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M23 conquista cidade estratégica do leste da RD Congo e provoca fuga em massa; fronteira com Burundi é fechada

Tomada de Uvira por combatentes do grupo rebelde provoca deslocamentos em larga escala e aumenta o risco de entrada de outros países na guerra
Willy Ngoma, porta-voz militar do grupo M23, em Uvira.

Willy Ngoma, porta-voz militar do grupo M23, em Uvira.

— Reprodução/Redes Sociais

10 de dezembro de 2025

O grupo rebelde M23, apoiado pelo exército de Ruanda, ocupou a cidade de Uvira, no leste da República Democrática do Congo (RDC), segundo fontes locais e organismos internacionais. O avanço ocorre meses após o grupo anunciar seus planos sobre a cidade, considerada estratégica na região do Kivu do Sul.

Em 26 de maio, o movimento declarou que buscava controlar Uvira, segunda maior cidade da província, com cerca de 180 mil habitantes. A cidade se tornou a capital do Kivu do Sul após a tomada de Bukavu, em 15 de fevereiro.

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O chefe do M23, Corneille Nangaa, reforçou essa intenção em 23 de maio, com publicação em seu perfil nas redes sociais. “Estamos em alta velocidade expressiva em direção à Uvira. Não há força que deva parar esse ritmo. Povo congolês, tenham paciência, esta libertação será completa.”

Segundo fontes ouvidas pela Alma Preta, os ataques em direção a Uvira intensificaram-se desde essa terça-feira (9). No último domingo (7), o M23 tomou novos territórios e chegou à vila de Luvungi, a cerca de 40 km da capital provisória do Kivu do Sul.

Entre os dias 2 e 7 de dezembro, ao menos 74 pessoas morreram, segundo fontes das Nações Unidas. A estimativa é de mais de 200 mil deslocados.

Informações desencontradas marcaram a invasão de Uvira

No interior da RDC, as fontes congolesas mostraram um desencontro de informação entre a noite de terça-feira (7) e a manhã desta quarta (8). Uma fonte em Kinshasa declarou que os rebeldes e o governo manipularam o público e que havia uma incerteza sobre quem controlava a cidade. “Não temos informação real. Os rebeldes dizem que o governo nos manipula, enquanto páginas ligadas ao governo dizem que os rebeldes nos manipulam.”

A falta de certeza se o local estava sob controle das Forças Armadas da RDC (FARDC) ou do M23 é reflexo do medo dos moradores. Com o avanço do grupo rebelde, os moradores que não fugiram da região passaram a se trancar dentro de suas casas.

Um morador de Uvira informou que, nas primeiras horas da manhã, a cidade permanecia calma. Segundo ele, porém, o avanço do M23 parecia inevitável, devido à deserção de soldados das FARDC, apesar de Uvira ser descrita como uma cidade de forte resistência militar e comunitária. A expectativa era de que o município sustentaria o avanço do M23.

A fragilidade do exército congolês é apontada por analistas e moradores há anos. Deserções se repetem e geram confrontos internos, como é o caso dos paramilitares Wazalendo, aliados do governo, que costumam executar soldados acusados de abandonar posições e tomam seus uniformes e armas para reforçar seus próprios grupos. O exército congolês atua por meio de voluntariado, e o abandono das fileiras ocorre com frequência.

Por volta do meio-dia, relatos de tiros se espalharam pela cidade. Uma fonte local afirmou à reportagem: “Há disparos em Uvira. Não sei entre quem. Parece que o M23 já está aqui.”

O ataque foi confirmado por volta das 8h da manhã pela Rádio Okapi, rádio das Nações Unidas na República Democrática do Congo, gerida pela Missão das Nações Unidas para a Estabilização na República Democrática do Congo (MONUSCO). “Às 11h30 desta quarta-feira, Uvira passou à ocupação do M23/AFC, sem lutas. Testemunhas relatam a presença de rebeldes nas principais artérias da cidade”, disse o veículo em seu perfil nas redes sociais.

Fuga em massa para o Burundi e fechamento das fronteiras

O avanço rebelde alterou a dinâmica regional. Fontes relataram à reportagem que mais de 30 mil pessoas fugiram para o Burundi em uma semana. Uma autoridade burundesa informou que, nos últimos dois dias, registrou mais de 8 mil chegadas por dia.

Diante da aproximação do M23, o Burundi fechou suas fronteiras com a RDC. Os postos de Gatumba e Vugizo foram classificados como “zonas militares”. O Burundi apoia a RDC no combate ao M23, enquanto acusa Ruanda, apoiador do movimento, de desestabilizar a região.

A cidade de Uvira se conecta ao Lago Tanganica, que delimita fronteiras entre RDC, Burundi, Zâmbia e Tanzânia, o que amplia o risco de envolvimento de outros países. A queda de Uvira pode desencadear novos deslocamentos e alterar a correlação de forças na guerra. 

O grupo já controla as capitais provinciais Goma (Kivu do Norte) e Bukavu (Kivu do Sul). O próximo alvo declarado é Kalemie, capital da província de Tanganica, a 386 km de distância. O objetivo final do movimento é alcançar Lubumbashi, o centro da indústria de mineração e a cidade mais rica do país.

Goma, capital do Kivu do Norte, foi tomada em 27 de janeiro, e Bukavu, capital do Kivu do Sul, em 17 de fevereiro. A tomada de Uvira demonstra a força do movimento e a falha dos esforços diplomáticos de pacificação.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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