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O trabalho infantil nas minas de cobre e cobalto da RD Congo

Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Crianças estão por todas as áreas nas minas de cobalto e cobre em Kolwezi.

— Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

11 de junho de 2026

O cenário é de secura, com poeira por todo lado e solo esbranquiçado. A cor se contrasta com as casas dos congoleses, feitas de um barro mais próximo do marrom, e com as pessoas, de um tom de pele escuro. 

Um longo muro cinza, que faz parte do visual do bairro, está parcialmente destruído quando se aproxima de uma ribanceira de um rio. Por ali, pessoas de todas as idades entram e saem da propriedade da mineradora Chemaf. Quem mais se destaca são as crianças, maioria entre os presentes.

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Estamos na província de Lualaba, mais especificamente na cidade de Kolwezi, a principal exportadora de cobalto e cobre do país. Segundo dados de 2025 do U.S. Geological, maior centro de dados minerais do mundo, a República Democrática do Congo (RDC) concentra 54% das reservas de cobalto do planeta e 8%, de cobre.

Uma das exportadoras de cobre e cobalto é a Chemaf, com sede em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e dona de uma extensão territorial de 105 quilômetros quadrados na cidade. Presente na região desde 2015, a multinacional tem a capacidade de extrair anualmente 20 mil toneladas de cobre e 16 mil de cobalto.

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Descrita como a capital mundial do cobalto, Kolwezi também é conhecida por ter crianças trabalhando no setor da mineração, em especial nas partes onde há minas artesanais e nos arredores das indústrias, chamadas de “zonas de tolerância”.

No entorno da mina da Chemaf, é possível ver uma maioria de trabalhadores formada por adolescentes, algumas delas com as mães. Ngoyu Bijou, uma garimpeira, estava com três filhas, uma de 15, outra de 16 e outra de 18 anos, e explicou o motivo delas estarem ali.

“Eu não queria que as minhas filhas estivessem aqui trabalhando, mas meu marido faleceu e desde então a gente vem para cá”, contou. O marido morreu há 7 anos, o que diminuiu a renda da família. No começo, ela foi para as minas sozinha e há dois anos leva as filhas para ajudar.

Crianças de diferentes idades são vistas pelas minas congolesas em Kolwezi, conhecida como a capital mundial do cobalto. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

“Eu costumava trabalhar sozinha, eu costumava proibir meus filhos de fazer este trabalho. Eles vêm para cá quando saem da escola”, explica.

Cláudia*, uma adolescente de aproximadamente 14, ainda com voz de menina, não vai para a escola há cinco meses. Pela primeira vez, deixou de estudar para trabalhar na mineração. Junto da irmã, também adolescente, trabalha para peneirar e limpar os minérios recolhidos pela manhã.

Marcada de poeira pelo rosto e mãos, ela não desiste do sonho de estudar e ter outra profissão. Diz que as minas cansam muito, e que não gosta do trabalho.

“Serei professora ou médica”, disse.

O código de mineração da RDC, atualizado em 2018, tem um artigo específico sobre violações de direitos humanos. O texto diz que são ilícitas a exploração e o comércio de produtos minerais provenientes de um local de exploração que infringe os “direitos humanos, direitos das crianças ou os direitos das mulheres”. A pena é de uma multa de US$ 10 mil. Ninguém ali, contudo, parecia ter receio dessa punição.

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Com uma camiseta social preta, com detalhes em vermelho, Frank Byendelelo é popular na região. Trabalhador da ONG Still I Rise, que em português significa “Ainda estou crescendo”, ele e a instituição cuidam de crianças que estão no setor de mineração. Ele sabe as dificuldades enfrentadas por meninas e meninos nas minas em Kolwezi.

“Eu já trabalhei nas minas para ajudar a minha família. Eu saí para estudar e terminar a escola”, se recorda. Byendelelo cresceu próximo de uma mina de ouro, no Kivu do Norte. 

Ele acredita que Kolwezi não se beneficia pelos minérios extraídos ou pela chamada transição energética, a mudança dos combustíveis fósseis, como o petróleo, para baterias elétricas, produzidas a partir de minérios como o cobalto. Para Byendelelo, isso fica perceptível pela falta de infraestrutura do bairro.

“Aqui onde estamos não há água. Veja mães lavando roupa em valas com água suja, água imunda. É complicado. Você pode ver nos bairros que não há água encanada, então as pessoas bebem água suja”, relata.

Ausência de trabalho para adultos prejudicam as crianças

Antes da chegada da Chemaf, existia um bairro na região, chamado de Mukumbi, área comprada pela empresa em 2015. Em relatório produzido pela Anistia Internacional publicado em 2023, a organização internacional ouviu antigos moradores sobre a história do que aconteceu.

Os entrevistados contaram que, desde a aquisição da Chemaf, eles passaram a ser pressionados para deixarem a área. Em novembro de 2016, membros da Guarda Republicana, uma tropa de elite do exército congolês, foi até a região e colocou fogo nas casas, como forma de expulsar os residentes. Segundo os moradores, um diretor da Chemaf ainda estava com militares no dia do ataque.

Para a Anistia Internacional, a companhia negou qualquer envolvimento com a ação feita pelos militares e afirmou ter como objetivo “liderar a transição energética verde global por meios de uma exploração mineral responsável”.

Em 2019, os moradores da região protestaram contra o fechamento de vias para exigir um ressarcimento por parte da empresa para as pessoas que foram deslocadas e perderam as suas casas. A empresa, que prometeu pagar US$ 1,5 milhão ao todo para os prejudicados, deu US$ 300 para algumas pessoas que perderam suas casas, segundo a Anistia Internacional.

Crianças fazem os mais variados trabalhos, desde carregar sacos, até separar pedras de cobre e cobalto. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

As transformações em Mukumbi impactaram na renda das pessoas e na organização do bairro, com a construção de casas no entorno da companhia. Antes da Chemaf, os congoleses faziam extração artesanal dos minerais e utilizavam do rio para a pesca e da terra para agricultura. Sem essas opções, o cenário piorou, segundo Viviane, uma moradora da região.

“Muitas mães e crianças estão indo para a mina. Muitas crianças não estudam mais. Eles se dedicam especialmente às coisas da mina, é nisso que eles se concentram muito. E as mães não têm empregos, e elas também estão indo trabalhar na mina”, conta.

Uma criança consegue entre 5 mil e 10 mil francos congoleses por semana, o equivalente a R$ 11 e R$ 22. Os adultos, em compensação podem conseguir entre 300 mil e 500 mil francos congoleses, valores equivalentes a R$ 674 e R$ 1.123.

“As crianças não têm infância, porque há aquelas que gostam, que se inclinam muito para a mina. E há outra criança que se inclina para os estudos. No nosso bairro, os que vão para a mina são muitos, os que vão para a escola são poucos”, explica Viviane.

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Outro problema é a falta de acesso à educação. A maior parte do sistema de educação da RDC é privado, com algumas iniciativas públicas, insuficientes para a demanda da população.

“Nesta comunidade onde estamos, a maioria das escolas é particular e extremamente caras. Foi isso que motivou a Still I Rise a vir para cá”, explica Frank Byendelelo.

Michael N’denda trabalhava em uma mineradora em Kolwezi, quando foi demitido em 2015 junto de outros colegas. Por anos, manteve a esperança de ser recontratado. Sem emprego, o dinheiro em casa ficou escasso, e as crianças passaram a ajudar nas minas.

Crianças de bairros próximos caminham em áreas de mineração em Kolwezi. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

“Se o Estado tivesse muitas escolas públicas, deveria haver essa possibilidade de ensino gratuito”, completa Michael N’denda. Hoje, seus filhos não atuam mais nas minas e estudam na Still I Rise.

Escola acolhe crianças congolesas das minas

A Still I Rise é uma ONG italiana que oferece educação gratuita para comunidades vulneráveis no Quênia, na Colômbia e na RDC. Ela está mais precisamente em Kolwezi desde 2022, entre outros países.

No site oficial, o grupo estima que 14 milhões de crianças precisam de ajuda humanitária na RDC, o maior número do mundo, e um terço das crianças não completou o ensino primário. 

A ONG ainda descreve a situação do país como um genocídio silencioso, por conta da guerra vivida pela RDC há 30 anos, sobretudo nas províncias de Ituri, Kivu do Sul e Kivu do Norte. Cidades importantes da região como Goma e Bukavu estão ocupadas por rebeldes do M23, apoiados por Ruanda.

Os alunos da Still I Rise são ensinados a partir de um método de ensino que mistura o sistema nacional da RDC e o próprio da ONG, que afirma ter um programa baseado no respeito da cultura local, sem ser centrado em uma visão eurocêntrica. O período de formação é de três anos de uma educação primária. Na RDC, a grade curricular de educação primária é de seis anos. Ao todo, cem crianças, entre 9 e 14 anos, entram na Still I Rise todos os anos.

Crianças congolesas brincam de futebol em escola do projeto Still I Rise em Kolwezi.Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

A aproximação com as crianças e as famílias exige uma estratégia por parte da ONG. Primeiro, eles conversam com as crianças e as sensibilizam sobre a importância de ir para as escolas. Depois, se inicia um diálogo com as famílias, para convencê-las a entrar no curso.

“Em alguns casos, os pais negam. Eles falam que vão mandar por conta própria as crianças para as escolas. Mas isso não é totalmente verdade, porque eles querem que as crianças sigam ali trabalhando e fazendo dinheiro”, explica Hope Matabaro, coordenador de educação da escola.

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No fundo do prédio da escola, existe uma enfermaria e uma quadra. No dia da visita, apesar do esporte praticado ser o basquete, os meninos estavam com camisetas da Inter de Milão e com chuteiras da Puma de cravo, próprias para a grama, não para a quadra de asfalto. As camisetas do time italiano se justificam pela origem da ONG.

As enfermeiras precisam ficar atentas para uma violência comum sofrida por meninos e, especialmente, meninas: as agressões sexuais. Quando as profissionais percebem uma situação mais grave, encaminham as crianças e adolescentes para um hospital de referência.

“Ao menos 70% das crianças, entre 10 e 14 anos, falaram já ter visto alguém fazendo sexo. Eu fiquei surpreso, não acreditei no que ouvi. Até que a enfermeira da escola me confirmou. Algumas crianças têm dificuldades para se concentrarem, para estudarem, porque ficam pensando nas violências que sofreram”, conta Hope Matabaro.

Coordenador da escola, ele acredita que o governo congolês deve mudar a sua postura sobre o assunto do trabalho infantil e critica a corrupção no país. É comum que autoridades congolesas neguem a frequência com que crianças e adolescentes trabalham no setor mineral no país.

“Mesmo diante do que vocês viram em Kolwezi, o governo vai falar para vocês que não têm crianças trabalhando nas minas. O governo da RDC responde dessa maneira porque eles sabem que eles já ganharam muito dinheiro das minas que existem aqui”, afirma.

Edição: Camila Rodrigues da Silva.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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