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Casal expõe jornalista como criminoso nas redes; vítima registra BO e questiona atuação da Meta

Profissional relata cobrança por PIX, divulgação de dados pessoais e circulação de sua imagem após acusação ligada a suposto golpe em Duque de Caxias (RJ)
O jornalista audiovosual Lucas Veloso.

O jornalista audiovosual Lucas Veloso.

— Reprodução/Agência Mural

20 de março de 2026

O jornalista audiovisual Lucas Veloso, co-fundador da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, teve sua imagem divulgada como suspeito de crime após uma sequência de contatos iniciada nas redes sociais e por telefone. O caso envolve um casal que se apresenta como proprietário de uma loja de celulares em Duque de Caxias (RJ).

Segundo o relato do jornalista, um perfil desconhecido passou a segui-lo na manhã do dia 18 de março. Horas depois, por volta das 16h, ele recebeu ligações de dois homens.

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Durante as conversas, os interlocutores afirmaram que a loja teria sofrido prejuízo após a retirada de aparelhos por motoboys e que Veloso estaria envolvido ou teria cedido dados para a ação.

O profissional afirma que foi pressionado a transferir cerca de R$ 8 mil por PIX como forma de ressarcimento. Ele decidiu manter o contato para compreender como os suspeitos tiveram acesso a informações pessoais, como nomes completos dos pais e número de CPF.

Enquanto ainda conversava com os interlocutores, amigos informaram que perfis associados ao casal passaram a publicar fotos do jornalista com mensagens que o vinculavam ao suposto golpe. As postagens pediam que páginas locais e programas de televisão recebessem denúncias sobre o caso.

Uma das imagens divulgadas trazia o texto: “Lucas da Silva Ferreira Veloso. Galeria de Fotos. Está com o cabelo mais baixo!”. A publicação circulou por horas em um perfil no Instagram com mais de 45 mil seguidores.

O jornalista relata que uma transmissão ao vivo realizada em um dos perfis solicitou mobilização para divulgar sua imagem como suspeito. Segundo ele, o conteúdo permaneceu disponível ao longo do dia e só foi retirado após a repercussão de um vídeo em que relatou o ocorrido e pediu apoio para denúncias nas plataformas.

Dados pessoais e comprovantes enviados

Durante as conversas, os interlocutores encaminharam capturas de tela que, segundo eles, comprovariam o uso de dados do jornalista em operações relacionadas ao suposto golpe.

Entre os registros, ao qual a Alma Preta obteve acesso, estão comprovantes de transferências bancárias e recibos de corridas solicitadas por aplicativo de transporte em endereços de Duque de Caxias.

Os documentos indicam valores superiores a R$ 3 mil e R$ 4 mil em transações distintas, além de registros de entregas por motociclistas. No total o valor somava R$ 8.172.

O material foi apresentado ao jornalista como indício de que seus dados teriam sido utilizados por terceiros. Ele afirma que não realizou nenhuma transferência e que não reconhece as operações descritas.

Capturas enviadas a Veloso também exibem telas de uma base de consulta identificada como “FaceBusca”, com referências a endereços, parentes e outras informações pessoais. O jornalista afirma que não sabe a origem desses dados nem como teriam sido obtidos.

Veloso registrou boletim de ocorrência de forma on-line ainda durante o dia em que os fatos ocorreram. Após o registro, buscou orientação em um posto policial próximo de sua residência. 

Segundo o relato, agentes recomendaram que ele não realizasse pagamentos, guardasse as provas e aguardasse o encaminhamento interno do caso. Nenhum prazo para retorno foi informado.

O protocolo do boletim segue em análise. O profissional afirma que avalia, com apoio jurídico, a complementação das informações e o envio de novos documentos.

Meta se omite diante de denúncia

Amigos e colegas de Lucas Veloso passaram a denunciar as publicações nas redes sociais assim que tiveram conhecimento do caso. O jornalista afirma que buscou contato com uma assessoria ligada à Meta Platforms para solicitar auxílio na remoção do conteúdo.

De acordo com o relato, a resposta indicou que o atendimento poderia ocorrer apenas em demandas relacionadas à imprensa e orientou a utilização dos canais de ajuda das plataformas. O profissional afirma que não recebeu retorno posterior nem apoio direto para retirada das publicações.

Veloso não recebeu outro contato da Meta. As contas dos autores não foram suspensas pela plataforma.

Receio sobre consequências futuras

O jornalista afirma que a exposição ocorreu sem confirmação oficial de sua participação no caso relatado pelo casal. Ele relata preocupação com a possibilidade de circulação permanente de sua imagem associada a crime e com eventuais efeitos em oportunidades profissionais, uma vez que sua trajetória profissional depende da exposição pública e da credibilidade.

Em seu relato, ele afirmou que os autores tiveram acesso ao seu perfil profissional e às suas credenciais, mas mesmo assim o trataram como criminoso e exigiram pagamento. Para ele, a hipótese é que não consideraram que uma pessoa negra pudesse ser jornalista.

“O Brasil é um país racista”, afirmou. “A plataforma está num país racista, com maioria de pessoas negras, e precisa entender minimamente como esse país funciona.”

Ele disse que a falta de resposta da Meta em um caso de exposição criminosa agrava a vulnerabilidade de pessoas negras.

A reportagem também procurou a Meta e não obteve retorno até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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