Com bonecos feitos de garrafa pet e histórias que celebram a identidade negra, o Grupo Parafuso de Teatro tem levado reflexões potentes sobre racismo, intolerância religiosa e a ditadura da beleza para crianças de escolas públicas de Fortaleza (CE).
A iniciativa faz parte do projeto de contação de histórias “A Menina e o Gênio das Lamparinas”, que realizou apresentações gratuitas em quatro unidades escolares da capital cearense nos dias 23 e 25 de junho.
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Além do espetáculo, o projeto inclui rodas de conversa com os estudantes e o lançamento de um vídeo com acessibilidade no YouTube do grupo — com tradução em Libras, audiodescrição e legendas.
Bonecos, ancestralidade e protagonismo negro
A peça, parte da trilogia infantojuvenil “Ceará Encantado”, foi escrita por Keven Rocha, que também dirige o espetáculo. Na narrativa, a jovem Rosângela, menina negra e protagonista da história, embarca em uma jornada de autoconhecimento ao lado do Gênio das Lamparinas, de Mãe Zimá, Kaune Tapeba e da Cobra Bonitinha. Juntos, enfrentam desafios que a ajudam a resgatar suas raízes e a reconhecer sua beleza.
“A Rosângela é uma criança como muitas que estão nas escolas públicas: negra, cheia de dúvidas, com a autoestima fragilizada por uma sociedade que impõe padrões de beleza eurocêntricos”, explica Keven. “A história mostra que ser negra é bonito, é forte, é ancestral.”
Segundo o diretor, a recepção das crianças foi emocionante. “Elas nos receberam com brilho no olhar. Ficaram encantadas com os bonecos e se conectaram com a narrativa. Muitas se identificaram com a Rosângela, especialmente por terem a mesma cor de pele. Isso mostra a urgência de representatividade nas histórias que elas consomem”, conta.
O uso do teatro de bonecos — com forte inspiração nos mamulengos nordestinos — foi essencial para o engajamento do público infantojuvenil. “A ludicidade cria uma ponte. Os bonecos despertam curiosidade e afeto. E quando eles passam mensagens profundas, como as que tratamos na peça, o aprendizado acontece de forma natural e afetiva”, acrescenta Rocha.
Além de facilitar o diálogo, o teatro de formas animadas também carrega saberes da cultura popular cearense. “Nosso grupo pesquisa essas linguagens porque acredita que elas dialogam com a nossa gente, com as nossas raízes. É uma forma de educar e, ao mesmo tempo, preservar tradições.”

Arte como instrumento de empatia e transformação
Ao final de cada sessão, rodas de conversa aprofundam os temas da peça. Para Keven, esses momentos revelam o impacto transformador da arte. “As crianças falam com o coração. Algumas disseram: ‘essa menina sou eu’. Outras, não negras, disseram que agora entendem melhor o racismo e que querem ajudar a combatê-lo. Isso é muito poderoso.”
O grupo também observou que o espetáculo despertou nos estudantes sentimentos de empatia, gratidão e vontade de agir. “Percebemos que muitas crianças nunca tinham visto uma peça com protagonistas negras ou indígenas. Elas ficaram tocadas, perguntaram, quiseram saber mais. Foi bonito ver como a arte pode abrir caminhos de consciência.”
Mais arte nas escolas, mais futuro para as crianças
Criado em 2019 em Fortaleza, o Grupo Parafuso de Teatro tem como missão unir cultura popular, inovação e compromisso social. Em sua trajetória, já realizou espetáculos como Lindomar e a Viagem no Tempo e Boi Eternidade, que também abordam temas sociais a partir de uma linguagem acessível e encantadora.
A ação desenvolvida nas escolas foi apoiada pelo edital “Vozes Plurais: Circulação e Difusão Literária”, da Secretaria da Cultura do Ceará, com recursos da Lei Paulo Gustavo.
Para o diretor, o projeto evidencia a necessidade de mais arte no cotidiano escolar. “Existe uma carência enorme. Quando a arte chega, toca fundo. Ela comunica, provoca, transforma. Precisamos ocupar esses espaços com narrativas que fortaleçam nossas crianças, para que elas cresçam com orgulho de quem são e preparadas para enfrentar as violências do mundo”, afirma.
O vídeo com a contação da história A Menina e o Gênio das Lamparinas será lançado em breve no canal oficial do grupo e permanecerá disponível gratuitamente, ampliando o acesso ao conteúdo. “É mais uma forma de garantir que essa mensagem chegue longe. O combate ao racismo e à intolerância também passa pelo encantamento”, finaliza.