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Desigualdades raciais persistem em renda, trabalho e educação em SC

Estudo inédito do CEDRA revela que em 11 anos Santa Catarina não teve mudança significativa nas desigualdades raciais
Imagem com luz baixa mostra pessoas negras lado a lado.

Imagem com luz baixa mostra pessoas negras lado a lado.

— Agência Brasil

11 de abril de 2026

O Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (CEDRA) lançou um estudo inédito que analisa as desigualdades raciais de renda, trabalho e educação no estado de Santa Catarina. A publicação surge em um contexto marcado pela aprovação da Lei Estadual nº 19.722/2026 – que restringe o uso de ações afirmativas de recorte racial no ensino superior – e busca contribuir com evidências para o debate público.

A partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o estudo demonstra que as desigualdades entre pessoas negras e brancas permanecem profundas, persistentes e estruturais, atravessando tanto o sistema educacional quanto o mercado de trabalho.

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As conclusões indicam que essas desigualdades se acumulam ao longo da trajetória de vida, limitando o acesso a oportunidades e reproduzindo padrões históricos de exclusão.

“Os dados mostram que a desigualdade racial em Santa Catarina não é pontual, mas estrutural e persistente”, sintetiza Marcelo Henrique Romano Tragtenberg, com pós-doutorado pela Universidade de Oxford, membro do Conselho Deliberativo do CEDRA e coordenador do estudo.

De acordo com o coordenador, mesmo quando há avanço educacional, a população negra acumula um conjunto de barreiras de acesso à educação em todos os níveis, e por conseguinte à renda e às oportunidades de trabalho.

“Reduzir ou eliminar políticas de ação afirmativa de recorte racial é aumentar a desigualdade entre a população branca e negra e aprofundar um problema que está longe de ser superado”, complementa.

Leia mais: Cuidar da primeira infância exige enfrentar desigualdade e racismo, defendem especialistas

No campo educacional, o estudo evidencia que o abandono e a reprovação são barreiras centrais à progressão escolar de estudantes negros, tanto no ensino fundamental quanto, de forma ainda mais acentuada, no ensino médio.

Esses obstáculos comprometem a continuidade dos estudos, aumentam a distorção idade-série e reduzem significativamente as chances de acesso ao ensino superior. E, ainda, provocam acesso mais tardio ao ensino superior e menor qualificação no mundo do trabalho por mais tempo para a população negra mais escolarizada.

Apesar de avanços recentes, como o aumento da presença de estudantes negros na graduação — passaram de 8,8% em 2016 para 20,2% em 2023 —, o estudo ressalta que esse crescimento não ocorreu de forma espontânea.

Ele está diretamente associado à implementação de políticas de ações afirmativas no ensino superior, especialmente o sistema de cotas raciais no setor público e o PROUNI e FIES no setor privado. Ainda assim, a participação da população negra no ensino superior permanece inferior à sua proporção na população do estado.

Outro aspecto central identificado é o ingresso tardio da população negra no ensino superior. A maior presença de estudantes negros com 25 anos ou mais indica que esse grupo enfrenta mais obstáculos ao longo da trajetória educacional, o que retarda sua entrada em ocupações mais qualificadas e impacta diretamente sua renda ao longo da vida.

No mercado de trabalho, as desigualdades se mantêm mesmo entre pessoas com níveis educacionais semelhantes. O estudo demonstra que, em todos os níveis de instrução, pessoas negras apresentam rendimentos médios inferiores aos de pessoas brancas, evidenciando que a educação, embora essencial, não é suficiente, por si só, para eliminar as desigualdades raciais.

Diante desse cenário, o CEDRA alerta que a restrição de políticas de equidade racial tende a aprofundar essas disparidades, dificultando ainda mais o acesso da população negra à educação superior e a posições mais qualificadas no mercado de trabalho.

“Os dados mostram que as ações afirmativas para negros tiveram papel decisivo na ampliação do acesso da população negra ao ensino superior. Ao restringir essas políticas, a lei estadual 19.722/2026 vai na contramão das evidências e tende a reduzir ainda mais as oportunidades para um grupo que já enfrenta desvantagens históricas. Isso compromete não apenas a equidade educacional, mas também a redução das desigualdades de renda e trabalho no longo prazo”, defende Marcelo Tragtenberg.

Leia mais: Mesmo qualificadas, pessoas pretas ocupam menos cargos de gestão em escolas no Espírito Santo

Principais descobertas do estudo

Desigualdades raciais de renda

  • Entre 2012 e 2023, a taxa de desocupação de pessoas negras foi quase o dobro da registrada entre pessoas brancas;
  • Pessoas negras ocupam apenas 10,8% dos cargos gerenciais, apesar de representarem mais de 23% da população;
  • A renda média da população negra corresponde a menos de dois terços da renda da população branca;
  • Em 2023, 42,2% das pessoas negras estavam nas faixas de renda domiciliar de até 1 salário mínimo, contra 28,5% das pessoas brancas;
  • Em todos os níveis de escolaridade, pessoas negras apresentam rendimentos inferiores aos de pessoas brancas.

Desigualdades raciais de educação

  • O abandono e a reprovação escolar são barreiras estruturais que afetam desproporcionalmente estudantes negros e comprometem sua trajetória educacional;
  • No ensino médio, a taxa de abandono entre estudantes negros (8,1%) é maior que entre estudantes brancos (4,6%), e a reprovação chega a cerca de 19%;
  • A distorção idade-série atinge cerca de um terço dos estudantes negros no ensino médio;
  • A participação de estudantes negros no ensino superior cresceu de 8,8% (2016) para 20,2% (2023), impulsionada por políticas de ação afirmativa;
  • Apesar do avanço, estudantes negros ainda estão sub-representados em relação à sua proporção na população;
  • A maior presença de estudantes negros acima da idade ideal indica ingresso tardio no ensino superior, associado a desigualdades acumuladas ao longo da educação básica.

O estudo conclui que as desigualdades raciais em Santa Catarina formam um ciclo interligado entre educação e renda, no qual desvantagens iniciais se acumulam e se reproduzem ao longo do tempo.

A superação desse cenário depende da continuidade e do fortalecimento de políticas públicas voltadas à equidade racial.

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