Quando os termômetros batem recorde, os jornais estampam a mesma imagem: praias lotadas, corpos ao sol. A pergunta que nunca aparece é lazer para quem? Para quem pode sair de casa e escolher onde estar, talvez. Para a maioria das pessoas, o calor não se resume a uma paisagem de verão. É uma ameaça para o gari que varre as ruas sob o asfalto fervendo, para o pedreiro em cima do andaime sem sombra e sem água. E também para o idoso acamado dentro de uma casa quente, sem ventilação, sem árvores, sem política pública. O calor excessivo mata, e mata mais quem sempre foi deixado à margem.
Não é coincidência que os mesmos territórios que sofrem com as ondas de calor, enchentes, deslizamentos e doenças sejam também aqueles onde vive a população negra e pobre. Isso tem nome: racismo ambiental. A crise climática não atinge todos da mesma forma porque nossas cidades nunca foram pensadas para todos. O risco tem cor, classe e CEP. Nas grandes capitais brasileiras, os bairros ricos, majoritariamente brancos, concentram áreas verdes, saneamento, infraestrutura e capacidade de resposta. As periferias, as favelas, os territórios negros concentram o concreto, a ausência do Estado e a exposição permanente aos extremos climáticos.
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Quando a chuva vem forte, ela não alaga os mesmos lugares. Quando o rio sobe, ele não invade as mesmas casas. Quando a temperatura dispara, ela não sufoca os mesmos corpos. Os dados confirmam o que quem mora na periferia sempre soube: as áreas mais atingidas por enchentes e desastres climáticos são aquelas com maior concentração de população negra e de baixa renda. As favelas são menos arborizadas, têm menos acesso a esgoto, coleta de lixo e drenagem. Onde faltam árvores, o calor castiga mais. Onde não tem saneamento, a doença chega primeiro. Onde a renda é mais baixa, menor também é a possibilidade de se proteger, de sair, de se adaptar.
Em Belém, pessoas negras chegam a ser até dezenas de vezes mais afetadas por doenças de veiculação hídrica do que pessoas brancas. Em São Paulo, enquanto bairros brancos têm praticamente universalização do esgoto, nas favelas esse direito básico ainda é negado. Em Recife, a segregação racial define quem mora nas áreas mais altas e protegidas e quem vive à beira do risco. Em Belo Horizonte, pesquisas indicam que bairros de maior renda na cidade possuem significativamente mais áreas verdes, enquanto regiões mais pobres e densamente ocupadas têm menos sombra e proteção contra ondas de calor, o que agrava os efeitos das temperaturas extremas em corpos humanos e microclimas urbanos. Isso não é acidente urbano, é resultado direto de um modelo de cidade excludente, racista e profundamente desigual.
As mulheres negras, especialmente chefes de família, estão entre as mais afetadas. Ganham menos, cuidam mais, têm menos acesso a políticas públicas e carregam a responsabilidade de manter suas famílias vivas quando o desastre chega. Quando tudo desaba, é sobre elas que recai o peso do cuidado, da reconstrução e da sobrevivência.
Enquanto isso, parte da imprensa insiste em romantizar o calor, transformando privilégio em regra e sofrimento em invisibilidade. Como já alertava Malcolm X, se não tomarmos cuidado os jornais vão nos fazer odiar quem está sendo oprimido e amar quem está oprimindo. Quando a manchete celebra praias cheias e ignora trabalhadores expostos ao sol extremo, idosos sufocados em casas sem ventilação e comunidades inteiras vivendo sem água e sombra, ela ajuda a naturalizar a desigualdade e a desumanizar quem paga a conta da crise climática.
Enfrentar o racismo climático exige decisão política. É preciso investir onde nunca se investiu. Urbanizar favelas com participação popular, garantir saneamento ambiental, ampliar áreas verdes nas periferias, fortalecer a atenção básica em saúde, criar sistemas de alerta e gestão comunitária de riscos, usar imóveis vazios para moradia popular.
Não haverá justiça climática enquanto as cidades continuarem sendo organizadas para proteger alguns e expor outros. Não haverá transição ecológica possível mantendo territórios negros como zonas de sacrifício. Enquanto o calor for tratado como lazer para poucos, continuará sendo sentença de sofrimento para muitos.
Na Assembleia de Minas, nossa mandata tem feito o que sempre disseram que não era possível: disputar o orçamento para incluir o povo preto. Para enfrentar a desigualdade é necessário mais que o discurso, é preciso recurso. Por meio de emendas parlamentares, direcionamos investimentos para onde o Estado historicamente negou dignidade. Levamos ar-condicionado para escolas quilombolas no interior de Minas, pois aprender com 40 graus não é superação, é violência. O orçamento também é política climática. Quando o dinheiro público chega aos territórios negros, ele salva vidas, reduz desigualdades e começa a corrigir uma dívida histórica que o Brasil insiste em empurrar para debaixo do tapete.