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Foto inédita de missa após abolição da escravidão no Brasil é encontrada na França

Imagem do dia 17 de maio de 1888 mostra uma multidão de até 30 mil pessoas no Rio de Janeiro; diferente de outras fotos do evento, a princesa Isabel aparece em segundo plano, e os populares são os destaques
Fotografia retrata a primeira missa campal realizada quatro dias após a princesa Isabel assinar a lei Áurea.

Fotografia retrata a primeira missa campal realizada quatro dias após a princesa Isabel assinar a lei Áurea.

— Antonio de Barros Araújo/Acervo Musée Louis-Philippe

27 de maio de 2026

Uma fotografia inédita da primeira missa campal realizada após a assinatura da Lei Áurea foi encontrada na França. A imagem, intitulada “Missa Campal 17 de maio 1888” é de autoria do fotógrafo amador Antonio de Barros Araújo. O historiador Carlos Lima Junior, professor do Departamento de História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizou a descoberta.

A fotografia registra a celebração religiosa ocorrida quatro dias após a princesa Isabel assinar a lei que extinguiu formalmente a escravidão no Brasil. O evento aconteceu no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em uma área conhecida como praça D. Pedro I. As autoridades construíram um altar especial e uma tribuna reservada para a princesa Isabel, o Conde d’Eu e outras autoridades.

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Jornais da época estimaram a presença de até 30 mil pessoas. O registro captura a Família Imperial, a princesa Isabel (então regente do Império pela terceira vez), seu marido Conde d’Eu, membros do Império, representantes diplomáticos e forças militares e de segurança.

A foto, que mede 11,5 x 49 centímetros, se encontra na reserva técnica do acervo do Musée Louis-Philippe, no Castelo d’Eu, na pequena cidade de Eu, ao norte da Normandia, na França. 

O historiador argumenta que a fotografia caiu no esquecimento após o fim do Império, em novembro de 1889. A família imperial provavelmente despachou a imagem para a França, local do exílio da família, junto com a coleção privada da princesa Isabel.

A princesa residiu no Castelo d’Eu, o que explica o destino final da obra. Lá, a fotografia permaneceu guardada na reserva técnica do museu francês (que hoje ocupa o antigo castelo), onde ficou “esquecida” e “invisibilizada” por mais de 130 anos.

A dedicatória na moldura informa que o registro foi oferecido à princesa Isabel: “À Sua Alteza A Princesa Imperial”. (Foto: Antonio de Barros Araújo/Acervo Musée Louis-Philippe)

A descoberta é resultado da pesquisa de pós-doutorado do docente, financiada pela Fapesp e realizada entre 2022 e 2024 no Departamento de História da Unicamp, com período de pesquisa na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), na França. 

O artigo “Imagem (re)velada: sobre uma fotografia desconhecida da ‘Missa Campal 17 de maio 1888’ no acervo du Musée Louis-Philippe, Castelo d’Eu” foi publicado pela Revista de História da Arte e da Cultura (RHAC) da Unicamp.

Leia mais: ‘A abolição foi incompleta e promover igualdade é dever do Estado’, diz relator da PEC da Reparação

O que a descoberta representa

Segundo o artigo do professor, a foto mais difundida entre o público brasileiro referente à missa campal de 17 de maio de 1888 é de autoria do fotógrafo profissional Antonio Luiz Ferreira. Essa imagem pertenceu à coleção Dom João de Orléans e Bragança, bisneto da princesa Isabel, e está sob a guarda do Instituto Moreira Salles (IMS) desde 2009.

“Na foto de Luiz Ferreira, a princesa ganha maior destaque e protagonismo, enquanto que, na de Barros Araújo, é a multidão espectadora que ganha centralidade, deixando a princesa quase como um borrão, em um segundo plano”, explica o pesquisador em publicação da UNIFESP.

Carlos afirma que “espera-se que, com essa descoberta, a fotografia passe a integrar, enquanto documento visual, os debates em torno da memória da Abolição no Brasil”.

Para ele, o material permite que o público possa questionar sobre o ângulo escolhido por Antônio de Barros Araújo e a centralidade conferida aos populares na celebração que demarcava o fim do regime que perdurou por quase 400 anos. 

Igualmente,  é esperado que se reflita sobre as trajetórias das imagens, em seus arquivamentos e esquecimentos, e sobre a importância da pesquisa histórica no remexer dos acervos.

“Antes de mirarmos os nossos olhos de maneira nostálgica para essa fotografia recém-descoberta, vale recordar o samba-enredo da Mangueira, de 2019, uma vez que: ‘a liberdade não veio dos céus, nem das mãos de Isabel'”, conclui o historiador.

Leia mais: O samba da Mangueira e “o perigo da História única” de Chimamanda Ngozi Adiche

Texto com informações da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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