Poucas bandas no Norte do Brasil conseguiram transformar tanto a própria cidade, a cena musical e o imaginário coletivo quanto o Arraial do Pavulagem. Formado em Belém em 1987 por Ronaldo Silva, Júnior Soares e Rui Baldez, o grupo nasceu de uma brincadeira de boi e, quase quatro décadas depois, se tornou uma das forças mais originais da música amazônica contemporânea. Seu som mistura toadas, carimbó, retumbão e ritmos tradicionais do interior do Pará com guitarras, sopros e fortes elementos visuais, fazendo do Pavulagem um fenômeno que é banda, cortejo e movimento cultural.
Ao vivo, o Arraial entrega música, dança, figuras míticas, pernas de pau, tambores, estandartes, fitas coloridas e toda a vibração das comunidades que criam um espetáculo capaz de conectar gerações. A estética é poderosa, mas nasce de algo ainda maior: o vínculo afetivo e territorial com Belém.
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“O Arraial é fruto das pessoas. A música nasce das ruas, das oficinas, das histórias que ouvimos e das comunidades que caminham com a gente. Tudo o que apresentamos no palco ou no cortejo só existe porque existe esse laço vivo com Belém”, diz Júnior Soares.
O Arrastão do Pavulagem, cortejo realizado no ciclo junino, reúne mais de 35 mil pessoas por edição e transforma o centro da cidade em palco, rito e celebração. Ali, o público não assiste: participa. Essa relação direta com as ruas é parte da essência do grupo. Desde 2003, o Instituto Arraial do Pavulagem mantém oficinas gratuitas que formam o Batalhão da Estrela – novos brincantes que fazem do cortejo uma experiência de transmissão cultural.
Com os anos, o Arraial ampliou esse universo com o Arrastão do Círio, o Cordão do Peixe-Boi e o Cordão do Galo, hoje parte do calendário afetivo e cultural de Belém.
Musicalmente, o Arraial ocupa um lugar raro: mantém o pé nas tradições amazônicas sem soar folclórico, enquanto cria arranjos contemporâneos que dialogam com a música brasileira e latinoamericana. Seus nove discos e dois songbooks mostram uma banda que se renova, experimenta e transforma a cultura popular do Pará em obra autoral.Essa combinação — modernidade e tradição, espetáculo e rua, música e movimento — colocou o Pavulagem em uma posição singular no país.
O alcance do gripo também ultrapassou as fronteiras do Pará. Em 2025, o Arraial se apresentou no Global Citizen Festival: Amazônia e abriu a sessão plenária da Cúpula de Líderes da COP30, levando o mosaico de cultura popular amazônica criado pelo grupo para públicos de diferentes países. Sobre esse momento, Júnior resume:
“Quando a gente toca e isso chega para o mundo, a sensação é de que Belém inteira está sendo vista com a força que tem. O Arraial nasce das ruas, das oficinas e das comunidades, e é essa energia coletiva que aparece quando mostramos nosso trabalho em eventos globais”.
Para os próximos passos, o grupo estuda a produção e o lançamento de um novo disco em 2026. Ouça o Arraial do Pavulagem no Spotify e no YouTube.