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‘Cidade sem sonho’: o afeto em um lote

O filme de Guillermo Galoe traz uma textura naturalista e ao mesmo tempo sensorial, e ao final nos faz perceber que o afeto é também uma forma de território, e que, às vezes, pertencer é resistir
Toni, personagem central do filme "Cidade sem Sonho".

Toni, personagem central do filme "Cidade sem Sonho".

— Divulgação

9 de novembro de 2025

Toni e seu amigo Chule filmam com o celular. Na imagem, aplicam um filtro com cores invertidas — e é justamente assim que o diretor Guillermo Galoe quer que enxerguemos aquela paisagem: através dos olhos dos meninos, carregada de distorções, invenção e desejo.

Vencedor do Prêmio SACD de Melhor Roteiro na Semana da Crítica de Cannes, “Cidade sem Sonho” nos apresenta Toni, um garoto de 15 anos que vive com a família no maior assentamento irregular da Europa, nos arredores de Madri.

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Ele tem orgulho de pertencer àquele território, e seu avô — chamado de “Pai” por todos — é sua principal referência. Logo no início, numa cena em que conserta um motor de carro, o avô revela sua força silenciosa: é um homem que carrega a sabedoria, a calma e o senso de pertencimento de toda uma comunidade.

Mas o tempo se encurta. A desapropriação e a demolição do assentamento se aproximam. O avô resiste, enquanto os pais de Toni consideram mudar-se para os apartamentos populares oferecidos pelo governo. O impasse não é apenas material — é emocional, filosófico: ficar é preservar a liberdade; sair é buscar segurança.

Toni, dividido entre essas duas forças, precisa decidir o que deixar para trás. Com seu cão galgo italiano, o amigo de infância e o celular de cores invertidas, ele tenta imaginar o futuro e negociar o presente.

A cena em que em uma das casas abandonadas ele propõe viver ali com o amigo, é belíssima. Pois mesmo se tangendo a uma fantasia, existe o genuíno desejo da realidade daquilo se concretizar. Cidade sem Sonho é um filme de textura naturalista e ao mesmo tempo sensorial. Sua narrativa cresce em ritmo e tensão conforme o inevitável se aproxima. O roteiro tem a virtude de tornar compreensíveis todas as perspectivas em jogo — e ao final nos faz perceber que o afeto é também uma forma de território, e que, às vezes, pertencer é resistir.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Vitin Alencar

    Vitin Allencar é diretor e cineasta brasileiro. Co-fundador da produtora Dois Pontos Filmes, é reconhecido por seu trabalho inovador na indústria musical, criando videoclipes e projetos visuais para artistas como Pabllo Vittar, Pocah e Gloria Groove.

    No cinema, dirigiu curtas-metragens e registros documentais, explorando narrativas que transitam entre o real e o estético. Seu olhar combina linguagem cinematográfica e imaginação visual, resultando em obras marcadas por impacto, sensibilidade e identidade.

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