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Conceição Evaristo lança ensaio fundador sobre literatura negra

Livro preserva o texto original, de 30 anos atrás, permitindo ao leitor acompanhar a formação do pensamento crítico sobre a literatura negra no Brasil
Imagem mostra Conceição Evaristo, idosa negra retinta e de cabelos grisalhos. Ao fundo, há uma planta grande.

A escritora e professora Conceição Evaristo.

— Leonor Calasans

14 de fevereiro de 2026

A escritora Conceição Evaristo lançou pela Pallas Editora o livro “Literatura negra: Uma poética de nossa afro-brasilidade”, obra em que apresenta aos leitores a sua dissertação de mestrado em Literatura Brasileira, defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1996.

Publicado agora, exatos 30 anos depois e no ano em que a autora mineira completa 80 anos, sem alterações substanciais, o livro preserva o texto original, permitindo ao leitor acompanhar a formação inicial do pensamento crítico sobre a literatura negra no Brasil.

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Produzido em um contexto acadêmico que ainda não reconhecia plenamente a autoria negra como parte do cânone literário, o trabalho articula análise crítica, pesquisa histórica e reflexão conceitual para examinar a constituição de uma poética marcada pela afro-brasilidade. Ao longo do livro, Conceição analisa poemas de autores negros dos séculos XIX e XX, com especial atenção àqueles que circularam na série “Cadernos Negros“, do coletivo Quilombhoje, destacando a literatura como espaço de afirmação identitária, memória e resistência.

A publicação apresenta o texto pioneiro que nutriu o surgimento do conceito de escrevivência, posteriormente desenvolvido pela autora mineira em sua obra ficcional e ensaística. Nele, Conceição propõe a compreensão da literatura negra como um discurso em que o sujeito negro se apresenta como agente de sua própria história. O livro ganhou capa ilustrada pela artista visual Paty Wolff.

Ao percorrer autores como Luís Gama (1830–1882), Maria Firmina dos Reis (1822–1917), Machado de Assis (1839–1908), Cruz e Sousa (1861–1898), Lima Barreto (1881–1922) e Solano Trindade (1908–1974), além de seus contemporâneos, a escritora constrói um panorama crítico que evidencia a presença contínua e historicamente silenciada das vozes negras na literatura nacional.

O livro também se debruça sobre temas como uso da língua, oralidade, memória do corpo negro, reconstrução da história oficial e a dimensão política da criação literária.

Com apresentação da escritora e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Denise Carrascosa, orelha do professor Eduardo de Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e prefácio em que a própria autora revisita o contexto de produção da pesquisa, Literatura negra: Uma poética de nossa afro-brasilidade oferece ao leitor um valioso documento histórico e, mais do que isso, um instrumento fundamental para compreender a formação de um pensamento crítico ancorado em saberes negros e ancestrais no campo dos estudos literários brasileiros.

“Como pesquisadora negra, eu queria ser a gente própria de uma análise, de uma investigação, de uma contextualização marcada por suportes teóricos construídos no campo de uma episteme negra e ancestral. Salvei-me pelos textos poéticos apresentados, porque a arte chega antes de qualquer teoria. Repito: A nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, e sim para acordá-los de seus sonhos injustos”, enfatiza a autora na apresentação.

Reconhecida por sua escrita visceral e por sua contribuição singular para a literatura e o pensamento crítico, Conceição Evaristo tem parte significativa de sua obra publicada pela Pallas Editora. O novo livro se junta aos célebres “Olhos d’Água” (de contos, publicado em 2014), “Ponciá Vicêncio” (romance, nova edição pela Pallas em 2017), “Becos da memória” (romance, edição Pallas de 2017) e “Canção para ninar menino grande” (romance, de 2022).

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