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Caso Marcello Cunha: delegado do Pará liderou operação que terminou na morte de jovem negro

No início deste ano, o mesmo delegado, visivelmente embriagado, atirou na direção de um grupo de jovens, revelando um histórico de condutas ilegais.
Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

— Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

6 de maio de 2026

No dia 7 de novembro de 2024, em Oeiras do Pará, distante cerca de 160 km de Belém, uma operação policial sob comando do delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha, terminou na morte de Rosimilck Rick Maciel Amorim, um jovem negro de 22 anos. Ele foi morto a tiros dentro de casa. 

A intervenção policial foi motivada por uma suposta denúncia anônima de que Rosimilck estaria “guardando drogas e armas de fogo” a mando de uma organização criminosa, da qual ele seria integrante. A casa da vítima foi invadida pela equipe policial sem autorização da Justiça. 

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De acordo com a versão dos agentes de segurança, o jovem teria atirado contra a equipe policial, forçando uma reação. Mas essa narrativa passou a ser questionada após a família e seus advogados terem acesso a imagens de câmeras de segurança da residência.

Nas imagens, às quais a Alma Preta teve acesso, um policial com apoio de pelo menos outros dois agentes aparece levando o jovem para dentro do quarto onde ele foi morto sob um golpe conhecido como “mata-leão”, completamente imobilizado. 

Este não é o único caso de conduta ilegal do delegado Marcello Cunha, potiguar de 36 anos. Mesmo sem ter completado três anos no cargo, ele já acumula denúncias. 

No início deste ano, o mesmo delegado atirou na direção de um grupo de jovens que estava na orla de Limoeiro do Ajuru depois que eles se negarem a beber com ele.

A cidade de Limoeiro do Ajuru, onde Marcello Cunha trabalha atualmente, fica no nordeste do Pará, distante 300 km de Belém.

De acordo com testemunhas, Marcello Cunha já chegou ao local bêbado em uma viatura. A suspeita também é reforçada por imagens gravadas no local, que circulam na internet, em que o delegado aparece visivelmente embriagado.

Os vídeos também mostram Cunha atirando contra a motocicleta de um dos jovens. 

Tanque da motocicleta após ser atingido pelo delegado Marcello e projéteis de armas de fogo. Foto: Reprodução

Os casos revelam um histórico de condutas ilegais envolvendo o delegado e questionamentos sobre a forma como as investigações foram encaminhadas, frequentemente sem responsabilização direta de Cunha. 

Marcello Cunha já chefiou delegacias de Oeiras do Pará e Limoeiro do Ajuru. Foto: Reprodução

Vítima estava imobilizada e sem reação quando foi morta

Os tiros que mataram o jovem negro Rosimilck Amorim foram disparados pelo investigador da Polícia Civil, Alysson Viana Guedes, que integrava o operativo liderado pelo delegado Marcello Cunha.

Segundo a versão inicial acolhida pela investigação, o policial teria reagido a uma “situação de risco”, depois de a vítima ter, supostamente, atirado na direção da equipe policial. 

O inquérito foi conduzido pela delegada Daniela Mendes de Souza Oliveira, do município de Abaetetuba, que concluiu que houve legítima defesa na ação policial e não indiciou os agentes por homicídio.

A promotora de Justiça de Oeiras, Isolda de Pontes Prato, concordou e pediu o arquivamento do caso. O juiz de Oeiras, Marcello de Almeida Lopes, manteve a decisão.

De acordo com o depoimento do investigador Alysson, os policiais foram “surpreendidos com uma súbita reação do suspeito Rosimilck, o qual se apossou de uma arma de fogo escondida ao lado da cama, apontou em direção aos policiais e afetou o disparo que atingiu a parede do quarto”.

Ele completa no depoimento: “o relator [policial Alysson] efetuou um disparo para repelir a injusta agressão e resguardar a sua vida e a dos policiais militares que ali estavam; que Rosimilck efetuou mais um disparo contra os policiais e então foi necessário mais disparos de arma de fogo por parte do relator para cessar definitivamente a injusta agressão”.

Essa narrativa, no entanto, passou a ser questionada após a família ter acesso a imagens de câmeras de segurança da residência, que registraram a movimentação dos agentes no interior do imóvel.

Um dos trechos mais emblemáticos mostra o policial Alysson, com apoio de pelo menos outros dois agentes, levando o jovem para dentro do quarto onde foi morto sob um golpe conhecido como “mata-leão”, completamente imobilizado. 

Nos vídeos, o policial Alysson aparece encapuzado, acompanhado de outros dois agentes identificados no processo como sargento da PM Natal e cabo da PM Tavares.

“A imagem que mostra a vítima fatal sendo levada para o matadouro, completamente imobilizada e sem possibilidade alguma de reação, foi totalmente ignorada nesta ‘apuração’, que se limitou a oitivas suspeitas. A imagem, que tem potencialidade de rodar o mundo, expondo a organismos internacionais de proteção aos direitos humanos, o terrível crime praticado, no Brasil, por agentes do Estado, foi solenemente ignorada neste feito”, dispara a defesa da família de Rosimilck, representada pelo advogado Hercílio de Azevedo Aquino, em manifestação à Justiça.

“A imagem que mostra a vítima fatal sendo levada para o matadouro, completamente imobilizada e sem possibilidade alguma de reação”, diz a defesa da família de Rosimilck. Foto: Reprodução.

Defesa da vítima nega envolvimento com facção criminosa

A defesa da família da vítima reconhece que, anteriormente, Rosimilck já havia se envolvido com o tráfico de drogas e chegou a ser condenado como réu confesso. No entanto, o mandado de prisão só foi expedido após a sua morte.

Segundo o processo, na ocasião, ele foi flagrado com 4,4 gramas de cocaína e 12,9 gramas de oxi, quantidade que teria adquirido por R$ 500 para revenda em Oeiras do Pará.

Apesar disso, a defesa nega que ele integrasse a organização criminosa Comando Vermelho e argumenta que a suposta ligação da vítima com a facção, alegada pelos policiais para justificar a operação que terminou na morte de Rosimilck, não altera a gravidade do caso. 

“Ainda que houvesse vínculo, isso não retiraria seu direito à vida. No Brasil não há pena de morte e qualquer execução configura crime”, afirma. 

A defesa também questiona a consistência dessa narrativa: “É razoável supor que alguém ligado a uma organização criminosa de grande porte fosse condenado por portar menos de cinco gramas de cocaína e pouco mais de dez gramas de oxi? Ou que tivesse adquirido entorpecentes por apenas quinhentos reais?”.

O laudo, assinado por Alysson Viana Guedes e Martha Michelle Amorim Pinheiro, policiais civis que participaram diretamente da operação, afirma que foram apreendidos cerca de 1,093 kg de maconha, 1,8 kg de oxi e 90 gramas de cocaína na casa de Rosimilck depois de sua morte.

Outro ponto levantado diz respeito às armas encontradas com Rosimilck. Na residência, foram apreendidos dois revólveres, calibres .38 e .32.

A defesa da família da vítima reconhece que, no momento da operação, ele possuía duas armas de fogo, mas nega que ele seria responsável pela guarda de armamentos da facção, como diz a versão policial.

Foto: Reprodução

Operação que terminou em morte foi alvo de críticas

Um outro aspecto sensível da ação policial é a participação de um servidor público chamado Allan Souza Siqueira no operativo do delegado Marcello Cunha. Ele não é policial; no processo, é descrito como servidor administrativo cedido pela Prefeitura de Oeiras do Pará.

Imagens de câmeras de segurança mostram Allan circulando dentro da casa, armado, acompanhando os agentes e interferindo diretamente na dinâmica da operação. As imagens também mostram Allan impedindo o padrasto do jovem de entrar na casa sob empurrões. 

No inquérito que apurou a operação policial, Allan foi o único indiciado no caso e apenas por porte ilegal de arma de fogo. Embora o delegado Marcello tenha chefiado a operação e seu nome apareça de forma recorrente nas manifestações da família da vítima, ele nunca foi formalmente responsabilizado.

Foto: Reprodução

“Tudo está a indicar que o indiciamento do Allan foi para fazer de conta que alguma coisa foi apurada no inquérito, instaurado com o indisfarçável propósito de não apurar a verdade dos fatos”, afirma o advogado Aquino.

Aquino argumenta ainda que a conduta do Allan não se enquadra apenas no crime de porte ilegal de arma. “Ele também praticou o crime do artigo 328, do Código Penal [usurpação de função pública], uma vez que exerceu função de policial sem sê-lo”, escreve o advogado.

No documento entregue à Justiça, ele ainda escreve que Allan “agiu com abuso, empurrando e jogando na lama o padrasto da vítima fatal, que tentou socorrê-la. Sem contar que ele é partícipe do crime que ceifou a vida da vítima, pois as imagens o mostram dentro do local da execução, prestando auxílio aos matadores”.

Operativo policial foi chefiado pelo delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha. Foto: Reprodução

Servidor teria ido apresentar a cidade à equipe policial

Em depoimento, o delegado Cunha negou autorização prévia para a ação do servidor. A explicação apresentada por Allan e reforçada pelo delegado é a de que o servidor estaria no local apenas para indicar o endereço da denúncia anônima, já que os policiais não conheciam a área.

Essa versão é classificada como falsa pela família da vítima. Desde os primeiros momentos da ação, Allan aparece fora da viatura, armado, acompanhando a dinâmica da operação e parte da equipe. Ele circula pela área interna e externa da residência.

A Alma Preta teve acesso às imagens e verificou que o relato da defesa da família de Rosimilck corresponde à verdade dos fatos.

Para a defesa, a contradição entre o que foi dito em depoimento por Marcello e Allan e o que foi registrado em vídeo levanta a hipótese de alinhamento prévio de versões.

“O curioso é que a declaração do Allan está em consonância com o depoimento do delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha, indicando que houve ajuste. A historinha combinada, no sentido de que Allan teria ido com a equipe policial apenas para indicar o local, teria dado certo, se não fossem as imagens das câmeras que registraram a presença do intruso ativamente na dinâmica da desastrosa operação policial”.

Desde os primeiros momentos da ação, Allan aparece fora da viatura, armado, acompanhando a dinâmica da operação e parte da equipe. Foto: Reprodução

Em nota, a Prefeitura de Oeiras do Pará informou que o servidor Allan Souza Siqueira mantém vínculo funcional regular com a administração municipal, exercendo cargo vinculado à estrutura administrativa do município.

Porém, ressaltou que Allan não tem atribuições relacionadas à atividade policial ou à participação em operações de segurança pública.

A gestão municipal destacou ainda que não houve qualquer autorização para que o servidor integrasse a operação policial, nem autorização para porte de arma de fogo em nome do município.

A Prefeitura também afirmou que não participou do planejamento, coordenação ou execução da ação, destacando que não possui participação em atividades conduzidas pelos órgãos estaduais de segurança pública.

Por fim, declarou que aguarda a conclusão das investigações. Paralelamente, informou que as denúncias estão sendo analisadas internamente para eventual adoção das medidas administrativas cabíveis. (Confira a nota completa ao final do texto)

Apontamento de falhas na investigação

Um dos principais pontos de contestação diz respeito à condução do inquérito. A defesa da família afirma que procedimentos básicos em casos de morte violenta não foram realizados, como autópsia, exame de corpo de delito e perícia no local do crime

O processo também não esclarece informações fundamentais, como o número de disparos que atingiram Rosimilck.

Mas imagens do corpo, às quais a Alma Preta teve acesso, registradas por uma pessoa próxima à vítima que preferiu não se identificar, indicam ao menos cinco perfurações por tiros.

Há marcas de tiro na região da cintura, do abdômen, do peito, do braço e das costelas, além de uma lesão na região da testa. Segundo a defesa, essa lesão seria compatível com uma coronhada.

Diante dessas lacunas, a defesa pediu a exumação do corpo para a realização de exames periciais, como o teste de resíduos de disparo de arma de fogo nas mãos da vítima para confirmar se ele atirou como diz a polícia, a autópsia para análise do trajeto e da distância dos tiros, além da verificação de sinais de contenção física.

Além disso, segundo a família, parte dos equipamentos de vigilância da casa de Rosimilck foi danificada ou retirada. O HD com as gravações completas foi preservado pela família e mantido fora do município, e aguarda uma perícia independente.

Foto: Reprodução

O caso chegou a ser arquivado em fevereiro de 2025, depois que o juiz Marcello de Almeida Lopes, da Vara Única de Oeiras do Pará, aceitou o argumento de legítima defesa para justificar a ação policial, após pedido da promotora de Justiça Isolda de Pontes Prado.

Mas a defesa da mãe de Rosimilck pediu o desarquivamento e apontou falhas graves na investigação, além de omissão de provas consideradas centrais. Por esse motivo, o juiz encaminhou o processo à Procuradoria-Geral de Justiça.

Em nota, o Ministério Público informou que o Procurador-Geral de Justiça, Alexandre Tourinho, manifestou discordância quanto ao arquivamento do caso. Por isso, nomeou outra promotora para atuar no processo como sua representante, garantindo a continuidade das apurações.

Segundo a nota, essa promotora já está atuando normalmente, inclusive tendo protocolado uma manifestação que ainda aguarda decisão do juiz responsável. (Confira a nota completa ao final do texto)

Até o momento descrito no processo, nenhum policial foi indiciado e o delegado Marcello permaneceu fora do rol de investigados formais.

Advogados dizem que tiveram seus direitos violados

A conduta policial também foi questionada por outros dois advogados, que denunciaram que foram impedidos de exercer suas funções pela delegacia de Marcello Cunha, na noite da operação que resultou na morte de Rosimilck. Eles representavam duas pessoas que foram presas na casa de Rosimilck. 

Em um vídeo ao qual a Alma Preta teve acesso, os dois advogados aparecem tentando acessar a delegacia para conversar com os clientes, mas são impedidos pelos policiais que estavam no local. Nas imagens, os advogados aparecem do lado de fora da delegacia, enquanto a policial permanece no interior da unidade.

A investigadora que aparece nas imagens é Martha Michelle Amorim Pinheiro, que também esteve presente na operação na casa de Rosimilck. Durante a discussão, ela afirma que a delegacia estava fechada naquele momento. A gravação foi feita por volta das 21h.

Ela também informa que não possui autorização para liberar a entrada dos advogados. Os advogados questionaram a decisão. “Como é que vocês querem deixar o preso incomunicável aí, Michelle? Tu sabe que a gente tem o nosso direito, Michelle? É uma ordem ilegal essa”.

Em seguida, a investigadora fala ao delegado Marcello: “DPC [delegado de Polícia Civil], os advogados querem invadir a delegacia. Eu já falei que a delegacia está fechada. É invadir, porque eu estou dizendo que não podem entrar”.

Os advogados respondem dizendo que estão no local no exercício da profissão. “Nós somos advogados, a gente não é família dele, não. Então o delegado negou o acompanhamento na diligência. A gente precisa conversar com ele”, declaram. Os advogados só tiveram acesso aos clientes por volta de 1h.

De acordo com o Estatuto da Advocacia, o advogado tem direito de conversar diretamente ou em particular com seu cliente preso, mesmo que ainda não tenha procuração. Além disso, a Constituição Federal garante o direito à assistência de um advogado ao detido.

O episódio foi denunciado à Justiça como violação das prerrogativas da advocacia, isto é, quando um profissional é impedido de exercer direitos garantidos por lei para atuar na defesa de um cliente.

Na decisão de 27 de janeiro de 2026, ao analisar, dentre outros pedidos, a denúncia de violação das prerrogativas dos advogados, o juiz determinou que a Corregedoria da Polícia Civil apure os relatos. Também mandou que o órgão oriente os policiais sobre o correto atendimento a advogados no exercício da profissão.

O processo na Corregedoria segue em andamento.

Caso em Limoeiro do Ajuru reforça denúncia de abuso de autoridade

Transferido para Limoeiro do Ajuru, também no nordeste do Pará, o mesmo delegado atirou na direção de um grupo de jovens que estava na orla do município, depois que eles se negarem a beber com ele, como apontam os relatos.

Em depoimento ao Ministério Público, um dos jovens que estavam na orla disse que, na madrugada do dia 25 de janeiro deste ano, o delegado chegou já embriagado ao local. Ele estava em uma viatura, com três mulheres e um homem, e se aproximou do grupo de cinco jovens pedindo para beber junto deles.

Um dos jovens tentou ir embora, mas foi impedido pelo delegado, que passou a intimidar o grupo com uma arma nas mãos e até batia com ela no próprio peito para se exaltar. 

Quando uma das pessoas insistiu em sair dali em uma motocicleta, o delegado efetuou o primeiro disparo e acertou o tanque do veículo, que foi abandonado, enquanto o proprietário deixou o local assustado. 

Vídeo mostra o delegado efetuando o disparo no tanque da moto. Foto: Reprodução

O grupo correu. Foi quando o delegado efetuou um segundo disparo na direção dos jovens em fuga. Ninguém foi atingido, mas, depois disso, Marcello ainda entrou em luta corporal com uma outra pessoa. 

Em seguida, o delegado foi desarmado por um comerciante local e levado pela Polícia Militar à delegacia que ele mesmo chefia. 

Delegado foi desarmado por um comerciante local e levado pela Polícia Militar à delegacia que ele mesmo chefia. Foto: Reprodução

De acordo com os advogados das vítimas, o delegado deveria responder pelos crimes de abuso de autoridade, uso indevido de arma de fogo e atentado direto contra a vida. 

“Nenhuma das vítimas foi atingida por circunstâncias alheias à vontade do agente, caracterizando-se, em tese, o crime de tentativa de homicídio”.

Corregedoria da Polícia Civil investiga o delegado

O caso foi alvo de uma investigação interna da Polícia Civil.

O órgão informou à reportagem, por telefone, em 26 de janeiro deste ano, um dia após o episódio em Limoeiro, que o caso foi tratado pela Corregedoria como “contravenção referente à incolumidade pública no âmbito de disparo de arma de fogo”, considerada uma infração de menor gravidade, que ocorre quando o tiro coloca a coletividade em risco, sem intenção de atingir uma pessoa específica.

Para um especialista consultado pela Alma Preta, na prática, a forma como o caso foi tratado abre a possibilidade do caso terminar em um acordo, sem que o delegado responda judicialmente por isso. 

A medida foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) de 2 de fevereiro de 2026. De acordo com o documento, a investigação administrativa ficou sob responsabilidade do delegado Renato Lopes Tarallo, corregedor regional do Baixo Tocantins, região que abrange o município de Limoeiro do Ajuru. 

A portaria estabeleceu prazo de 30 dias úteis para a realização da apuração, período que já foi esgotado.

Segundo o registro oficial, o delegado é suspeito de ter, “sob efeito de bebida alcoólica, efetuado disparo de arma de fogo na orla de Limoeiro do Ajuru”.

Para a defesa dos jovens, se houver omissão das autoridades competentes diante da gravidade da ação do delegado, isso pode configurar o crime de prevaricação, isto é, quando um agente público deixa de tomar providências que são de sua obrigação.

Foto: Reprodução

Última nota enviada pelo Ministério Público à Alma Preta, também em janeiro, diz que o delegado foi substituído em Limoeiro do Ajuru. Mas a corporação não confirmou o afastamento de Cunha.

De acordo com o Ministério Público, a Delegacia de Limoeiro do Ajuru está sem delegado com atuação presencial. A situação foi destacada em recomendação encaminhada ao delegado-geral da Polícia Civil no dia 16 de abril de 2026, com foco na necessidade de melhorias na segurança pública do município.

O documento afirma que a autoridade atualmente responsável pela unidade exerce funções em regime remoto.

O MP ressalta que já havia solicitado providências anteriormente, sem resposta até então. Diante disso, recomendou a adoção de medidas urgentes, incluindo a lotação de um delegado com atuação presencial, contínua e regular, estabelecendo o prazo de 30 dias para o cumprimento a partir do recebimento da recomendação.

Delegado não foi responsabilizado pelas condutas

O disparo de arma de fogo sob aparente efeito de álcool contra um grupo em Limoeiro do Ajuru, a operação policial que terminou na morte de um jovem em Oeiras do Pará e a violação das prerrogativas da advocacia revelam um conjunto de condutas com indícios de ilegalidade que colocam em xeque a atuação do delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha. 

Os casos revelam um histórico de condutas ilegais envolvendo o delegado e questionamentos sobre a forma como as investigações foram encaminhadas, frequentemente sem responsabilização direta de Cunha. 

Ele foi nomeado para o cargo em 23 de junho de 2023 pelo governador Helder Barbalho (MDB). Muita denúncia para apenas dois anos e 11 meses na função.

A reportagem procurou a Polícia Civil do Estado do Pará, a Polícia Militar do Estado do Pará, a Corregedoria da Polícia Civil do Estado do Pará, o Ministério Público do Estado do Pará e o Tribunal de Justiça do Estado do Pará para comentar os fatos, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações e eventuais atualizações.

Nota da Prefeitura de Oeiras do Pará

“A Prefeitura Municipal de Oeiras do Pará informa que tomou conhecimento dos fatos relacionados à operação policial realizada em 7 de novembro de 2024, no município, ocasião em que houve a morte de Rosimilck Rick Maciel Amorim.

Sobre os questionamentos encaminhados pela equipe de reportagem, esclarece-se que o servidor Allan Souza Siqueira possui vínculo funcional com a administração municipal, exercendo cargo regularmente vinculado à estrutura administrativa do Município, cujas atribuições não incluem atuação policial ou participação em operações de segurança pública.

A Prefeitura ressalta que não houve qualquer autorização institucional para participação do referido servidor em operação policial, tampouco autorização para porte institucional de arma de fogo em nome do Município.

A administração municipal também informa que não participou do planejamento, coordenação ou execução da referida operação policial, não possuindo ingerência sobre as atividades desempenhadas pelos órgãos de segurança pública estaduais.

Quanto aos fatos envolvendo o servidor, a Prefeitura aguarda a conclusão das apurações conduzidas pelas autoridades competentes, observando o devido processo legal, a ampla defesa e a presunção de inocência.

Paralelamente, as informações já disponíveis estão sendo analisadas administrativamente para adoção das medidas cabíveis no âmbito interno da Administração Pública, conforme determina a legislação aplicável.

A gestão municipal reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, o respeito às instituições e a correta atuação dos servidores públicos.”

Nota da Procuradoria-Geral de Justiça do Pará na íntegra

“O Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) informa que, diante dos fatos, o Procurador-Geral de Justiça manifestou discordância quanto ao arquivamento do feito, tendo designado outra Promotora de Justiça para atuar como longa manus.

Esclarece, ainda, que a referida promotora do Ministério Público vem atuando regularmente no caso, inclusive com petição já protocolada e pendente de análise pelo magistrado competente.

O MPPA orienta que eventuais esclarecimentos adicionais podem ser obtidos diretamente com a Promotora de Justiça responsável pela condução do feito.”

Edição: Flávio V. M. Costa.

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  • Fernando Assunção

    Repórter do Alma Preta Jornalismo na Amazônia paraense. Foco na cobertura de temas como direitos humanos, meio ambiente, política e questões relacionadas a povos e comunidades tradicionais.

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