Cuidar da primeira infância exige enfrentar desigualdade e racismo, defendem especialistas

Debates do segundo dia do simpósio, em Teresina, conectam epigenética, racismo, gênero e políticas públicas para defender o cuidado como eixo central do desenvolvimento infantil
Painel sobre cuidado, bem-estar, gênero e raça na primeira infância, com mediação de Paula Perim, durante simpósio em Teresina (PI), em 25 de março de 2026. Na mesa, Emanuel Herbert, Patricia Núñez e Thais Ferreira.

Painel sobre cuidado, bem-estar, gênero e raça na primeira infância, com mediação de Paula Perim, durante simpósio em Teresina (PI), em 25 de março de 2026. Na mesa, Emanuel Herbert, Patricia Núñez e Thais Ferreira.

— Thiago Fontinele/Núcleo Ciência pela Infância (NCPI)

27 de março de 2026

Teresina (PI) – Se no primeiro dia o 11º Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância evidenciou os contornos da desigualdade no Brasil, o segundo e último, realizado na quarta-feira (25), aprofundou o olhar sobre o que acontece por dentro das crianças pequenas e, principalmente, sobre o que o país ainda falha em garantir por fora — condições dignas de cuidado.

Realizado pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), a programação de encerramento do evento reuniu pesquisadores, gestores e lideranças de diferentes territórios para discutir como ciência, políticas públicas e experiências comunitárias se cruzam tanto na construção quanto na negação de uma infância protegida.

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Logo na abertura, o professor adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mariano Zalis, conduziu a conferência “Como afeto e traumas influenciam na epigenética infantil”, com mediação de Marina Arilha, da Fundação Van Leer.

A fala deslocou o debate das estruturas institucionais para dentro do corpo, ao explicar como experiências vividas nos primeiros anos deixam marcas biológicas duradouras.

“Os traumas, as experiências boas e ruins… tudo isso acontece dentro do corpo de forma bioquímica”, afirmou, ao introduzir o conceito de epigenética.

Segundo o pesquisador, a ciência já superou a ideia de que a genética determina completamente quem somos. “Durante muito tempo, trabalhamos com o ‘velho dogma’. Hoje, sabemos que não estamos presos ao nosso DNA. As células são plásticas”, disse.

Quando a desigualdade entra no corpo e molda a infância

Ao explicar a epigenética, Zalis comparou o DNA a um “hardware” e a regulação genética a um “software”, que pode ser ativado ou silenciado a partir das experiências. Nesse sentido, fatores como alimentação, afeto, estresse e condições de vida passam a ter impacto direto no funcionamento do organismo.

“Nutrição, afeto, movimento e contexto de vida são pilares da epigenética”, afirmou o pesquisador. A fala dialoga diretamente com a realidade brasileira, marcada por desigualdades profundas que determinam quem tem acesso a esses elementos básicos.

Zalis também destacou o impacto do estresse crônico no desenvolvimento infantil. Em contextos de vulnerabilidade, o corpo pode entrar em um estado contínuo de alerta, com consequências duradouras.

“Com o tempo, o organismo pode parar de regular o cortisol. O estresse fica ‘ligado’ o tempo todo”, explicou.

Leia mais: Nenhuma criança deve carregar vergonha ou humilhação, defende educadora antirracista

Políticas públicas ainda ignoram quem sustenta o cuidado

Na sequência, o painel “Cuidado em foco: bem-estar, gênero e raça no contexto da primeira infância” aprofundou o debate ao deslocar o olhar para os cuidadores. 

A mesa contou com mediação de Paula Perim (Fundação Maria Cecília Souto Vidigal), reunindo Patricia Núñez, especialista em educação infantil da Fundação Van Leer; Emanuel Herbert Elias Alencar, coordenador de projetos da Rede Makira E’ta; e a vereadora do Rio de Janeiro, Thais Ferreira (PSOL).

Ao abrir a discussão, a mediação destacou que o cuidado é frequentemente tratado como responsabilidade individual, especialmente das mulheres, sem considerar as condições concretas em que ele acontece.

“Não dá para falar de uma única primeira infância no Brasil. Existem muitas primeiras infâncias”, pontuou.

Patricia Núñez chamou atenção para um aspecto ainda pouco incorporado nas políticas públicas: o bem-estar de quem cuida. “Quando nasce um bebê, também nasce uma mãe, um pai ou um cuidador”, afirmou.

Segundo a especialista, há evidências consistentes de que a saúde mental dos cuidadores impacta diretamente o desenvolvimento infantil.

“O bem-estar parental está relacionado à saúde futura da criança, à sua capacidade de autorregulação emocional e ao seu desenvolvimento como um todo”, explicou.

Núñez destacou ainda que programas que incluem apoio aos cuidadores apresentam melhores resultados, mesmo quando essa não é a proposta central da política.

A pesquisadora ressaltou que esse cuidado precisa ser compreendido dentro de contextos mais amplos. “Quando somamos fatores como pobreza, desigualdade, racismo e privação de sono, entendemos que a experiência da criação se torna muito mais complexa”, afirmou.

Quando o Estado falha, o território sustenta o cuidado

Alencar trouxe para o centro do debate a perspectiva dos povos indígenas e o papel do território na organização do cuidado. Representando a Rede Makira E’ta, ele destacou que, em muitas comunidades, o cuidado é coletivo e estruturado por redes de apoio tradicionais.

“A nossa relação com o cuidado está profundamente ligada ao território e à comunidade”, afirmou. Segundo o coordenador, quando uma mulher engravida, a rede de apoio já está formada, envolvendo familiares e outros membros da comunidade.

Esse modelo, no entanto, convive com a ausência do Estado. “As políticas públicas existem no papel, mas muitas vezes não chegam até os territórios”, denunciou.

Além disso, ainda relatou dificuldades de acesso a serviços de saúde, especialmente em regiões remotas, onde a presença de profissionais é limitada.

Diante disso, as comunidades mantêm práticas próprias de cuidado, baseadas em saberes ancestrais. “Temos parteiras, benzedeiras, um conjunto de conhecimentos que acompanha a gestação e fortalece o corpo”, disse.

Ao mesmo tempo, trouxe denúncias sobre violência institucional. “Em rodas de conversa com mulheres indígenas, nunca ouvi um relato de parto hospitalar sem algum tipo de violência”, afirmou.

Leia mais: Políticas de primeira infância não podem ignorar racismo, diz subsecretário do MEC

Racismo desde o início: infância negra e a urgência de escuta

A vereadora Thais Ferreira (PSOL) aprofundou o debate ao situar o racismo como elemento estruturante da experiência infantil no Brasil. “O racismo começa na primeira infância. E o dano é profundo”, afirmou.

Segundo a parlamentar, crianças negras vivenciam situações de violência simbólica e institucional desde muito cedo, o que impacta diretamente sua autoestima e seu desenvolvimento. “Estamos falando de crianças que, em alguns casos, chegam a desejar não existir”, disse.

Ao compartilhar sua trajetória, Thais destacou o papel das redes comunitárias no cuidado. Criada em uma favela do Rio de Janeiro, ela relatou uma infância marcada pelo coletivo. “Eu fui uma criança criada em quintal, cercada por muitas pessoas que cuidavam de mim”, contou.

Ao mesmo tempo, criticou a romantização da sobrecarga das mulheres. “Chamar de ‘mãe guerreira’ é, muitas vezes, normalizar uma ausência de políticas públicas”, afirmou.

Para Ferreira, o problema não está na maternidade, mas nas condições em que ela ocorre.

“A maternidade não é o problema. O problema são as violências, as ausências e as desigualdades que atravessam essa experiência”, disse. E reforçou: “Se não cuidamos de quem cuida, não estamos cuidando de ninguém”.

Painel sobre uso de telas e seus impactos no desenvolvimento infantil, com mediação de Amanda Queirós, durante simpósio em Teresina (PI), em 25 de março de 2026. Na mesa, Maria Beatriz Martins Linhares e Paulo Sergio Fochi. Foto: Thiago Fontinele/Núcleo Ciência pela Infância (NCPI)

Telas, atenção e desenvolvimento sob risco

Encerrando a programação, o painel “Uso de telas e seus impactos no desenvolvimento infantil” reuniu a professora Maria Beatriz Martins Linhares, da Universidade de São Paulo (USP), e o pesquisador Paulo Sergio Fochi, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com mediação de Amanda Queirós, do NCPI.

Linhares iniciou destacando que o tema ainda está em construção no campo científico, mas já apresenta evidências importantes. “Estamos engatinhando quando falamos do mundo digital, mas os impactos já são visíveis”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, o uso excessivo de telas está associado a prejuízos no desenvolvimento cognitivo, emocional e social. “O risco não se soma, ele se multiplica”, explicou, ao destacar que os efeitos são cumulativos e interdependentes.

A professora reforçou a importância de limites e mediação no uso de dispositivos, destacando que tempo e conteúdo influenciam diretamente no desenvolvimento infantil.

Também apontou impactos na saúde física, como problemas de sono e sedentarismo, além de prejuízos na atenção e na regulação emocional das crianças.

Já Paulo Sergio Fochi ampliou a reflexão ao questionar a naturalização da presença das telas no cotidiano infantil. “Não é natural que tudo passe pelas telas. Isso é uma construção social”, afirmou.

O pesquisador comparou a tecnologia a um ruído constante, aparentemente inofensivo, mas que interfere profundamente nas relações e no desenvolvimento. “Parece que não está atrapalhando, mas está”, disse.

Fochi também criticou a ideia de que crianças são “nativas digitais”. Para ele, o desenvolvimento de competências depende de experiências concretas, do brincar e da interação com o outro. “O que forma uma criança não é a tela, é a experiência humana”, afirmou.

O jornalista viajou a Teresina a convite do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI).

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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