Imagine não ter um comprovante de endereço. Na última quarta-feira, 8 de outubro de 2025, o Brasil deu um passo histórico: todas as 12.348 favelas e comunidades urbanas do país agora têm um CEP próprio. São 16,3 milhões de pessoas, das quais 72,9% são pretas e pardas, finalmente reconhecidas no mapa oficial. Mais do que um código postal, esse marco é uma reparação de cinco séculos de invisibilidade urbana e racial.
O anúncio feito durante o Seminário “Da Moradia ao Território: Reconhecendo as Periferias Brasileiras”, promovido pelo Ministério das Cidades, representa muito mais do que uma conquista logística. É o reconhecimento de uma dívida antiga com a população negra e periférica, que construiu as cidades, mas nunca foi plenamente considerada parte delas.
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Essa notícia me atravessou de forma pessoal. Anos atrás, visitei uma amiga que havia acabado de se tornar mãe. Ela comemorava o fato de ter alugado uma casa em uma rua com CEP. Lembro exatamente do que ela me disse: “eu nunca tive um comprovante de endereço em meu nome, meu filho terá”. Naquele momento percebi o que significa viver em um território sem registro. Morar em um não lugar é ser privado de existir oficialmente. É viver sob o risco permanente de não ser encontrado pelo Estado nem pela cidade. Sem endereço formal, não há correspondência, não há crédito, não há acesso pleno à saúde ou educação. Ter um teto não é o mesmo que ter moradia.
Na Maré, no Rio de Janeiro, 279 novos CEPs agora beneficiam 19 mil pessoas, permitindo que projetos sociais e culturais recebam materiais e doações com precisão logística. Em Paraisópolis, em São Paulo, coletivos e empreendedores já celebram a possibilidade de formalizar parcerias com artistas e institutos sem o obstáculo do “endereço não encontrado”. O programa “CEP para Todos”, criado pelo governo federal em parceria com os Correios, inaugura um novo capítulo da história urbana do país. Para quem sempre viveu à margem, ter CEP é ser visto. É transformar o apagamento em dado e o dado em direito.
Mas o endereço é apenas o primeiro alicerce. O verdadeiro desafio está em construir a infraestrutura de habitação que ainda falta. O CEP reconhece a existência, mas não garante casa segura, saneamento, mobilidade, espaço público e cuidado urbano. O reconhecimento postal precisa vir acompanhado de investimento, planejamento e presença do Estado. O Brasil precisa entender que habitação não é apenas política social, é política de reparação. Moradia digna é infraestrutura emocional, econômica e comunitária. Ela define quem tem o direito de permanecer e prosperar na cidade.
Para comunidades majoritariamente negras, essa conquista representa o início de uma nova fase de regeneração social. A formalização dos endereços abre portas para políticas públicas, programas de renda e emprego, entrega de medicamentos e acesso a serviços básicos. Para ONGs e coletivos, significa visibilidade para atrair investimentos e parcerias. Mas ainda há um longo caminho entre o reconhecimento e a reparação.
A luta negra e periférica sempre foi sobre tornar o invisível visível. Ao colocar as favelas no mapa, o CEP não apenas reconhece territórios, mas revela o quanto ainda precisamos reconstruir. É preciso transformar esse dado em estrutura, esse código em casa, essa visibilidade em direito. O CEP chegar é um passo, mas não o último. É preciso honestidade para reconhecer que esse avanço é, na verdade, uma reparação diante de uma subtração histórica. As pessoas moradoras das favelas sempre estiveram aqui. Garantir que a correspondência, os serviços e os direitos essenciais cheguem é o mínimo que se espera de um país que pretende assegurar cidadania plena a todos.