Ter acesso a livros que retratam vivências, personagens e culturas negras faz toda a diferença no desenvolvimento de crianças negras na primeira infância. É nesse período, ainda tão sensível e formativo, que meninos e meninas começam a construir sua identidade, autoestima e a forma como se percebem no mundo.
Quando se reconhecem nas páginas de um livro — na cor da pele dos personagens, nos penteados, nas rotinas familiares ou nas tradições retratadas — essas crianças se sentem vistas e valorizadas.
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A leitura, nesse contexto, vai além das palavras: se torna um gesto de afeto, fortalece vínculos familiares, estimula o senso de pertencimento e planta, desde cedo, sementes de orgulho e confiança. Apesar disso, o acesso à literatura e ao universo simbólico que ela carrega ainda é profundamente desigual no Brasil.
O estudo “Leitura na primeira infância: o nível de alfabetização dos pais importa?”, publicado em 2021 pelo Instituto Alfa e Beto e disponibilizado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, aponta que o hábito de leitura está fortemente relacionado ao nível de escolaridade dos pais — especialmente das mães.
Com base em indicadores de desenvolvimento infantil e grau de letramento dos pais, todos provenientes de lares de baixa renda, a pesquisa revela que crianças cujos responsáveis leem para elas apresentam desempenho significativamente melhor em habilidades como o reconhecimento de letras, a escrita do nome e a identificação de números.
Por outro lado, se destaca uma desigualdade racial alarmante: crianças negras (pretas e pardas) são menos expostas à leitura domiciliar do que crianças brancas. Esse abismo reflete um histórico de exclusão educacional e barreiras estruturais que dificultam o acesso de famílias negras à cultura escrita.
“Em relação à raça/cor das mães, observa-se que o hábito de leitura é mais comum nos domicílios com mães brancas e menos comum nos domicílios com mães pretas”, destaca o estudo.
Reconhecimento, afeto e construção da identidade racial
A escritora, professora, contadora de histórias e especialista em Educação Infantil e Educação Antirracista Bruna Cristina tem se dedicado à transformação da educação desde os primeiros anos de vida, com ênfase no lúdico e na literatura como ferramentas de valorização da identidade negra.
Bruna é autora de “Aimée e a coroa que não conseguia ver” (2020), ilustrado por Gabrielle Moreira, uma história delicada sobre uma menina negra que sonha em ser princesa e que, ao longo da narrativa, aprende a reconhecer sua beleza e força com afeto.
Em 2023, lançou “Aqualtune a princesa de Palmares”, obra que resgata a ancestralidade e a resistência de uma das figuras históricas mais importantes da luta do povo negro. No ano seguinte, publicou “A pequena Dandara dos Palmares”, dando continuidade à valorização de personagens negras históricas na literatura infantil.
Também é uma das autoras de “Pretinhos e Pretinhas incríveis” (2024), coletânea de contos. Em 2025, lançou “Meus primeiros poemas pretinhos”, uma coletânea de poemas voltada às crianças, celebrando a negritude com lirismo, leveza e potência.
A especialista também é idealizadora do projeto “Prô Bruna Indica”, que divulga obras com protagonismo negro. “Sei o quanto é importante para uma criança preta se ver representada com afeto”, afirma.

Para Bruna, a presença de personagens negros retratados com dignidade, beleza e protagonismo tem um impacto profundo na construção da autoestima. “A literatura tem um poder imenso na formação da identidade das crianças negras”, diz.
A professora ressalta que quando uma criança negra se vê representada positivamente, ela passa a compreender o valor da própria existência. “Ela começa a se importar com seu cabelo, sua pele, sua cultura — aspectos potentes e dignos de respeito”, descreve.
“A literatura é espelho e também janela. Espelho porque permite que as crianças se reconheçam e se sintam pertencentes. Janela porque amplia horizontes e convida à diversidade com respeito”, argumenta.
Literatura como resistência ao racismo
Os livros infantis também têm um papel estratégico na formação de uma consciência crítica e antirracista desde os primeiros anos de vida. Para Bruna Cristina, eles são verdadeiras sementes de resistência. “Os livros são sementes de resistência — e de muitas outras potências”, afirma.
A autora ainda pontua que quando uma criança negra é valorizada em uma narrativa, ela cresce com mais coragem para enfrentar o mundo. “Ela se sente potente e empoderada.” Bruna compartilha uma experiência que a marcou: “Uma vez escutei: ‘Tia, eu já sei que sou linda, meu cabelo é maravilhoso. Às vezes só quero ouvir uma história’.”
A especialista também destaca a importância de que crianças brancas tenham acesso a histórias que celebrem a negritude com afeto. “Assim, elas aprendem a respeitar, reconhecer desigualdades e a se tornarem aliadas”, afirma.
A professora ainda pontua que quando mediadas com intencionalidade, essas leituras formam defensoras de um mundo mais justo. “Corrige falas, defende, compartilha o que aprendeu. Ou seja, cresce com uma educação antirracista.”
Práticas pedagógicas e envolvimento das famílias
Segundo a especialista, na educação infantil, a mediação de leitura com enfoque antirracista exige intencionalidade, escuta sensível e honestidade. Bruna recomenda práticas como as rodas de leitura afetivas — com crianças e também com profissionais — que proporcionam espaço para expressões genuínas, sem cobranças por resultados.
A professora também enfatiza o papel do ambiente como “terceiro educador”. “A sala de aula precisa ser um espaço de pertencimento. Bonecos, músicas, brincadeiras e elementos da cultura afro-brasileira e indígena enriquecem a experiência.”
Outro ponto fundamental, de acordo com a escritora, é o envolvimento das famílias. Ela destaca que muitas vezes, famílias negras não tiveram oportunidade de trabalhar sua identidade racial e precisam vivenciar esse processo junto à escola. “Por isso, sempre realizo formações com as famílias. Ouvir e construir juntas é essencial.”

O perigo do apagamento na literatura infantil
Bruna alerta para os riscos do apagamento da cultura negra nos livros mais consumidos pelas crianças — uma violência simbólica silenciosa e contínua. “Quando os livros mais lidos não trazem protagonistas negros — como reis, rainhas ou cientistas — ou os reduzem a estereótipos, negam às crianças negras o direito ao reconhecimento”, observa.
Para ela, essa exclusão reforça a ideia de que as culturas negras não têm valor, comprometendo o sentimento de pertencimento desde muito cedo. A professora cita a escritora Chimamanda Ngozi Adichie ao relembrar o “perigo da história única”. “Ao impor padrões únicos de beleza e sucesso, enfraquecemos a autoestima das crianças negras.”
Segundo Bruna, representatividade não é uma palavra da moda: é uma necessidade vital. “Ela salva, nutre, acolhe, empodera. Representar é apenas incluir um personagem negro. Representatividade é permitir que a criança se veja com dignidade e protagonismo.”
Como escolher livros para uma educação antirracista?
Segundo a especialista, é fundamental ter critérios bem definidos na hora de escolher livros para a primeira infância, especialmente quando se busca promover uma educação antirracista e valorizar o protagonismo negro. Veja alguns critérios:
- Protagonismo negro com diversidade e afeto – os personagens negros são retratados com potência, alegria e dignidade?
- Valorização da ancestralidade – a obra respeita os saberes africanos e afro-brasileiros, sem recorrer a estereótipos?
- Ilustrações representativas – as imagens expressam afeto, pluralidade e conexão com a realidade das crianças?
- Potencial para diálogo contínuo – o livro pode ser ponto de partida para projetos pedagógicos ao longo do ano — e não apenas no 20 de novembro?
- Abertura para o imaginário – o livro amplia os horizontes e permite que a criança sonhe e explore mundos, mesmo que não os acesse fisicamente?
Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.
