PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

África do Sul expulsa quenianos que trabalhavam em programa de refúgio dos EUA para ‘afrikaners’

Autoridades prenderam cidadãos quenianos com vistos de turista em centro de processamento de pedidos de asilo; incidente amplia crise diplomática com os Estados Unidos
O primeiro grupo de "afrikaners" da África do Sul a chegar ao reassentamento nos EUA, no Aeroporto Internacional de Washington Dulles, em Dulles, Virgínia, em 12 de maio de 2025.

O primeiro grupo de "afrikaners" da África do Sul a chegar ao reassentamento nos EUA, no Aeroporto Internacional de Washington Dulles, em Dulles, Virgínia, em 12 de maio de 2025.

— Saul Loeb/AFP

17 de dezembro de 2025

Autoridades da África do Sul anunciaram nesta quarta-feira (17) a prisão e a expulsão de sete cidadãos do Quênia acusados de trabalhar sem a documentação exigida em um programa do governo dos Estados Unidos que concede status de refugiado a “afrikaners”, minoria branca sul-africana. A informação foi divulgada pelo Departamento de Assuntos Internos do país.

Segundo o governo sul-africano, os quenianos atuavam em um centro de processamento de pedidos de reassentamento nos Estados Unidos, localizado em Joanesburgo. Durante uma operação realizada na terça-feira (16), foi constatado que os sete estrangeiros possuíam apenas vistos de turismo, o que configura violação das condições de entrada no país.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

As autoridades informaram que os envolvidos receberam ordens de deportação e ficarão proibidos de retornar à África do Sul por um período de cinco anos.

Programa dos EUA para ‘afrikaners’

O programa de reassentamento foi anunciado em maio pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que passou a oferecer status de refugiado a integrantes da minoria branca “afrikaner”. A iniciativa foi justificada pela Casa Branca com alegações de discriminação e até de “genocídio” contra esse grupo, acusações rejeitadas pelo governo sul-africano.

De acordo com o Departamento de Assuntos Internos, os Estados Unidos contrataram cidadãos quenianos ligados a uma organização cristã sediada no Quênia para acelerar a análise dos pedidos de reassentamento feitos por sul-africanos  brancos.

Após o anúncio do programa, um primeiro grupo de cerca de 50 “afrikaners” foi transferido para os Estados Unidos em um voo fretado em maio. Outros sul-africanos brancos seguiram posteriormente em número menor, por meio de voos comerciais.

Reações do governo sul-africano e dos EUA

O Departamento de Assuntos Internos da África do Sul afirmou que a operação ocorreu após relatórios de inteligência apontarem que cidadãos quenianos haviam ingressado no país como turistas e assumido atividades profissionais de forma irregular. Segundo o governo, nenhum funcionário norte-americano foi detido durante a ação, que não ocorreu em área diplomática.

A pasta informou ainda que nenhum solicitante de refúgio foi abordado durante a operação e que autoridades dos Estados Unidos e do Quênia foram notificadas sobre o caso.

Após a divulgação da operação, os Estados Unidos reagiram. Em declaração à imprensa norte-americana, o porta-voz Tommy Pigott afirmou que qualquer interferência em operações de reassentamento conduzidas pelos EUA é “inaceitável” e que o governo Trump buscava esclarecimentos imediatos junto ao governo sul-africano.

O governo da África do Sul respondeu que havia indícios de coordenação entre trabalhadores sem documentação e “autoridades estrangeiras”, o que, segundo o comunicado, levanta questionamentos sobre intenção e protocolo diplomático. O país afirmou compartilhar com os Estados Unidos o compromisso de combater imigração irregular e abuso de vistos

Tensões diplomáticas entre África do Sul e EUA

As relações entre África do Sul e Estados Unidos se deterioraram desde o início do atual mandato de Donald Trump. O governo estadunidense criticou políticas sul-africanas, expulsou o embaixador do país em março e impôs tarifas comerciais de 30% sobre produtos sul-africanos.

As acusações de perseguição contra “afrikaners” fazem parte desse contexto. O governo sul-africano sustenta que a violência no país afeta de forma majoritária a população negra e que políticas de inclusão econômica buscam enfrentar desigualdades herdadas do apartheid.


O impasse diplomático levou os Estados Unidos a boicotarem a cúpula do G20 realizada na África do Sul em novembro. Neste mês, Washington assumiu a presidência rotativa do grupo e informou que o país africano não será convidado para eventos organizados sob sua gestão.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano