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Licínio Januário: artista angolano faz do corpo e da escrita um projeto audiovisual no Brasil

Em conversa exclusiva com a Alma Preta, o artista angolano radicado no Brasil traça o caminho que une palco, resistência e a batalha por distribuição de produções audiovisuais afrodiaspóricas
O ator, capoeirista, roteirista e diretor Licínio Januário.

O ator, capoeirista, roteirista e diretor Licínio Januário.

— Reprodução/Redes Sociais

16 de janeiro de 2026

Da engenharia ao palco, da capoeira às telas de streaming, a trajetória do ator angolano Licínio Januário se desenha como um movimento estratégico de quem aprendeu a gerir a própria existência artística. Em entrevista à Alma Preta, o artista, capoeirista e fundador da Wolo TV revela como essas frentes não se separam, mas se alimentam mutuamente. 

O corpo que dança na roda é o mesmo que interpreta na cena; o olhar estrangeiro que analisou o mercado brasileiro é o que idealizou uma plataforma para conectar narrativas da diáspora. Este perfil percorre o caminho de um artista que entendeu, desde o início, que ocupar espaço também significa criar os próprios meios para circular.

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O ator que aprendeu a esperar

Licínio Januário chegou ao Brasil com um plano distante das artes. Veio para estudar engenharia civil, retornar a Angola e assumir a construtora da família. O desvio ocorreu quando a capoeira reorganizou suas escolhas e, com ela, surgiu a necessidade de gerir a própria trajetória no campo artístico.

Identidade de cidadão Nacional da República de Angola, de Licínio. Foto: Reprodução/Redes Sociais

O primeiro personagem que definiu esse caminho foi Bruno, do espetáculo Todo Menino é Rei (2015), escrito e protagonizado por ele ainda no período em que conciliava aulas de capoeira em escolas públicas, participação em projetos sociais e o curso de engenharia. 

“Cheguei com um olhar estrangeiro e me deparei com uma realidade diferente daquela que eu via na televisão. Entendi como o mercado funcionava e percebi quais papéis provavelmente me seriam oferecidos”, conta em conversa com a Alma Preta.

A peça nasceu de um impulso de autonomia diante de um mercado que já se apresentava com limites claros para corpos negros e estrangeiros. Ensaiada em espaços comunitários e construída sem financiamento, a obra rendeu a Januário o prêmio de melhor ator no Festival de Teatro do Rio, em 2015.

“Aquilo foi um sinal, embora eu ainda não tivesse dimensão do tamanho do perrengue que viria depois”, revela.

A partir dali, o ator passou a tratar a carreira com a lógica da estratégia. Observou os papéis disponíveis, analisou referências negras já existentes e decidiu escrever para existir em cena nos próprios termos. Esse método atravessou sua entrada no audiovisual, com trabalhos no teatro, no cinema e, mais tarde, na televisão.

“O Brasil me ensinou a ser estratégico. […] Minha carreira é fruto de uma gestão iniciada desde o primeiro espetáculo”, reflete ao analisar como o Brasil o mudou.

Na TV Globo, destacou-se em Segundo Sol (2018) e, em 2025, integrou o elenco do remake de Vale Tudo. Para Licínio, a novela marcou a primeira experiência de longa permanência em um produto de horário nobre, com tempo para compreender o funcionamento do mercado, os ritmos de gravação e a pressão simbólica de um clássico. 

“Era a novela das novelas. Todo mundo olhando, para elogiar ou criticar.” Ao escolher não se comparar com personagens de outras épocas, sustentou uma atuação conectada à própria identidade: “Sou um ator preto, angolano, africano. Não havia como me comparar com referências de outra época, de outro contexto”, defende.

Licínio Januário caracterizado como o personagem Luciano, de Vale Tudo (2025). Foto: Globo/Angélica Goudinho

No cinema e no streaming, participou de produções como Medida Provisória (2020), de Lázaro Ramos, Boca a Boca (2020) e Sem Filtro (2023) da plataforma Netflix, How to Be a Carioca (2023) e Impuros (2018), produções da Star+ e A Magia de Aruna (2023), obra do Disney+. 

Para o ator angolano, a presença em cena tornou-se política no momento em que percebeu o impacto direto da arte, tanto no trabalho com jovens da Maré quanto diante de plateias numerosas no teatro. O palco e a tela passaram a ser espaços de partilha de vivências e elaboração coletiva.

Hoje, o maior desafio segue sendo a atuação. Após um período de reorganização durante a pandemia, o retorno ao mercado trouxe personagens com maior complexidade. O horizonte inclui o cinema internacional, sobretudo os mercados norte-americano e inglês, entendidos como espaços possíveis para atores africanos que reconhecem a própria história como continuidade, não ruptura.

“Para nós, africanos, nada é impossível se tentarmos. […] Não se trata apenas de protagonizar grandes franquias, mas de estar nesse espaço e levar isso para casa: Angola”, diz com orgulho. Januário ainda reforça, com confiança, que espera um convite para atuar em alguma produção do estúdio Marvel.

O capoeirista: disciplina, linguagem e memória

Antes do ator, Licínio Januário se reconhece como capoeirista. É essa identidade que organiza todas as outras. Praticante de capoeira angola, ele encontra na arte uma ferramenta ancestral de sobrevivência, leitura de mundo e construção de estratégia dentro da sociedade contemporânea. “Sempre fui o ‘nerd’ da família, o que cumpre a missão. Mas a capoeira bagunçou tudo.”

A capoeira atravessa sua rotina, sua criação e sua relação com o tempo. Disciplina, criatividade e estratégia formam um tripé que orienta tanto a vida pessoal quanto o trabalho artístico. O corpo, treinado de forma constante, torna-se instrumento de escuta e alerta. Quando algo sai do eixo, é o corpo que acusa.

No processo criativo, Licínio não separa texto e movimento. Exercícios clássicos de teatro são reorganizados a partir da lógica corporal da capoeira. A prática sustenta sua presença em cena e sua escrita. Foi dessa relação que nasceu o quadro Corpo e Poema, no qual interpreta textos por meio de movimentos, usando o corpo como meio principal de atravessamento das palavras.

Para ele, o corpo alcança camadas que o texto não acessa. A prática física contínua impede o enferrujamento criativo e funciona como ferramenta de destravamento. A criação, nesse sentido, não ocorre apenas no plano intelectual, mas no encontro entre voz, gesto e memória.

“A capoeira me ajudou muito, principalmente na disciplina: disciplina na minha religião, em casa, com a minha família, com a minha companheira, com a minha filha. Ela organiza tudo”, explica.

O roteirista e fundador: Wolo, narrativa e disputa por circulação

A escrita surge como resposta à necessidade de existir no audiovisual de forma plena. Foi assim no teatro e segue sendo assim na criação de projetos autorais. Essa lógica levou Licínio Januário à fundação da Wolo, produtora e plataforma pensada para ecoar conteúdos criados por pessoas negras e ampliar as possibilidades de circulação dessas obras.

A Wolo nasceu após sua participação como jurado em um festival de cinema na Bahia, onde assistiu a centenas de filmes realizados por criadores negros. A constatação foi direta: os filmes existiam, mas não chegavam ao público. A ausência não era de produção, mas de reconhecimento, investimento e distribuição.

Januário identifica na distribuição e no marketing um mesmo gargalo. Obras com protagonismo negro até entram em plataformas, mas sem investimento em visibilidade acabam invisibilizadas. A disputa não ocorre apenas no campo simbólico, mas no econômico. Plataformas se fundem por bilhões, enquanto iniciativas negras disputam sustentabilidade sem acesso a capital.

Diante disso, a estratégia passou a incluir pausa, observação e reposicionamento. Para ele, não se trata de abandonar o objetivo, mas de ajustar o tempo. A lógica da capoeira reaparece: recuar também é movimento.

Elenco da série “Casa da Vó” (2020), primeira produção original da Wolo TV. Foto: Júlio Limiro/Divulgação

O defensor da reconexão do Brasil com países africanos

No campo narrativo, Januário aponta a necessidade de ampliar o repertório. Defende mais produções leves, mais experimentação e maior volume de obras. Também destaca a urgência de fortalecer o intercâmbio entre Brasil e países africanos de língua portuguesa, sobretudo Angola, normalizando o trânsito de artistas e histórias. “Precisamos normalizar essa troca. Explorar nossas narrativas, nossas histórias.”

A diáspora, em sua visão, não representa corte, mas continuidade. Produzir narrativas que afirmem esse elo significa disputar imaginários formados por apagamentos históricos. O legado que busca não depende de crédito, mas da reconstrução dessas pontes culturais, dentro e fora das telas.


“O legado que eu gostaria de deixar é ver esse elo Brasil-África restabelecido, especialmente Brasil e Angola“, finaliza o artista, diretor e capoeirista.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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