Abordando identidade e território a partir da cultura e memória, o Bando Mukuvu estreia “MUKUVU – uma festa para engravidar corações”, seu mais novo espetáculo de dança e música. A montagem faz apresentações gratuitas nos dias 6, 7 e 8 de junho, sexta-feira e sábado, às 20h e domingo, às 18h, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), onde o grupo também viabiliza uma série de ações formativas com vivências e rodas de conversa.
O espetáculo começa ainda fora do palco, com o bando chegando de uma jornada, carregando objetos simbólicos – suas próprias bagagens. A música de abertura é conduzida pelo som de cuícas, também conhecida como mukuvu em língua lunda, tocada através de uma bateria eletrônica (MPC). A dramaturgia se constrói em solos, duos, trios e conjuntos, revelando a singularidade de cada um dentro de um tempo coletivo, já que todos os artistas em cena atuam, dançam, cantam e tocam.
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As apresentações do grupo, vivências e rodas de conversa integram o projeto “Miolo de Caule”, idealizado pelo Bando Mukuvu e contemplado na 37ª Edição do Fomento à Dança da Cidade de São Paulo.
Movimentos do centro do corpo
A construção estética e dramatúrgica de “MUKUVU – uma festa para engravidar corações” se dá a partir da filosofia Bantu, especialmente os estudos sobre o cosmograma bakongo, que apresenta uma organização do tempo fundamentada nos ciclos da natureza, além do conceito de tempo espiralar, trazido por Leda Maria Martins, que permite que passado, presente e futuro coexistam.
“Na encenação, isso se traduz em uma coreografia que não busca descrever essas ideias, mas sim estruturá-las como base sensível e poética da narrativa”, explica Paloma Xavier.
Ela conta que desde 2016, o Bando Mukuvu investiga os movimentos do centro do corpo – umbigada – e a relação deles com os movimentos femininos ao seu entorno, em especial de mulheres periféricas de ascendência afro indígenas. “Foi então que passamos a nos encontrar com danças que promovem a umbigada como gesto ritual e de celebração.
Na apresentação, a umbigada surge como símbolo central a partir da pesquisa sobre o ventre – suas dinâmicas físicas, políticas e culturais. Esse gesto ancestral, presente em danças como o batuque de umbigada, é incorporado de forma transversal na encenação: na coreografia, na música e na dramaturgia. Ele não é apenas um movimento, mas um elo simbólico entre corpos e tempos, evocando fertilidade, encontro e continuidade.
“Na coreografia, vivenciamos essas danças em seus aspectos técnicos e simbólicos, incorporando-as a partir das histórias corporais dos intérpretes. A umbigada, portanto, se torna motor criativo, capaz de entrelaçar memórias, identidades e ancestralidades em um movimento espiralar que impulsiona a cena”, pontua Paloma.
A musicalidade, inspirada nas congadas, na caiumba e no samba de bumbo, é outro elemento fundamental na cena, criando uma escuta ativa para o tempo espiralar. A música, que carrega o nome do espetáculo, é composta a partir das tradições banto-sudestinas, com seus tambores e cantos, mas também dialoga com sonoridades eletrônicas como guitarra, contrabaixo e mpc. Essa combinação gera um ambiente sonoro híbrido, que sustenta a coreografia e amplia a escuta para diferentes temporalidades.
Ações formativas
O Bando Mukuvu promove uma série de ações formativas no Centro Cultural São Paulo. No dia 4 de junho, quarta-feira, das 14h às 17h, acontece a “Vivência prática de Congada e Moçambique Mineiro” com os capitães da Irmandade Nossa Senhora do Rosário do Jatobá (Belo Horizonte), tradicional confraria negra de Minas Gerais que celebra a fé, a memória e a luta do povo negro no sudeste.
Durante a vivência, ministrada pelo Capitão Mor Juarez Barros e pela segunda capitã da Congada São Benedito Ritielly Karoline, os participantes terão a oportunidade de conhecer os fundamentos históricos e espirituais da congada e do Moçambique e aprender na prática toques, cantos e passos dessas expressões.
No mesmo dia 4 de junho, das 19h às 21h30, acontece a roda de conversa “Congados e Moçambiques – Reinados negros em São Paulo e Minas Gerais” com participação de integrantes da Irmandade Nossa Senhora do Rosário do Jatobá (MG), Congada São Benedito de Cotia (SP), Congada Santa Efigênia de Mogi das Cruzes (SP), Kambaiá – Cia. de Moçambique (SP). O bate-papo propõe uma vivência que articula história oral, dança, música, religiosidade e identidade afro-brasileira.
“O Bumbo e o Tambú – Tambores que encantam os umbigos” é o tema da roda de conversa que acontece dia 7 de junho, sábado, das 15h às 17h, com a participação de Antonio Filogênio de Paula Junior, do Batuque de Umbigada de Piracicaba; Rosa Lira Pires Sales, do Samba de Bumbo Nestão Estevam, de Campinas; e Alessandra Ribeiro, do Jongo Dito Ribeiro, também de Campinas. Autores do livro Ngoma Chamou, eles nos conduzem uma prosa viva sobre as expressões culturais de matriz africana Bantu que ecoam no Oeste Paulista.
Já nos dias 11 e 12 de junho, quarta e quinta-feira, das 14h às 18h, o Bando Mukuvu realiza vivências práticas sobre seus métodos de pesquisa e criação. No primeiro dia os artistas Fagner Lourenço, Patrícia Ashanti e Paloma Xavier realizam a vivência “Visualidades que dançam – Poética Visual do Bando Mukuvu”, um mergulho nos estudos e processos criativos que compõem a linguagem visual do Bando Mukuvu. Já no segundo dia com o tema Espiral de corpo e música – Criação cênica do Bando Mukuvu os integrantes Dêssa Souza, Iúna Augusto, Mateus Rodrigues, Liliane Rodriguês e Paloma Xavier compartilham os os processos criativos e as pesquisas que atravessam a dramaturgia do Bando Mukuvu.
A série de ações formativas se encerra com a oficina “Experimentos Afro Corpóreos”, que acontece de 16 de junho a 7 de julho, segunda-feira, das 10h às 12h30, na Casa das Invenções, sede do Grupo no bairro do Campo Limpo. Ministrada por Janette Santiago, a oficina é uma aula de dança que explora as corporalidades afro-diaspóricas e convida para experienciar e investigar o movimento.
Serviço
28 de maio, quarta-feira, às 10h30 e 15h.
Fábrica de Cultura da Brasilândia – Av. General Penha Brasil, 2508 – Brasilândia, São Paulo.
6, 7 e 8 de junho, sexta-feira e sábado, às 20h e domingo, às 18h.
Centro Cultural São Paulo [Sala Adoniran Barbosa] – Rua Vergueiro, 1000 – Liberdade, São Paulo.
60 minutos | Livre | Gratuito (ingressos na bilheteria duas horas antes do início da sessão).