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Não é só Ruanda: Uganda também apoia grupos armados na República Democrática do Congo

Mais ao norte da fronteira leste da RDC, grupos apoiados por Uganda promovem ataques em regiões congolesas. Conflitos étnicos são estimulados com o intuito de extrair minérios de maneira ilegal.
Crédito: Tech. Sgt. Jeremy T. Lock

Soldados de infantaria do exército de Uganda.

— Crédito: Tech. Sgt. Jeremy T. Lock

15 de junho de 2025

Os ataques à República Democrática do Congo (RDC) são de autoria, em sua maioria, do M23, grupo rebelde de maioria de pessoas da etnia tutsi e apoiado por Ruanda. Mas este não é o único grupo armado que trava uma guerra contra a RDC. Além disso, alguns desses grupos rebeldes também são apoiados por Uganda.

Em 27 de janeiro deste ano, o M23 tomou a cidade de Goma, capital do Kivu do Norte. Semanas depois, em 17 de fevereiro, o grupo capturou a cidade de Bukavu, capital do Kivu do Sul. Mais de 7 mil pessoas já foram mortas nesse conflito, segundo o governo da RDC.

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Enquanto isso, mais ao norte da fronteira leste da RDC, grupos apoiados por Uganda também promovem ataques em regiões congolesas. Um exemplo são os confrontos na província do Ituri, que fica ao norte do Kivu do Norte, onde o M23 têm agido.

Arte: Daniel Pereira/Alma Preta.

Mas lá os grupos armados tendem a seguir uma dinâmica diferente: Uganda estimula conflitos étnicos com o objetivo de extrair minérios de maneira ilegal.

Segundo Kaganda Mulume-Oderhwa Philippe Doudou, diretor do Centro de Pesquisa e Estudos sobre Conflito e Paz, os grupos armados dessa província agem mais a partir de conflitos comunitários. Ou seja, diferentemente do M23, eles têm ligações com os grupos étnicos. 

“Outro ponto comum é o fato de que esses grupos servem de apoio ao líder político dessas comunidades”, explica Doudou.

Conflitos no Ituri 

Províncias da República Democrática do Congo ao leste, na fronteira com Ruanda e Uganda. Arte: Daniel Pereira/Alma Preta.

No Ituri, o principal conflito é entre grupos armados de pessoas das etnias Hema e Lundu. Uganda manipula essa disputa étnica para seus interesses e se posiciona como parceiro dos grupos com membros da etnia Hema.

“Nessa região existem muitos minerais, como ouro, cobalto e coltan. Então, os grupos armados de Ituri têm relações com os operadores do poder político e econômico de Uganda, essencialmente por conta da exploração ilegal de minérios”, explica Doudou.

Uganda utiliza a presença de grupos armados em Ituri para justificar a ação de tropas no território congolês, como forma de apoio no combate a essas milícias.

Em vídeo divulgado no dia 5 de junho, o porta voz das forças armadas de Uganda, Chris Magezi, anunciou que os militares do país ocuparam Kasenyi, região do lado congolês do Lago Alberto.

O governo ugandês afirma que as milícias armadas congolesas cometem massacres na parte leste da RDC e que precisa combatê-las para defender seu território.

A etnia Hema ainda tem aliança com a Convenção para a Revolução Popular (CRP), fundada em março deste ano por Thomas Lubanga.

A CRP, novo grupo armado de Thomas Lubanga

O líder da CRP já é um figura conhecida da longa guerra na República Democrática do Congo. Ele foi a primeira pessoa condenada pelo Tribunal Penal Internacional, em 2012. Sua pena foi de 14 anos de prisão pelo recrutamento de crianças enquanto era o líder da União de Patriotas Congoleses. Os crimes foram cometidos entre 2002 e 2003, na província de Ituri.

A Convenção para a Revolução Popular é um grupo armado formado por congoleses e ugandenses que são contrários ao regime de Kinshasa. Eles atuam na extração ilegal de minérios. 

A CRP é um bom exemplo de uma dinâmica comum na região: os grupos mudam de nome mas costumam ter os mesmos rebeldes como líderes.

No início deste mês, em 2 de junho, as margens do Lago Alberto, na fronteira da RDC com Uganda, foram palco de combates entre as forças armadas da RDC e a CRP.

O governador de Ituri, o general Johnny Luboya, afirma que a CRP tem como membros antigos soldados dos grupos que se apresentavam como “Zaire”. Esse é o antigo nome da RDC, então escolhido por Mobutu Sese Seko, que governou o país de forma autoritária entre 1965 e 1997.

Outras milícias da região, como a Cooperativa para o Desenvolvimento do Congo (Codeco) e as que contam com membros da etnia Lundu, atuam ao lado das forças congolesas.

Apesar de relatórios da ONU apontarem para as conexões entre Thomas Lubanga e o M23, o CRP nega qualquer vínculo. 

O M23 e o risco de invasão na RDC

As características dos conflitos nas províncias do Kivu do Norte e Kivu do Sul são diferentes da guerra no Ituri. Elas estão mais relacionadas à dinâmica de soberania territorial do país. 

“Os grupos armados das províncias do Kivu do Norte e do Kivu do Sul se constituíram baseados na proteção do território nacional. Então, você vê que, efetivamente, nessa região, há grupos armados que têm como finalidade impedir que Ruanda invada o país”, explica Doudou. 

Arte: Daniel Pereira/Alma Preta.

O medo de invasão tem respaldo em todos os relatórios da ONU sobre o conflito recente. Os documentos denunciam a presença de militares de Ruanda no leste da RDC e o suporte que eles dão aos rebeldes do M23.

Entre os grupos armados do leste da RDC, o M23 é aquele que apresenta reivindicações mais explícitas, até por ser o braço armado de uma organização política chamada de Aliança do Rio Congo. Entre elas, está uma maior inserção de pessoas da etnia Tutsi, vítimas do genocídio em Ruanda em 1994, no exército e na sociedade congolesa.

A ONU ainda chegou a acusar Uganda de oferecer suporte para o M23. De acordo com o relatório, o país facilitou a passagens de rebeldes do grupo pelo seu território. 

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A RDC vive, sobretudo na capital em Kinshasa, um sentimento de rivalidade com Ruanda. Não à toa uma das milícias armadas que atuam em favor da RDC se chama Wazalendo, palavra que na língua swahili significa “Patriotas”.

O grupo é uma milícia armada que atua ao lado do exército nacional e tem um histórico de acusações de violações de direitos humanos.

Apesar disso, os Wazalendo não têm a mesma disciplina e organização de um exército regular. Em caso de fim da guerra contra o M23 e Ruanda, há uma preocupação sobre qual lugar vão ocupar na sociedade congolesa. Não se sabe se irão para o exército oficial ou se seguirão como uma milícia independente.

ADF, opositora de Uganda

Na mesma região de fronteira, no Ituri, ainda há a atuação das Forças Democráticas Aliadas (ADF), uma das principais milícias congolesas e opositora do regime de Uganda.

Com uma atuação diferente do M23, a ADF tem a estratégia de tentar se misturar com a população civil dos vilarejos da região, o que dificulta seu combate.

A ADF chegou a declarar conexão com o Estado Islâmico e foi acusada de cometer massacres na região, com armas e facões. 

Os dois países, Uganda e RDC, chegaram a criar a “Operação Shujaa” em 2021 para enfrentar a ADF. 

A milícia armada tem uma atuação mais restrita na fronteira entre a RDC e Uganda, e não ameaça Ruanda.

O exército de Uganda também opera no território da RDC. Em vídeo divulgado no dia 5 de junho, o porta-voz das forças armadas de Uganda, Chris Magezi, afirmou que os militares do país ocuparam Kasenyi, região no lado congolês do Lago Alberto.

A histórica aliança de Uganda e Ruanda

Uganda é um aliado histórico de Ruanda. Na Primeira Guerra do Congo, em 1996, apoiou Ruanda e Laurent Kabila para a derrubada do ditador Mobutu. 

Na Segunda Guerra do Congo, entre 1998 e 2003, esteve ao lado de Ruanda para a derrubada do regime de Laurent Kabila, depois de divergências entre os líderes das três nações.

Os dois países ainda fazem uma série de treinamentos militares em conjunto, como forma de fortalecer a aliança entre as duas nações. Em março deste ano, o chefe das forças armadas de Uganda visitou o exército de Ruanda para dar uma aula para os militares do país vizinho. 

“Com a capacidade combinada desses dois fortes exércitos, não existe desafio que nós não podemos superar “, disse o general ugandês Muhoozi Kainerugaba. 

Uganda e Ruanda organizaram, inclusive, uma partida de futebol entre os militares das duas nações como forma de confraternização. A partida ocorreu no dia 31 de maio de 2025, durante o conflito na RDC.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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