A tensão aumentou no leste da República Democrática do Congo (RDC) mesmo após a assinatura de um acordo de paz com Ruanda na última quinta-feira (4). O acordo, assinado em Washington, foi mediado pelos Estados Unidos.
Segundo a AFP, os ataques do M23 no leste do país em direção à cidade de Uvira estão intensos desde o início desta terça-feira (9). A agência registrou o movimento de pessoas deixando o local, que está com as ruas desertas.
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Ao menos 74 pessoas foram mortas em menos de uma semana, entre os dias 2 e 7 de dezembro, segundo fontes das Nações Unidas. As estimativas são de que mais de 200 mil pessoas tenham fugido da região, com medo dos recentes ataques.
Na semana passada, ataques a bombas nas regiões de Walungu e Kabare, no Kivu do Sul, atingiram três escolas e pelo menos sete crianças foram executadas. Os bombardeios foram condenados pelo representante da Unicef na RDC, John Agbor.
“Ataques a escolas são uma grave violação dos direitos das crianças. As escolas devem permanecer espaços protegidos e santuários de paz, onde as crianças estão a salvo de danos”, afirmou Agbor na última sexta-feira (5).
O presidente da RDC, Félix Tshekedi, fez um pronunciamento sobre a situação na segunda-feira (8), em evento realizado na RD Congo.
“O M23, beneficiado pelo apoio do exército de Ruanda, declarou uma nova ofensiva a partir de Goma e de Bukavu para conquistar mais terrenos no Kivu do Norte e no Kivu do Sul”, declarou.
As duas cidades, Goma e Bukavu, capitais dos Kivu do Norte e do Sul, respectivamente, estão ocupadas pelo M23 desde o início deste ano.
Mais um acordo de paz
Na última quinta-feira (4), Félix Tshekedi estava em Washington com Paul Kagame, presidente de Ruanda, e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, para assinar mais um acordo de paz entre as duas nações.
Kagame chegou a afirmar que existirão altos e baixos no acordo, e Tshekedi cobrou compromisso de Ruanda para respeitar o tratado.
Trump explicitou novamente o desejo de explorar os minerais daquela região, uma das mais ricas do mundo. O mandatário destacou seus planos de enviar grandes empresas norte-americanas para explorarem recursos naturais dos dois países.
Ainda neste ano, outro acordo de paz foi assinado entre os representantes dos dois países, também em Washington. Na época, em 27 de junho, Ruanda havia se comprometido a retirar suas tropas do território congolês em 90 dias, fato contestado pelas autoridades congolesas.
No pronunciamento feito no dia 8 de dezembro, o presidente da RD Congo ainda destacou que os ataques do M23 são acompanhados de violações de direitos humanos e uma tentativa de desestabilizar as instituições do país.
“Essa escalada militar acontece a partir de uma lógica bem conhecida, uma investida organizada predatória dos nossos recursos naturais e de desestabilização das nossas instituições. E ela é acompanhada de graves e sistemáticas violações de direitos humanos”, afirmou.
O governo do Burundi denunciou o bombardeio de territórios do país pelo M23. O exército burundês é um aliado dos congoleses na luta contra a ocupação do grupo rebelde.
“Terroristas do AFC/M23, apoiados por Ruanda, lançaram uma bomba em território burundês”, divulgou Edouard Bizimana, ministro dos Negócios Estrangeiros do Burundi.
Ativista congolês denuncia os ataques do M23
François Kasereka, militante do movimento Extinção Rebelde, nasceu e cresceu no Kivu do Norte e teve de sair da região desde a ocupação armada do M23 do início de 2025. Em entrevista para a Alma Preta, ele destacou os sentimentos de parte da população congolesa com os ataques recentes e o acordo de paz.
“O acordo assinado em Washington entre os dois chefes de Estado havia nos nutrido de esperança. Mas, depois de 24h, uma ação no terreno que nos deixou inquietos, com a intensificação dos combates, sobretudo no Kivu do Sul”, disse.
O M23 conquistou territórios no último domingo, 7 de dezembro, e está há cerca de 40km da cidade de Uvira, a atual capital do Kivu do Sul depois da tomada de Bukavu.
O grupo rebelde chegou a conquistar a vila de Luvungi, também próxima de Uvira, em combates contra o exército congolês, burundês e os grupos paramilitares de apoio ao governo da RDC chamados de Wazalendo, palavra no idioma suaíli que significa “patriota”.
“Tudo indica que o movimento busca tomar o controle dessa cidade estratégica a todo custo, apesar do clima diplomático que visava a pacificação”, disse.
A cidade fica às margens do Lago Tanganyika, responsável pela fronteira da RDC com outros países, como o Burundi, a Zâmbia e a Tanzânia.