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Carrefour patrocina Troféu Raça Negra enquanto responde por casos de violência contra pessoas negras

Maior premiação da comunidade negra aceita patrocínio do grupo condenado por agressão sexual a adolescente negra e pela morte de João Alberto Freitas
Uma faixa com os dizeres "Justiça, Beto vive" está pendurada em uma grade em frente ao supermercado Carrefour em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 20 de novembro de 2020.

Uma faixa com os dizeres "Justiça, Beto vive" está pendurada em uma grade em frente ao supermercado Carrefour em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 20 de novembro de 2020.

— Silvio Ávila/AFP

25 de novembro de 2025

O Troféu Raça Negra, a maior premiação da comunidade negra da América Latina, teve o Grupo Carrefour Brasil como patrocinador master de sua edição de 25 anos. O patrocínio acontece em meio ao histórico da rede francesa de supermercados de violência contra a população negra, incluindo uma condenação por agressão sexual e o envolvimento na morte de um homem negro.

A cerimônia, realizada na última terça-feira (18) em São Paulo pela Universidade Zumbi dos Palmares e Afrobras, homenageou a sambista e deputada estadual Leci Brandão, que recebeu uma estatueta na cor dourada. Outras 19 personalidades receberam estatuetas na cor prata, concebidas para a edição de Bodas de Prata.

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O evento reuniu autoridades, lideranças empresariais e artistas. Durante a cerimônia foi apresentado o Projeto de Lei 01-01380/2025, de autoria da vereadora Luana Alves (PSOL), que inclui o Troféu Raça Negra no Calendário de Eventos do Município de São Paulo.

Empresa sob investigação e condenação

O patrocínio do Carrefour ao prêmio ocorreu em meio a processos judiciais que envolvem o grupo. A Justiça de São Paulo condenou a rede francesa a pagar R$ 2,4 milhões por danos morais e direitos trabalhistas para G, uma adolescente negra de 17 anos. Ela foi vítima de violência sexual em uma unidade do Carrefour de Santana de Parnaíba, município da Grande São Paulo, em julho de 2024. 

Um supervisor da área, Carlos Antonio da Silva Santos, agarrou a jovem, apalpou os seios e forçou um beijo. A mãe de G registrou boletim de ocorrência por importunação sexual. O caso afetou o relacionamento pessoal da jovem e gerou dificuldades em manter relações profissionais com chefes homens.

O Carrefour também tem em seu histórico a morte de João Alberto Freitas (Beto Freitas). Seguranças da empresa terceirizada Vector espancaram Freitas com participação de funcionários da empresa em 19 de novembro de 2020. A rede de supermercados anunciou logo após a morte o rompimento de contrato com a Vector. No entanto, a companhia de segurança privada mudou o nome para Cordialle e voltou a prestar serviços ao grupo.

A empresa também firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em junho de 2021. O acordo previa o investimento de R$ 115 milhões em campanhas de apoio ao empreendedorismo negro e bolsas de estudo para jovens negros nas universidades. 

Outros episódios de violência envolvem o Carrefour. A rede enviou cestas básicas para a família de uma dupla vítima de abordagem violenta em Salvador. O pai de uma das vítimas classificou a atitude como humilhante.

Leci Brandão, homenageada no Troféu Raça Negra 2025. Foto: Reprodução/Instagram/@trofeuracanegra

Universidade Zumbi dos Palmares defende diálogo, responsabilização e monitoramento

A Alma Preta procurou o Grupo Carrefour Brasil e a Universidade Zumbi dos Palmares, responsável pelo evento. A reportagem questionou a contradição do patrocínio da rede varejista com um histórico de agressão à população negra em uma premiação que celebra e valoriza personalidades racializadas.

A Universidade Zumbi dos Palmares alegou em nota que a decisão faz parte de uma estratégia de cobrança e responsabilização contínua.

“A Universidade Zumbi dos Palmares organizadora da Virada da Consciência e do Troféu Raça Negra tem o compromisso inegociável de promover a equidade racial, ampliar oportunidades e transformar realidades. Nossa trajetória sempre foi construída com independência, firmeza de princípios e diálogo responsável com todos os setores da sociedade — público, privado e comunitário”, disse.

Ainda no comunicado, a instituição de ensino defendeu que a exclusão de empresas do debate não produz transformação e que a atuação conjunta, com cobrança e resultados concretos, produz mudança.

“Aceitamos o Grupo Carrefour Brasil como patrocinador master porque entendemos que empresas que se dispõem a assumir compromissos públicos, investir recursos e participar ativamente da reparação e da promoção da igualdade racial precisam ser responsabilizadas, monitoradas e, ao mesmo tempo, incentivadas a avançar.”

Carrefour afirma ter compromisso com mudanças internas e ações de inclusão racial

O Grupo Carrefour Brasil, por sua vez, afirma que  participa de iniciativas dedicadas ao avanço da agenda racial por mais de uma década. A empresa destaca ser fundadora da Iniciativa Empresarial pela Equidade Racial e manter parcerias com instituições de referência, como a Universidade Zumbi dos Palmares, o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) e o Mover.

“O apoio ao Troféu Raça Negra está alinhado ao compromisso público da empresa de promover representatividade e ampliar espaços de diálogo. O patrocínio não busca compensar ou apagar episódios passados, mas reforçar a responsabilidade contínua de contribuir para a equidade racial no país”, declarou a varejista.

O grupo também mencionou que “desde 2020, a empresa revisou protocolos de segurança, ampliou o uso de câmeras corporais e implantou treinamentos permanentes, incluindo formação em segurança humanizada em parceria com a Zumbi dos Palmares.”

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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