Educação antirracista: teatro de bonecos fortalece identidade negra nas escolas de Fortaleza

Espetáculo do Grupo Parafuso promove identificação racial e reflexão crítica em crianças da rede pública
Apresentação do Grupo Parafuso de Teatro em escola da rede pública de ensino de Fortaleza.

Apresentação do Grupo Parafuso de Teatro em escola da rede pública de ensino de Fortaleza.

— Divulgação/Grupo Parafuso de Teatro

13 de julho de 2025

Com bonecos feitos de garrafa pet e histórias que celebram a identidade negra, o Grupo Parafuso de Teatro tem levado reflexões potentes sobre racismo, intolerância religiosa e a ditadura da beleza para crianças de escolas públicas de Fortaleza (CE).

A iniciativa faz parte do projeto de contação de histórias “A Menina e o Gênio das Lamparinas”, que realizou apresentações gratuitas em quatro unidades escolares da capital cearense nos dias 23 e 25 de junho.

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Além do espetáculo, o projeto inclui rodas de conversa com os estudantes e o lançamento de um vídeo com acessibilidade no YouTube do grupo — com tradução em Libras, audiodescrição e legendas.

Bonecos, ancestralidade e protagonismo negro

A peça, parte da trilogia infantojuvenil “Ceará Encantado”, foi escrita por Keven Rocha, que também dirige o espetáculo. Na narrativa, a jovem Rosângela, menina negra e protagonista da história, embarca em uma jornada de autoconhecimento ao lado do Gênio das Lamparinas, de Mãe Zimá, Kaune Tapeba e da Cobra Bonitinha. Juntos, enfrentam desafios que a ajudam a resgatar suas raízes e a reconhecer sua beleza.

“A Rosângela é uma criança como muitas que estão nas escolas públicas: negra, cheia de dúvidas, com a autoestima fragilizada por uma sociedade que impõe padrões de beleza eurocêntricos”, explica Keven. “A história mostra que ser negra é bonito, é forte, é ancestral.”

Segundo o diretor, a recepção das crianças foi emocionante. “Elas nos receberam com brilho no olhar. Ficaram encantadas com os bonecos e se conectaram com a narrativa. Muitas se identificaram com a Rosângela, especialmente por terem a mesma cor de pele. Isso mostra a urgência de representatividade nas histórias que elas consomem”, conta.

O uso do teatro de bonecos — com forte inspiração nos mamulengos nordestinos — foi essencial para o engajamento do público infantojuvenil. “A ludicidade cria uma ponte. Os bonecos despertam curiosidade e afeto. E quando eles passam mensagens profundas, como as que tratamos na peça, o aprendizado acontece de forma natural e afetiva”, acrescenta Rocha.

Além de facilitar o diálogo, o teatro de formas animadas também carrega saberes da cultura popular cearense. “Nosso grupo pesquisa essas linguagens porque acredita que elas dialogam com a nossa gente, com as nossas raízes. É uma forma de educar e, ao mesmo tempo, preservar tradições.”

Apresentação do Grupo Parafuso de Teatro em escola da rede pública de ensino de Fortaleza (CE).
Apresentação do Grupo Parafuso de Teatro em escola da rede pública de ensino de Fortaleza (CE). Foto: Divulgação

Arte como instrumento de empatia e transformação

Ao final de cada sessão, rodas de conversa aprofundam os temas da peça. Para Keven, esses momentos revelam o impacto transformador da arte. “As crianças falam com o coração. Algumas disseram: ‘essa menina sou eu’. Outras, não negras, disseram que agora entendem melhor o racismo e que querem ajudar a combatê-lo. Isso é muito poderoso.”

O grupo também observou que o espetáculo despertou nos estudantes sentimentos de empatia, gratidão e vontade de agir. “Percebemos que muitas crianças nunca tinham visto uma peça com protagonistas negras ou indígenas. Elas ficaram tocadas, perguntaram, quiseram saber mais. Foi bonito ver como a arte pode abrir caminhos de consciência.”

Mais arte nas escolas, mais futuro para as crianças

Criado em 2019 em Fortaleza, o Grupo Parafuso de Teatro tem como missão unir cultura popular, inovação e compromisso social. Em sua trajetória, já realizou espetáculos como Lindomar e a Viagem no Tempo e Boi Eternidade, que também abordam temas sociais a partir de uma linguagem acessível e encantadora.

A ação desenvolvida nas escolas foi apoiada pelo edital “Vozes Plurais: Circulação e Difusão Literária”, da Secretaria da Cultura do Ceará, com recursos da Lei Paulo Gustavo.

Para o diretor, o projeto evidencia a necessidade de mais arte no cotidiano escolar. “Existe uma carência enorme. Quando a arte chega, toca fundo. Ela comunica, provoca, transforma. Precisamos ocupar esses espaços com narrativas que fortaleçam nossas crianças, para que elas cresçam com orgulho de quem são e preparadas para enfrentar as violências do mundo”, afirma.

O vídeo com a contação da história A Menina e o Gênio das Lamparinas será lançado em breve no canal oficial do grupo e permanecerá disponível gratuitamente, ampliando o acesso ao conteúdo. “É mais uma forma de garantir que essa mensagem chegue longe. O combate ao racismo e à intolerância também passa pelo encantamento”, finaliza.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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