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‘Pecadores’ e o Carnaval: quando a cultura negra vira fantasia para os outros

Mais uma vez, algo surgido dos morros e periferias é tirado dos corpos negros e dado aos brancos, como se isso fosse uma construção deles
Cena do filme "Pecadores" (2025).

Cena do filme "Pecadores" (2025).

— Divulgação

13 de fevereiro de 2026

Como boa curiosa e atenta aos indicados ao Oscar, tenho cumprido meu papel de assistir, ao menos, a todos os filmes da lista de Melhor Filme. “Sinners”, ou “Pecadores”, como foi traduzido no Brasil, é, até agora, o meu favorito. 

O longa conta com Michael B. Jordan no elenco e tem direção de Ryan Coogler, de quem já sou fã por trabalhos como “Creed”, “Pantera Negra” e “Judas e o Messias Negro“. Mais uma vez, ele me surpreende com sua genialidade narrativa e simbólica. 

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Para muitos, Pecadores pode parecer apenas um filme de terror sobre vampiros em uma comunidade negra marginalizada. Mas é justamente nos detalhes que Coogler nos captura. O verdadeiro enredo fala sobre a apropriação da cultura negra desde seus primórdios e como ela é constantemente retirada de seus corpos de origem e ressignificada a partir do protagonismo branco. 

O filme retrata um grupo de pessoas brancas, vampiras, que tentam se apropriar do corpo de um dos protagonistas por conta de seu dom musical. A música, aliás, é belissimamente representada em uma cena de tirar o fôlego, quando ele canta “I lied to you”. A sequência visual constrói uma linha do tempo de ritmos do passado, presente e futuro, todos originados da cultura negra, evidenciando como esses movimentos foram historicamente esvaziados de seu protagonismo. 

A crítica é clara: nem mesmo a cultura negra é permitida permanecer com seus próprios corpos quando a apropriação entra em cena e se coloca como centro da narrativa. 

E toda essa narrativa me lembra algo atual, que estamos vivendo neste início de ano: o Carnaval. Festa típica do povo, dos subúrbios e da Zona Norte carioca, onde senhoras se desdobravam para fazer os trajes de suas famílias para a festividade. Mais à frente, veio o Sambódromo, junto às escolas de samba, transformando tudo num grandioso espetáculo em que, pela primeira vez, corpos negros e periféricos eram a atração principal. 

Hoje, vemos essas raízes sendo esquecidas, uma vez que os cargos principais das escolas são destinados a quem pode pagar mais. Influenciadoras, modelos e outras figuras que, muitas vezes, já deixaram o samba morrer antes mesmo de entrarem na avenida — sem dar a mínima importância a essa grandiosa festa cultural do Brasil. 

Mais uma vez, algo surgido dos morros e periferias é tirado dos corpos negros e dado aos brancos, como se isso fosse uma construção deles. Mas não é. É, mais uma vez, a apropriação da nossa cultura.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Brand Strategist da Droga5, integrante do ForbesBLK e idealizadora da Margem Estratégica (mentoria exclusiva para mulheres negras que desejam atingir cargos de liderança no mercado publicitário).

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