive no Brasil do século XXV após um apocalipse climático que transformou o país em uma sociedade altamente tecnológica, organizada sobretudo para garantir a própria sobrevivência.
A jovem cresce marcada pelo atentado que matou seu pai quando ela ainda era criança. Já adulta e determinada a se tornar oficial das Forças Distritais, ela carrega o peso desse legado e começa a descobrir que o último gesto de seu pai deixou um segredo capaz de alterar não apenas seu destino, mas também o futuro do mundo em que vive.
Fábio Kabral

Formado em Artes Cênicas, Fábio Kabral publicou o seu primeiro livro em 2014, mas a segunda obra mergulha de fato no afrofuturismo. Em “O Caçador Cibernético da Rua 13” (Malê, 2017), o escritor constrói uma narrativa que combina aventura, tecnologia e referências à mitologia iorubá.
A história se passa em Ketu 3, um universo habitado por uma população negra altamente tecnológica, onde João Arolê, um jovem caçador de espíritos malignos, trabalha por encomenda. Marcado por conflitos internos e pelas mortes que carrega na consciência, João vive em um mundo onde as fronteiras entre bem e mal são ambíguas.
Sandra Menezes
Sandra Menezes é escritora e jornalista, autora do romance afrofuturista “O céu entre mundos”, publicado em 2021 e que foi finalista do Prêmio Jabuti em 2022 e vencedor do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica 2022.
Na publicação, ela apresenta o planeta Wangari — um novo mundo habitado por populações negras — e Karima, a personagem principal, que mantém uma conexão espiritual e telepática com um ancestral africano.
A história articula memória, espiritualidade e identidade, mostrando como a ligação com o continente africano e com aqueles que vieram antes pode orientar o futuro, mesmo em um universo marcado por tecnologia, deslocamento planetário e conflitos sociais.

Ale Santos

Ale Santos é possivelmente o autor mais conhecido do gênero entre os citados aqui é reconhecido por sua habilidade em criar narrativas que exploram temas como afrocentricidade, ancestralidade, resistência e futuro imaginativo. O livro de maior destaque é “O Último Ancestral”, finalista do Prêmio Jabuti e do CCXP Awards em 2022.
No livro, Ale Santos constrói uma narrativa complexa em um mundo dominado por tecnologia e por um regime de segregação racial imposto pelos Cygens — seres híbridos de humanos e máquinas. A população negra foi confinada à favela de Obambo, na periferia do Distrito de Nagast. Nesse cenário vive Eliah, um jovem que tenta sustentar a si e à irmã, Hanna, envolvido em roubos de carros, enquanto ela se destaca como autodidata em linguagens eletrônicas.
A vida dos dois muda quando Eliah descobre carregar o espírito do Último Ancestral, uma força capaz de defender seu povo. A narrativa mistura distopia, ancestralidade e crítica social. Recentemente, Ale Santos ofertou mentoria gratuita para pessoas que desejam lançar carreira na ficção afrofuturista, usando como mote o prêmio Kindle Vozes Negras.