Morar na base da pirâmide social é tão doloroso quanto ousar sair dela. Aceitar o lugar forjado profissionalmente para as mulheres negras é ter que ser um tanto quanto resignada. É aceitar a “vida como ela é”. É uma zona de conforto que de confortável não tem absolutamente nada.
Mas quando você olha de forma minuciosa para base da pirâmide e decide que não vai passar o resto da sua vida lá, o bicho pega e o mais difícil é ser constante nesse processo que tentam te convencer que não vale a pena tamanho esforço, e que você deveria se contentar em ser CEO do seu MEI.
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No meu caso para me manter firme romantizei o processo. Sabe aquela estratégia que para construir uma casa do zero é necessário visualizá-la pronta desde o inicio? Foi isso que eu fiz quando resolvi que iria passar no mestrado em uma federal, mesmo sendo graduada via bolsa de PROUNI em uma faculdade particular. Lá no inicio parecia impossível, inviável, mas eu enxergava a casa pronta e não desistia.
Tinha dias que acordava desanimada de estudar bibliografias que nunca tinha tido aulas sobre na vida como Rancière, Terry Eagleton, Bakhtin , Foucault e tantos outros. A minha estratégia era buscar pessoas para eu me inspirar, uma delas é a professora Nilma Lino Gomes. Nilma foi orientanda do professor Kabengele Munanga em seu doutorado.
Ela se referia a ele carinhosamente como “Kabê”, quando ela falava dele era tão gostoso de ouvir que decidi que iria ter um “kabê” pra chamar de meu na minha área de formação. Não demorou nada para eu enxergar meu orientador dos sonhos, o professor Muniz Sodré.
Então eu ousei sonhar em estudar na mesma pós graduação que a Lélia Gonzalez estudou. Ser orientanda do mesmo orientador de Beatriz Nascimento. Sim eu visualizei isso quando eu não entendia nada que o Backtin falava no estética da criação verbal e foi isso que me fez não jogar aquele livro longe. Mas além da romantização tive que abrir mão de muitas coisas na minha vida social.
Se eu tivesse filhos nunca que eu iria poder arcar com os custos dos livros, da prova de proficiência em língua estrangeira, com a inscrição no processo seletivo, com a passagem para outro estado, estadia e alimentação. Minhas prioridades seriam outras e com certeza sair da prisão chamada base da pirâmide social seria muito mais difícil pra não dizer impossível para minha realidade.
Não é que chegou minha hora de ser aprovada no mestrado da UFRJ e o Muniz foi meu orientador e tive a honra de ter a professora Nilma na minha banca final. Antes de concluir o mestrado em comunicação e cultura eu já havia sido aprovada no meu doutorado concomitante ao meu segundo mestrado, dessa vez em relações étnico raciais. O jeito foi colocar no porta mala do carro de uma amiga meus livros, panelas, roupas e outros pertences pessoais e me mudar para o Rio de Janeiro.
O que eu não imaginava que o inicio desse sonho seria um pesadelo. Me mudei em 2023 e fui recebida aos gritos no prédio para o qual havia acabado de me mudar. Uma vizinha, Ana Paula, aproximadamente da minha idade, ao perceber que eu era uma mulher negra e que passaria a morar na mesma coluna que ela, passou a gritar, para quem quisesse ouvir, as seguintes palavras: “MACACA SUJA, VOCÊ NÃO DEVERIA ANDAR NO CORREDOR, VOCÊ NÃO DEVERIA ENTRAR NO ELEVADOR, MACACA SUJA”.
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Eu escutava, mas custava a acreditar. A violência era tão absurda que me paralisou. Fiquei sem reação. E, paradoxalmente, isso me protegeu. Porque, se eu tivesse reagido, provavelmente deixaria de ser vítima para ocupar o lugar de ré. Mesmo profundamente abalada e vulnerável, eu conhecia os meus direitos. Fui sozinha à delegacia, sem advogado, porque não tinha condições financeiras de arcar com honorários. Fui bem recebida na delegacia especializada no Rio de Janeiro, mas o percurso esteve longe de ser simples.
Precisei retornar duas vezes, após o Ministério Público determinar novas diligências. Na primeira, a agressora apresentou um laudo médico, emitido 15 dias após o ocorrido, alegando estar em surto. Na segunda, fui confrontada com uma pergunta tão reveladora quanto violenta: “Você tem certeza de que ela estava gritando com você?”.
Três anos depois, a audiência finalmente foi marcada para o final de abril. Só quem vive uma situação como essa compreende o que significa atravessar esse processo sem qualquer suporte jurídico, psicológico ou social. A violência não termina no ato, ela se prolonga nas instituições, nos silêncios e nas dúvidas que nos são impostas.
No final de 2025, fui surpreendida com um convite para assumir a coordenação técnica e de pesquisa de um projeto inovador do Ministério da Igualdade Racial, exatamente o tipo de iniciativa que eu precisei e não tive quando sofri aquela violência ao chegar à cidade do Rio de Janeiro.
O projeto, denominado Casas da Igualdade Racial, prevê, inicialmente, a implementação de unidades no Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador, Pelotas (RS), e em duas cidades mineiras: Contagem e Itabira. Trata-se de uma política pública estruturada para oferecer acolhimento jurídico, psicológico e social a vítimas de racismo, por meio de equipes qualificadas e preparadas para lidar com a complexidade dessas violações.
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Assumir um cargo de coordenação como esse, carregando as marcas e as estatísticas de uma parcela da população historicamente empurrada para a base da pirâmide social, é motivo de orgulho, mas, sobretudo, de profunda responsabilidade. Até porque não se restringe a uma conquista individual, mas se expande porque é um compromisso coletivo: fazer com que esse projeto funcione, alcance quem precisa e produza transformação real.
Há, naturalmente, sentimentos ambíguos nesse processo. A segurança vem da minha trajetória: da formação sólida, da experiência profissional e da vivência na gestão pública. Já ocupei anteriormente cargos de liderança, e agora tenho a oportunidade de articular essa experiência com minha atuação como pesquisadora em uma instituição com excelência reconhecida pela CAPES (nota 7). Competência e qualificação não nos faltam.
Por outro lado, há a consciência, lúcida e necessária, de que não podemos romantizar os espaços institucionais. Ser mulher e ser negra ainda são fatores que operam como barreiras estruturais de exclusão. Esses ambientes exigem não apenas preparo técnico, mas também resistência de uma máquina para aguentar desgastes constantes que muitas vezes não é visto como violência.
Além disso, há a hiperexigência e a necessidade de provar competência o tempo todo. Mulheres negras frequentemente precisam entregar muito mais para serem vistas como igualmente capazes e ainda assim nem sempre são reconhecidas.
Sabemos que somos a maioria da população brasileira, mas seguimos sendo minoria nos espaços de poder e nos cargos mais bem remunerados. Eu mesma já perdi a conta de quantas mulheres negras altamente qualificadas conheci, graduadas, pós-graduadas, que, diante da ausência de oportunidades em suas áreas, foram empurradas para o trabalho doméstico. E, diante disso, há sempre quem diga: “todo trabalho é digno”.
Sim, todo trabalho é digno. Mas nem toda remuneração é. E essa diferença importa. Não dedicamos anos de nossas vidas à formação por lazer. Trabalhamos por dignidade. Por condições reais de existência. Por justiça. Por nós, e por aqueles que dependem de nós.
A primeira casa a abrir as portas foi a do Rio de Janeiro, no último dia 20 de março, ou seja a casa acabou de completar um mês de atendimento. Logo, logo as casas de Fortaleza, Salvador e Pelotas estarão operando.
Espero que esses espaços além de cumprirem a sua meta que é “promover, articular e integrar ações de enfrentamento do racismo e de promoção da igualdade racial, no âmbito do Programa Mais Igualdade, por meio de estudos/diagnósticos desenvolvidos nas Casas da Igualdade Racial.”, sejam um marco nas conquistas de direitos do povo negro.