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A emancipação da mulher negra é coletiva

A emancipação das mulheres negras dificilmente ocorrerá de forma plena enquanto o próprio povo negro não conseguir construir estratégias mais amplas de autonomia econômica, produção de conhecimento e organização coletiva
Marcha das Mulheres Negras em Copacana, no Rio de Janeiro, em 27 de julho de 2025.

Marcha das Mulheres Negras em Copacana, no Rio de Janeiro, em 27 de julho de 2025.

— Fernando Frazão/Agência Brasil

8 de março de 2026

Algumas estruturas sociais são tão antigas que acabam sendo percebidas como naturais, quando na verdade são resultado de processos históricos longos que organizaram poder, riqueza e oportunidades de forma desigual. No Brasil, diferentes indicadores sociais continuam mostrando uma distribuição bastante consistente dessas desigualdades. Quando observamos renda, patrimônio, acesso a posições de decisão ou mobilidade social, a pirâmide que aparece com frequência coloca homens brancos no topo, seguidos por mulheres brancas, depois homens negros e, na base, mulheres negras. Essa organização não é casual. Ela expressa a forma como o racismo e o sexismo foram incorporados à própria formação econômica e institucional do país.

É a partir dessa posição estrutural que o Dia Internacional da Mulher adquire um significado particular para as mulheres negras. Para nós, a data não pode ser compreendida apenas como um momento de denúncia do feminicídio ou como um marco de reivindicação da emancipação feminina em termos individuais. A experiência da mulher negra na sociedade brasileira é atravessada simultaneamente por raça e gênero. Essas duas dimensões não operam de forma separada. Elas se combinam para produzir uma condição social específica que molda as oportunidades, os riscos e os caminhos possíveis de emancipação.

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Isso significa que a emancipação da mulher negra não pode ser pensada isoladamente. Ela é, inevitavelmente, uma emancipação coletiva.

Historicamente, mulheres negras sempre estiveram no centro da sustentação material e simbólica das comunidades negras no Brasil. Foram elas que garantiram redes de cuidado, organizaram formas de sobrevivência econômica, sustentaram famílias inteiras e, muitas vezes, também lideraram processos comunitários, culturais e políticos. Nos últimos anos, esse movimento ganhou novas dimensões. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que as mulheres são maioria no ensino superior brasileiro há mais de uma década, representando cerca de 60% das matrículas. Dentro desse grupo, as mulheres negras têm ampliado de forma significativa sua presença nas universidades públicas e privadas.

Nos territórios periféricos e nas organizações sociais, essa movimentação também é visível. Mulheres negras têm ocupado com cada vez mais força os espaços de produção de conhecimento, formulação política e organização comunitária. Elas estudam, pesquisam, constroem diagnósticos sobre o país e elaboram alternativas para os problemas sociais que atravessam suas próprias vidas.

No entanto, reconhecer esse protagonismo exige também enfrentar um debate mais profundo sobre os caminhos da emancipação coletiva da população negra.

A posição estrutural da mulher negra dentro da pirâmide social faz com que sua luta não possa ser compreendida apenas a partir da relação com os homens brancos ou com as estruturas institucionais que concentram poder. Ela também atravessa as dinâmicas internas da própria comunidade negra. A emancipação das mulheres negras dificilmente ocorrerá de forma plena enquanto o próprio povo negro não conseguir construir estratégias mais amplas de autonomia econômica, produção de conhecimento e organização coletiva.

Nesse sentido, também não é possível ignorar o lugar que os homens negros ocupam nessa disputa emancipatória.

A violência que atinge os homens negros no Brasil é real e brutal. Eles são as principais vítimas de homicídios e de diferentes formas de vulnerabilidade social. Reconhecer essa realidade é fundamental. Mas também é necessário refletir sobre os caminhos que estão sendo construídos coletivamente dentro das comunidades negras e sobre as formas de masculinidade que se consolidam nesse contexto.

A emancipação das mulheres negras depende, em grande medida, da capacidade de o próprio povo negro construir projetos coletivos que enfrentem as estruturas históricas de desigualdade sem reproduzir, internamente, as mesmas lógicas de poder e hierarquia que estruturam a sociedade brasileira.

Esse ponto também aparece quando observamos os processos de mobilidade social. Parte dos homens negros que consegue ascender economicamente passa a circular em redes sociais e econômicas historicamente associadas à população branca. Relações inter-raciais fazem parte da complexidade das relações humanas e não podem ser tratadas como escolhas estratégicas ou como um problema moral. No entanto, quando analisamos a questão do ponto de vista da reprodução econômica e social, surge uma pergunta que raramente é discutida de forma aberta: para onde passa a circular a riqueza produzida por essa mobilidade individual e quais comunidades acabam sendo efetivamente fortalecidas por ela.

Pensar o Dia Internacional da Mulher a partir da experiência das mulheres negras exige, portanto, ampliar o próprio sentido da emancipação feminina. Não se trata apenas de disputar espaços individuais dentro de estruturas que continuam profundamente desiguais. Trata-se de construir condições coletivas de liberdade.

Enquanto a mulher negra permanecer na base da pirâmide social, sua luta não poderá ser apenas por ascensão individual. Ela será, inevitavelmente, uma luta pela transformação da própria estrutura que sustenta essa pirâmide.

E é justamente por isso que, para as mulheres negras, a emancipação nunca será apenas feminina. Ela será sempre coletiva.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Camila Santos

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