Alguns livros nascem para cumprir funções claras: orientar, registrar, provocar, sustentar memória. Ao longo do tempo, muitos acabam se tornando mais do que isso, passam a operar como referência ética e política para quem os lê. “Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior”, de Cidinha da Silva, publicado pela Rosa dos Tempos, inscreve-se nesse campo. Longe de funcionar como homenagem protocolar ou biografia afetiva, o livro se afirma como um manual que reúne sabedoria e formação política, ética e estratégica, organizado a partir de quase quatro décadas de convivência com Sueli Carneiro, uma das mais importantes pensadoras do Brasil contemporâneo.
Diante de 81 lições, o livro organiza um modo de estar no mundo, de pensar a política e de agir diante do racismo estrutural sem cair nem na ingenuidade moral nem na sedução do espetáculo. Cidinha chama isso de “método Sueli Carneiro”, não como um modelo fechado, mas como um conjunto de aprendizados que se transmitem pela oralidade, pelo exemplo e pelo tempo.
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A estrutura do livro revela esse cuidado. As lições se distribuem em três movimentos. No primeiro, estão as lições expressas, aquilo que Sueli disse de forma direta ao longo dos anos. No segundo, a pedagogia do exemplo, aprendizados não verbais, mas observados na prática cotidiana, na forma como Sueli escolhe alianças, enfrenta conflitos, constrói instituições e protege os seus. No terceiro, as lições do tempo espiralar, aquelas que só se tornam visíveis na maturidade, quando a experiência permite reconhecer o que foi aprendido sem nome. Enfim, um processo formativo dialético onde Ògún, ao forjar o seu facão, também oferece três importantes processos: aquecer o ferro até o limite, golpeá-lo para transformá-lo e, em seguida, resfriá-lo para que o ciclo possa recomeçar.
O título da obra nasce de uma frase dita por Sueli em meio a uma disputa política: “Eu só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior”. Distante da retórica vazia, a frase condensa uma ética do conflito e confronto. Não se trata de evitar o embate, mas de seguir um dos princípios éticos de Ògún, que escolhe as guerras que pretende empreender. Uma espécie de convite à recusa dos embates quando covardes, improdutivos ou voltados somente à autopromoção.
Cidinha descreve Sueli como estrategista, alguém que atua menos no embate imediato e mais na configuração da disputa. Essa dimensão estratégica atravessa todo o livro e impede qualquer romantização da luta, propondo um enfrentamento ao racismo e às suas sequelas que coloca a disciplina e a responsabilidade coletiva como tarefa contínua.
Há também uma recusa explícita da ilusão como método político. Entre os aprendizados mais marcantes, Cidinha aponta aquele que considera central para sua própria formação: não alimentar ilusões. A vida é dura, especialmente para quem é alvo permanente do racismo, uma realidade em que sobreviver exige lucidez. Isso não significa abrir mão do sonho ou da esperança, mas reconhecer que a transformação social não nasce da ingenuidade nem da luta reduzida à performance individual por visibilidade.
Outro aspecto fundamental do livro é a maneira como ele articula pensamento e ação. Sueli Carneiro é apresentada como alguém que se define, antes de tudo, como ativista do movimento negro e do movimento de mulheres negras. Sua produção intelectual não se separa da prática política. Pensar o Brasil, para ela, só faz sentido se esse pensamento se traduz em ação transformadora. O método apresentado pelo livro revela exatamente dessa indissociabilidade.
“Cachorro Grande”, como o livro é carinhosamente chamado pela autora, também funciona como resposta a um país que, aos poucos, ainda que tardiamente, descobre suas próprias referências. Ao sistematizar o método de Sueli Carneiro, Cidinha não apresenta uma novidade, mas explicita uma estrutura que há décadas sustenta parte fundamental das lutas negras no Brasil. O livro recoloca Sueli no lugar que sempre ocupou: não como símbolo ocasional, mas como arquiteta de estratégias, ideias e instituições.
O que o livro oferece não é conforto nem fórmula, nem mesmo um diário sobre relações de luta contra as opressões raciais presentes neste país. Ensina que nem toda briga merece resposta, propondo uma ética da ação responsável, organizada, diante de uma luta que não se orienta pelo ruído.
Em tempos de excesso de barulho e pouco impacto, o método que Cidinha da Silva partilha é, sobretudo, um convite à responsabilidade. A luta continua, mas aprende a escolher seus motivos e seus alvos.
Ao final do livro, a certeza que se impõe assume a forma de dúvida: Talvez grande parte do nosso cansaço não vem da luta, vem do ódio mal organizado e da luta mal direcionada. Sueli Carneiro ensina a mirar grande e a não se deixar capturar por ruídos que fragmentam mais do que confrontam. Cidinha da Silva traduz essa lição em 81 movimentos de ataque certeiro, sem prometer destino, apenas caminho.
Ao fim, o livro nos devolve a imagem de Ògún, condensada no aforismo daquele que “mesmo tendo água em casa, se banha com sangue”. Não como violência gratuita,
nem como leitura moralizante herdada de matrizes eurocêntricas, mas como afirmação radical da vida. Ògún é quem vive intensamente porque se recusa à mediocridade, quem afasta a morte não pelo medo, mas pela ação precisa. Faz da guerra a sua arte e da arte, a própria guerra. É nessa chave que o método apresentado por Cidinha da Silva se encerra: lutar não é ruído, é escolha. O espetáculo não vale a pena se não houver consequência.
Não se trata de um método que promete destinos ou vitórias fáceis, mas de um caminho rigorosamente sustentado.
Saravá