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Vá, mate e volte: 81 caminhos de ética, responsabilidade e luta 

Em tempos de excesso de barulho e pouco impacto, o método que Cidinha da  Silva partilha é, sobretudo, um convite à responsabilidade. A luta continua, mas aprende  a escolher seus motivos e seus alvos
Cidinha da Silva e seu livro, "Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior".

Cidinha da Silva e seu livro, "Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior".

— Lígia Menezes

8 de fevereiro de 2026

Alguns livros nascem para cumprir funções claras: orientar, registrar, provocar,  sustentar memória. Ao longo do tempo, muitos acabam se tornando mais do que isso,  passam a operar como referência ética e política para quem os lê. “Só bato em cachorro  grande, do meu tamanho ou maior”, de Cidinha da Silva, publicado pela Rosa dos Tempos, inscreve-se nesse campo. Longe de funcionar como homenagem protocolar ou biografia  afetiva, o livro se afirma como um manual que reúne sabedoria e formação política, ética  e estratégica, organizado a partir de quase quatro décadas de convivência com Sueli Carneiro, uma das mais importantes pensadoras do Brasil contemporâneo. 

Diante de 81 lições, o livro organiza um modo de estar no mundo, de pensar a  política e de agir diante do racismo estrutural sem cair nem na ingenuidade moral nem na  sedução do espetáculo. Cidinha chama isso de “método Sueli Carneiro”, não como um  modelo fechado, mas como um conjunto de aprendizados que se transmitem pela  oralidade, pelo exemplo e pelo tempo. 

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A estrutura do livro revela esse cuidado. As lições se distribuem em três  movimentos. No primeiro, estão as lições expressas, aquilo que Sueli disse de forma  direta ao longo dos anos. No segundo, a pedagogia do exemplo, aprendizados não verbais, mas observados na prática cotidiana, na forma como Sueli escolhe alianças, enfrenta  conflitos, constrói instituições e protege os seus. No terceiro, as lições do tempo espiralar,  aquelas que só se tornam visíveis na maturidade, quando a experiência permite reconhecer  o que foi aprendido sem nome. Enfim, um processo formativo dialético onde Ògún, ao forjar o seu facão, também oferece três importantes processos: aquecer o ferro até o limite, golpeá-lo para transformá-lo e, em seguida, resfriá-lo para que o ciclo possa recomeçar. 

O título da obra nasce de uma frase dita por Sueli em meio a uma disputa política:  “Eu só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior”. Distante da retórica vazia,  a frase condensa uma ética do conflito e confronto. Não se trata de evitar o embate, mas  de seguir um dos princípios éticos de Ògún, que escolhe as guerras que pretende empreender. Uma espécie de convite à recusa dos embates quando covardes,  improdutivos ou voltados somente à autopromoção. 

Cidinha descreve Sueli como estrategista, alguém que atua menos no embate  imediato e mais na configuração da disputa. Essa dimensão estratégica atravessa todo o  livro e impede qualquer romantização da luta, propondo um enfrentamento ao racismo e às suas sequelas que coloca a disciplina e a responsabilidade coletiva como tarefa  contínua. 

Há também uma recusa explícita da ilusão como método político. Entre os  aprendizados mais marcantes, Cidinha aponta aquele que considera central para sua  própria formação: não alimentar ilusões. A vida é dura, especialmente para quem é alvo  permanente do racismo, uma realidade em que sobreviver exige lucidez. Isso não  significa abrir mão do sonho ou da esperança, mas reconhecer que a transformação social  não nasce da ingenuidade nem da luta reduzida à performance individual por visibilidade. 

Outro aspecto fundamental do livro é a maneira como ele articula pensamento e  ação. Sueli Carneiro é apresentada como alguém que se define, antes de tudo, como  ativista do movimento negro e do movimento de mulheres negras. Sua produção intelectual não se separa da prática política. Pensar o Brasil, para ela, só faz sentido se  esse pensamento se traduz em ação transformadora. O método apresentado pelo livro  revela exatamente dessa indissociabilidade. 

“Cachorro Grande”, como o livro é carinhosamente chamado pela autora, também  funciona como resposta a um país que, aos poucos, ainda que tardiamente, descobre suas  próprias referências. Ao sistematizar o método de Sueli Carneiro, Cidinha não apresenta  uma novidade, mas explicita uma estrutura que há décadas sustenta parte fundamental  das lutas negras no Brasil. O livro recoloca Sueli no lugar que sempre ocupou: não como  símbolo ocasional, mas como arquiteta de estratégias, ideias e instituições. 

O que o livro oferece não é conforto nem fórmula, nem mesmo um diário sobre relações de luta contra as opressões raciais presentes neste país. Ensina que nem toda  briga merece resposta, propondo uma ética da ação responsável, organizada, diante de  uma luta que não se orienta pelo ruído. 

Em tempos de excesso de barulho e pouco impacto, o método que Cidinha da Silva partilha é, sobretudo, um convite à responsabilidade. A luta continua, mas aprende  a escolher seus motivos e seus alvos. 

Ao final do livro, a certeza que se impõe assume a forma de dúvida: Talvez grande  parte do nosso cansaço não vem da luta, vem do ódio mal organizado e da luta mal  direcionada. Sueli Carneiro ensina a mirar grande e a não se deixar capturar por ruídos  que fragmentam mais do que confrontam. Cidinha da Silva traduz essa lição em 81  movimentos de ataque certeiro, sem prometer destino, apenas caminho. 

Ao fim, o livro nos devolve a imagem de Ògún, condensada no aforismo daquele  que “mesmo tendo água em casa, se banha com sangue”. Não como violência gratuita, 

nem como leitura moralizante herdada de matrizes eurocêntricas, mas como afirmação  radical da vida. Ògún é quem vive intensamente porque se recusa à mediocridade, quem  afasta a morte não pelo medo, mas pela ação precisa. Faz da guerra a sua arte e da arte, a  própria guerra. É nessa chave que o método apresentado por Cidinha da Silva se encerra:  lutar não é ruído, é escolha. O espetáculo não vale a pena se não houver consequência. 

Não se trata de um método que promete destinos ou vitórias fáceis, mas de um caminho  rigorosamente sustentado. 

Saravá

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Pai de santo de Umbanda no Terreiro Aruanda e mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP, pesquisa o sincretismo nas religiões de matrizes africanas, sobretudo as sequelas provocadas nos terreiros de Umbanda. É autor do livro "Sincretismo na Umbanda - pactos e impactos na identidade dos povos de terreiro". Apresenta o podcast “Atina pra Isso!”, onde promove um mergulho em saberes tradicionais de terreiros e cultura afro-brasileira.

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