Fui uma criança dos anos 1990, criada na periferia da zona leste de São Paulo. Era a única neta, a única sobrinha, a única criança no quintal onde moravam minha mãe, meu pai, meus avós e meus tios. Minha mãe, mulher preta, nascida nos anos 1960, foi a primeira da família a casar e sair pra trabalhar. Diferente da minha avó, que foi proibida pelo marido de trabalhar, minha mãe venceu essa barreira com o apoio da rede comunitária periférica ao seu redor.
Naquele quintal, todo mundo cuidava de mim. Mas quando penso no afeto, na leveza e no acolhimento, são os homens que me vêm à memória. Eles me ensinaram sobre vínculo e presença sem precisar nomear essas coisas. Me levavam pra pista de skate, me apresentavam música, arte, cultura. Meu tio lavava o carro com Racionais MCs tocando alto, meu pai ouvia MPB comigo. Eu era só uma menina, e eles me tratavam assim: com espaço pra existir. Sem cobrança e sem dureza.
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Todos esses homens eram pretos.
Com o tempo, percebi que as mulheres da minha família, embora amorosas, estavam sempre exaustas. Carregavam heranças escravocratas na forma de autocobrança extrema e doação de afeto pra fora, sobrando pouco pra dentro (tal qual as amas de leite). Já os homens me ofereciam algo que no universo feminino ocidental não é permitido: pausa. Brincadeira. Respiro. Me ensinaram que a vida não precisava ser só luta. E isso ficou em mim.
Depois me tornei mãe. De duas meninas, com um homem preto. E sim, repito comportamentos das mulheres com quem convivi e encaro as dores inerentes de ser uma mulher preta: sobrecarga, exaustão, perseguição da perfeição. Mas em algum momento comecei a me perguntar: por que é tão difícil para mim promover leveza com minhas filhas? Minha mãe dizia: “É fácil ser afetivo quando não precisa pôr comida na mesa.” E sim, concordo. Mas tem algo além. Uma criança precisa crescer sabendo que tem direito ao descanso, ao erro, ao sonho. E é aí que a paternidade preta começa a me atravessar como potência.
Porque ser um homem preto presente e cuidador é uma forma direta de resistência. Como diz Diego Silva, fundador do Parentalidade Preta, um ecossistema multimídia dedicado a promover debates profundos e reflexões sobre as experiências de paternidade e masculinidade na comunidade negra a partir da produção de podcasts (com séries documentais exclusivas), formações e rodas de conversa, consultorias e cursos (Lei 10.639 e afrocentricidade), materiais pedagógicos, campanhas de financiamento coletivo e curadoria automatizada de conteúdos.
“Ser um homem preto presente é resistir ao projeto que foi montado pra que a gente não ficasse. Desde o sequestro dos nossos ancestrais, a estrutura operou pra desarticular a família negra. Essa ausência foi forçada, incentivada e depois naturalizada como se fosse nossa. Eu recuso isso.”
Recusar esse projeto é construir futuro. E muitos homens pretos têm feito esse movimento — mesmo que ainda tateando. A paternidade preta está engatinhando num terreno onde não há referências. É como se os nossos tivessem visto o que é ser mãe, mas nunca tivessem tido chance de serem representados e aprender o que é ser pai.
O próprio pai das minhas filhas, um dia, me perguntou: “O que é ser um pai pra você? Eu não sei.”
E ele não é exceção. Muitos homens pretos não se reconhecem como sujeitos do afeto. Cresceram sem ver isso. E quando não se vê, não se imagina. Diego reforça:
“A sociedade empurra o homem preto pra sobrevivência, não pra elaboração. Estamos lidando com desemprego, racismo institucional, criminalização constante, ausência de saúde mental. E ainda tem um abismo de escuta: quando um homem preto tenta voltar, tenta acertar, a porta geralmente está trancada. Mas quando erra, é escancarada pro julgamento.”
Ou seja: não basta querer. É preciso reconstruir uma referência. Criar um modelo. Ser pai, nesse contexto, é cavar espaço num terreno de entulhos coloniais.
Mas quando essa trilha se firma, o impacto é profundo. Diego completa:
“A paternidade preta é uma trincheira de cura. Reconstrói a autoestima dos filhos e ensina que é possível amar e ser amado sem violência, sem cobrança de perfeição, sem esconder quem a gente é.”
“É transformador quando um menino preto cresce sabendo que o pai dele ficou. Quando uma menina preta cresce sabendo que foi protegida. Isso muda tudo: o jeito de se ver, de amar, de pisar no mundo.”
Esse impacto começa com o homem preto se reconhecendo como sujeito do afeto. E reverbera: nas mulheres, nas crianças, na comunidade. Isso não é só família. É política. É revolução íntima com efeito social.
Por isso, nesse Dia dos Pais — e em todos os outros dias —, eu te convido a ir além da presença. Vamos falar de regeneração sistêmica, de cuidado como direito e de paternidade preta como tecnologia social de preservação da vida.