PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Racismo ambiental escancara como a mobilidade econômica não é suficiente para preservar a vida da população negra

 Enchentes, deslizamentos e interrupções de buscas oficiais evidenciam como a gestão do risco é seletiva e mantém determinados grupos em maior vulnerabilidade social
Flint, Michigan, Estados Unidos, em janeiro de 2016, após relatórios de investigação revelarem que a água da cidade carregava havia anos níveis perigosos de chumbo e outros contaminantes. Wayne Lawrence documentou a luta dos moradores para encontrarem água limpa e lidarem com a deslealdade de funcionários públicos.

Flint, Michigan, Estados Unidos, em janeiro de 2016, após relatórios de investigação revelarem que a água da cidade carregava havia anos níveis perigosos de chumbo e outros contaminantes. Wayne Lawrence documentou a luta dos moradores para encontrarem água limpa e lidarem com a deslealdade de funcionários públicos.

— Reprodução/Wayne Lawrence

13 de dezembro de 2025

O debate sobre mobilidade social da população negra no Brasil costuma ser apresentado como caminho para corrigir desigualdades históricas. De fato, o acesso ampliado à educação, renda e oportunidades produz mudanças reais, amplia horizontes e reduz pressões que marcam a vida de pessoas negras desde cedo. A ascensão importa e não deve ser minimizada. No entanto, ela não altera sozinha as estruturas que produzem risco e classificam determinados corpos como mais expostos e menos protegidos. Quando observamos como o racismo opera, especialmente em um país que enfrenta eventos climáticos cada vez mais intensos, torna-se evidente que a mobilidade convive com vulnerabilidades persistentes.

A fala recente de Mano Brown, ao afirmar que “preto com dinheiro precisa ter cuidado redobrado”, evidencia esse ponto. A mudança material não transforma automaticamente a percepção social sobre corpos negros. A educomunicadora e pesquisadora da USP, Julia Neres, reforça esse argumento em sua pesquisa “Sobrevivendo no Inferno – Racismo Ambiental: Cultura Hip-Hop, Movimento Ecologista e Educomunicação”. Para ela, a mobilidade individual não modifica a estrutura racial, porque a leitura social precede qualquer conquista econômica. Como afirma, “não importa a roupa, o CEP, o cachê, a visibilidade. O corpo segue sendo lido pelos marcadores sociais que ele carrega”. Assim, mobilidade e racialização coexistem, gerando avanços e limites simultâneos.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

O racismo ambiental torna essa dinâmica mais evidente. Ele mostra que o risco socioambiental não depende apenas de características físicas do território, mas de como o Estado e as instituições decidem quem merece proteção prioritária. Neres lembra que apostar apenas na mobilidade individual é insuficiente, pois pessoas negras continuam convivendo com desigualdades de infraestrutura, prevenção e resposta emergencial. “Pra mim não faz sentido uma lógica que separa o humano da natureza pois as pessoas também fazem parte do meio ambiente. Nosso corpo, nossa saúde física e mental, nosso bem-estar, nossas dinâmicas de deslocamento e pertencimento fazem parte de um modelo mais saudável de sociedade.”

Enchentes, deslizamentos e interrupções de buscas oficiais evidenciam como a gestão do risco é seletiva e mantém determinados grupos em maior vulnerabilidade social.

Ilustração de Julia Neres: Equação mnemônica que sintetiza os fatores envolvidos na ampliação ou diminuição dos riscos de desastres socioambientais.

A pesquisa também destaca que populações negras e periféricas desenvolveram, ao longo do tempo, formas próprias de interpretação e enfrentamento do território. O hip-hop aparece como tecnologia social e ambiental, capaz de produzir pertencimento, leitura crítica e práticas educativas em contextos de abandono. “Para muitos, pode parecer abstrato relacionar Hip-Hop e socioambiental, mas isso acontece porque estamos “sobrevivendo no inferno”, destaca Julia.

A origem do ritmo musical em ambientes degradados, como o Bronx, e sua ressonância nas periferias brasileiras mostram como esses territórios criam metodologias próprias para lidar com riscos que o Estado frequentemente ignora. Obras como “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s, e “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, são exemplos de registros dessas experiências históricas.

Ao aproximar narrativas de Carolina, Racionais e Benjamin Chavis, Neres evidencia que tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos são as populações negras que carregam desproporcionalmente os impactos dos desastres. “Desastres e eventos extremos não são a mesma coisa. O desastre é resultado de riscos que já apareceram antes como sinais que se agravariam e o poder público não fez o suficiente a respeito” diz Julia, que continua, “em 2025, os Estados Unidos sequer enviaram delegação oficial para a COP30 em Belém.

A extinção do Escritório de Mudança Global pelo governo Trump, a demissão de equipes inteiras de diplomacia climática e a retirada formal do Acordo de Paris deixaram o país sem estrutura institucional para participar das negociações. Essa ausência cria um vácuo diplomático enorme, enfraquece o multilateralismo climático e desmonta mecanismos de financiamento, regulação de mercados de carbono e desenvolvimento de tecnologias limpas.” No Brasil, a naturalização dos riscos há anos, como as enchentes que acometem territórios a cada verão, impede avanços preventivos e mantém territórios negros como “zonas de sacrifício”, exposto nas obras de Carolina e Racionais .

A partir desse conjunto de elementos, fica claro que a ascensão social deve ser celebrada, mas não substitui a necessidade de mudanças estruturais. A mobilidade melhora condições materiais, mas não suspende automaticamente os sistemas que distribuem risco por critérios raciais. O racismo ambiental mostra que vidas negras seguem expostas à precarização territorial e à ausência de políticas equitativas. Ele também indica que o enfrentamento ao racismo precisa integrar os debates ambientais, urbanos e habitacionais, reconhecendo que dignidade, segurança e saúde dependem das condições reais dos territórios onde a população negra vive e circula.

Reconhecer a importância da mobilidade e, simultaneamente, seus limites diante de estruturas que permanecem intactas é parte fundamental da discussão. Enquanto a gestão do risco não mudar, pessoas negras seguirão convivendo com vulnerabilidades que não podem ser resolvidas apenas por esforço individual. O racismo ambiental evidencia essa contradição e reforça a urgência de políticas que articulem justiça econômica, climática e territorial como dimensões inseparáveis da luta por justiça racial no Brasil.

A apresentação completa da pesquisa da Julia Neres está disponível no canal do Semiosalong no YouTube (em inglês com legenda automática).

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Camila Santos

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano