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Dona Jacira e o legado de impacto das mães pretas e periféricas

Dona Jacira foi mãe solo e viúva desde muito cedo. Sua forma de maternar expressa o que tantas outras mães pretas nas periferias vivem todos os dias
A escritora e artista plástica Dona Jacira no documentário documentário "O Legado".

A escritora e artista plástica Dona Jacira no documentário documentário "O Legado".

— Lana Pinho

1 de agosto de 2025

A partida de Dona Jacira Roque de Oliveira, mãe de Emicida e Evandro Fióti, reverberou para além do luto familiar. Sua vida nos obriga a encarar o protagonismo estrutural das mães pretas e periféricas, mulheres que muitas vezes reivindicam do cuidado de seus lares para se tornarem líderes comunitárias, educadoras culturais, guardiãs de saberes e arquitetas da sobrevivência cotidiana.

Sempre que posso reforço que o Brasil é, historicamente, um país matrifocal. Nas periferias, essa configuração se intensifica. As mulheres são o centro e o sustento de seus lares. Mas é preciso dizer com todas as letras: não há nada de romântico nisso. A ausência paterna nas famílias negras não é cultural, é um projeto político. Um projeto forjado pelo colonialismo e pela escravidão, que desmontou famílias negras e indígenas como estratégia de dominação. Homens negros foram reduzidos a reprodutores forçados, enquanto mulheres negras assumiram sozinhas a missão de criar e proteger suas crias em contextos de extrema violência e escassez.

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Quando a Lei do Ventre Livre foi promulgada em 1871, os filhos de mulheres escravizadas passaram a ser considerados “livres”, mas a responsabilidade por esses filhos não foi atribuída aos pais. Ficou com as mães ou com os senhores. Os homens negros, mais uma vez, foram juridicamente apagados. Essa omissão deliberada ajudou a naturalizar o desaparecimento da figura paterna negra na construção da família brasileira. A narrativa do “pai ausente” não nasceu do acaso, ela foi plantada e cultivada por uma sociedade que lucrou com o desmonte das famílias negras.

Ao mesmo tempo, o patriarcado europeu impôs um modelo de família centrado na separação entre os espaços público e privado. O homem na rua, a mulher dentro de casa. Mas nas bordas urbanas, essa lógica nunca funcionou. As mulheres pretas sempre trabalharam fora e dentro de casa, garantindo a sobrevivência de suas famílias. E mesmo as referências africanas poligâmicas, frequentemente mal compreendidas, foram usadas como argumento para reforçar uma parentalidade desequilibrada, quando na verdade a realidade foi uma maternidade sobrecarregada, imposta à força.

Dona Jacira foi mãe solo e viúva desde muito cedo. Sua forma de maternar expressa o que tantas outras mães pretas nas periferias vivem todos os dias. Mulheres que organizam o lar, educam com firmeza, alimentam com o que têm e constroem redes de solidariedade em meio ao caos. E Dona Jacira também deixou um legado subversivo. Ela semeou em seus filhos uma nova possibilidade de construção familiar preta.

Emicida e Fióti são símbolos vivos da recusa à narrativa do “pai negro ausente”, bem como uma legião de novos pais. Eles reivindicam o direito de serem pais inteiros, afetivos, conscientes. E isso não acontece apesar da ausência paterna em suas histórias. Acontece justamente porque Dona Jacira foi presença. Com sua palavra, sua escrita, sua escuta e sua força, moldou a forma como seus filhos enxergam o mundo, a negritude, a paternidade e o direito de sonhar. Ela transformou o cotidiano em manifesto e subverteu ausência em presença que se reverbera na forma como seus filhos hoje escolhem ser pais.

Como diz Emicida, “o melhor pai que eu conheço é o pai que eu serei para as minhas filhas”. Essa é a virada; essa é a revolução. Uma geração de homens negros e periféricos está aprendendo a inventar novos jeitos de estar com seus filhos. Estão criando do zero uma paternidade possível sem fórmula. Com coragem. Coragem de cuidar, de ouvir, de se responsabilizar, mas principalmente de se vulnerabilizar e se fazer presente.

Com esse legado, Dona Jacira não foi apenas mãe. Foi construtora de um projeto coletivo de subversão, assim como milhares de mulheres negras que, com inteligência coletiva e de cuidado, desmontam as armadilhas do racismo e plantam novos futuros. Se a política da ausência paterna preta foi forjada na dor e na desumanização, o legado de mães como Jacira aponta para um outro caminho. Um caminho onde homens negros podem ser afetivos, conscientes e livres para paternar com cuidado.

Honrar essa trajetória é reconhecer que a reconstrução da paternidade negra e periférica exige ação coletiva, escuta e justiça histórica. É disso que se trata. Esse é o caminho para um Brasil mais justo, mais sensível e, acima de tudo, que honre a cultura negra.

O impacto de Dona Jacira vai além do familiar e do simbólico, é estrutural. Nas bordas do mundo, as mães pretas são as arquitetas invisíveis de economias solidárias, negócios sociais e tecnologias de cuidado que não só sustentam, mas regeneram.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Camila Santos

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