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‘Reconhecimento de luta coletiva’: Ana Paula Oliveira ganha ‘Nobel’ dos direitos humanos

Ativista do Rio de Janeiro receberá o prêmio Martin Ennals em Genebra, na quarta-feira (26); em entrevista à Alma Preta, ela comemora, aponta que o prêmio serve de plataforma de denúncia da política de segurança pública do Brasil e que seguirá apoiando a luta de outras mães
Ana Paula Oliveira, fundadora do grupo Mães de Manguinhos, discursa durante protesto em frente ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no Centro da capital fluminense, 8 de março de 2024

Ana Paula Oliveira, fundadora do grupo Mães de Manguinhos, discursa durante protesto em frente ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no Centro da capital fluminense, 8 de março de 2024

— Solon Neto/Alma Preta

25 de novembro de 2025

Na quarta-feira (26), a ativista Ana Paula Gomes de Oliveira, uma das fundadoras do grupo Mães de Manguinhos, no Rio de Janeiro, deve receber o principal prêmio de direitos humanos do mundo, o Martin Ennals, tornando-se a primeira brasileira a receber a honraria.

Apelidada de “prêmio Nobel” dos direitos humanos por sua relevância internacional, a condecoração será entregue em cerimônia realizada em Genebra, na Suíça, com transmissão ao vivo e em português a partir das 14h30, no horário de Brasília.

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Ana Paula Oliveira se tornou uma das principais lideranças em direitos humanos no Brasil, erguendo-se por justiça após uma tragédia familiar causada pelo Estado brasileiro. Em 2014, seu filho, Johnatha de Oliveira, jovem negro de 19 anos, foi morto por um policial militar na favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro, com um tiro nas costas.

Desde então, Ana Paula se empenha por justiça nesse e em outros casos, crescendo em notoriedade e como inspiração. A ativista ajudou a fundar o grupo Mães de Manguinhos, uma organização de familiares de vítimas do Estado, manifestando-se dentro e fora do Brasil por memória e reparação na luta contra a política de segurança pública baseada no extermínio de jovens negros e pobres.

Além de Ana Paula, o prêmio reconhece duas finalistas: a estudante ugandesa Aloikin Prais Opoloje e a tunisiana Saadia Mosbah. Opoloje se tornou uma liderança em seu país, mobilizando milhares de pessoas em protestos contra injustiças sociais, abusos de direitos humanos e corrupção, chegando a ser presa e perseguida. Já Mosbah ganhou notoriedade pela denúncia do racismo e da discriminação racial na Tunísia, liderando discussões que levaram à adoção de datas e leis antirracistas.

‘Prêmio é reconhecimento de uma luta coletiva’

Em entrevista à Alma Preta, Ana Paula explica que se sentiu honrada ao receber a notícia da premiação e pelo reconhecimento mundial de sua luta e trajetória: “Isso é muito simbólico, já que a justiça institucional não foi feita até hoje, o que faz com que outros casos de homicídios cometidos por agentes do Estado se repitam”.

Em março do ano passado, Alessandro Marcelino de Souza, policial acusado pela morte do filho de Ana Paula, passou por júri popular do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ). A decisão frustrou expectativas ao enviar o caso para a Justiça Militar. Em dezembro, porém, a decisão foi anulada após recurso e aguarda novo julgamento.

“Receber esse prêmio é um reconhecimento de uma luta, mas uma luta que não é só minha, uma luta coletiva, na qual para chegar até aqui, 11 anos depois, recebi muito apoio, muita gente segurou a minha mão e não me deixou. Não me deixou ficar caída, não me deixou desistir”, salienta.

Em protesto diante do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Ana Paula Oliveira segura uma camisa com a foto do filho assassinado. Rio de Janeiro, 7 de março de 2024
Em protesto diante do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Ana Paula Oliveira segura uma camisa com a foto do filho assassinado. Rio de Janeiro, 7 de março de 2024 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

Ana Paula recorda o massacre realizado por forças de segurança no Rio de Janeiro, no início deste mês, deixando 121 mortos. Para ela, a ação foi produzida por uma política de segurança pública “fracassada” e pautada em racismo e o prêmio ajuda a denunciar a situação.

“É também uma forma de pautar isso, de mais uma vez dar visibilidade e denunciar que essa política de segurança pública é ineficaz. É urgente que ela seja mudada”, diz.

Na visão de Ana Paula Oliveira, que aguarda há 11 anos o desfecho do caso de seu filho, a denúncia da política de segurança pública não pode se esgotar em quem está na ponta e “aperta o gatilho”.

“Precisamos denunciar o sistema de Justiça no Brasil, que tem dois pesos e duas medidas, que não é igual para todos, que criminaliza moradores de favela e que dá o aval, através da canetada, para que a polícia continue agindo dessa forma”, ressalta, acrescentando que a denúncia inclui governantes municipais, estaduais e federais.

‘Minha missão é seguir inspirando outras mães’

A ativista ressalta que o Brasil é um ambiente difícil para ativistas de direitos humanos, que correm risco de vida no país. Ela lembra que quando perdeu seu filho, uma das primeiras pessoas a entrar em contato foi a também ativista Marielle Franco, assassinada em 2018.

“Lembro muito da Marielle, que cuidou de mim, que me deu a mão, que foi uma das primeiras pessoas a entrar em contato comigo quando meu filho foi assassinado pela polícia. Nessa época ela não era ainda uma vereadora, trabalhava na Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, mas ela já era uma grande defensora dos direitos humanos. E ela foi assassinada por defender os direitos humanos”, lembra.

A ativista vê na premiação não só uma plataforma de denúncia, mas também de apoio e inspiração para mães que compartilham da mesma dor que ela no Brasil: “É uma oportunidade de denunciar isso e também de inspirar outras mães a não se calarem, a seguir fazendo a denúncia”.

A ativista Ana Paula Oliveira (centro), ao lado de familiares de vítimas de violência do Estado, durante o julgamento do policial militar Alessandro Marcelino de Souza, que matou o filho de Ana Paula em 2014, com um tiro nas costas, na favela de Manguinhos. Rio de Janeiro, 6 de março de 2024
A ativista Ana Paula Oliveira (centro), ao lado de familiares de vítimas de violência do Estado, durante o julgamento do policial militar Alessandro Marcelino de Souza, Rio de Janeiro, 6 de março de 2024 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

“Lembro que quando eu tive meu filho assassinado e quando caiu a ficha de que eu não podia morrer, que eu precisava estar viva, que eu precisava ter forças, que eu precisava estar de pé, eu lembro que o que me levantou foi precisar continuar sendo a mãe dele, precisar continuar cuidando dele, defendendo a memória dele”, conta.

Ana Paula Oliveira defende que mães como ela devem ser chamadas para construir políticas públicas e conta que se sente feliz ao ver que sua história serve de inspiração para outras mulheres.

“Fico muito feliz quando recebo mensagens de mães não só do Rio, mas de outros estados do Brasil, falando que eu dou força para elas, que eu encorajo, que eu faço elas também se levantarem. Eu fico com a certeza de que eu estou no caminho certo e de que essa é a minha missão, seguir inspirando outras mães, mulheres negras de favelas e periferia”, conclui.

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  • Solon Neto

    Cofundador e diretor de comunicação da agência Alma Preta Jornalismo; mestre e jornalista formado pela UNESP; ex-correspondente da agência internacional Sputnik News.

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