PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Cabo Verde na Copa do Mundo: o que a estreia revela sobre raça e identidade

Arquipélago africano participa pela primeira vez do Mundial e chega à competição com trajetória marcada pela herança atlântica, riqueza cultural e conexões históricas com o Brasil
Torcedora cabo-verdiana segura cartaz escrito “Cabo Verde em treino da seleção do país para a Copa do Mundo, no Estádio Municipal 25 de Julho, em Santa Cruz, em 23 de maio de 2026.

Torcedora cabo-verdiana segura cartaz escrito “Cabo Verde em treino da seleção do país para a Copa do Mundo, no Estádio Municipal 25 de Julho, em Santa Cruz, em 23 de maio de 2026.

— Patrick Meinhardt/AFP

30 de maio de 2026

A seleção de Cabo Verde disputa, pela primeira vez, a Copa do Mundo masculina. A classificação histórica veio em outubro de 2025, após vitória sobre Essuatíni, na última rodada do Grupo D das Eliminatórias Africanas. O país integra o grupo de quatro estreantes do mundial, ao lado de Jordânia, Curaçao e Uzbequistão. 

Com pouco mais de 618 mil habitantes, Cabo Verde é um arquipélago localizado na África Ocidental, no Oceano Atlântico Norte, a oeste do Senegal. O país é formado por dez ilhas vulcânicas e possui população majoritariamente afrodescendente, composta por crioulos, africanos e europeus. O português é a língua oficial, mas o crioulo cabo-verdiano faz parte do cotidiano e da identidade cultural local. 

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

Em entrevista à Alma Preta, o pesquisador Rubilson Delcano, professor da Universidade Federal do ABC, destacou que Cabo Verde possui uma trajetória histórica singular dentro do continente africano, marcada pelas conexões atlânticas, pela diáspora e pela construção de uma identidade formada entre influências africanas e europeias.

“Trata-se de uma sociedade historicamente moldada pelo encontro entre África, Europa, diáspora, colonialismo, resistência, mobilidade e reinvenção cultural”, ressalta.

Leia mais: Confira os convocados da RD Congo e de Cabo Verde para a Copa

O pesquisador ressalta que, apesar das dificuldades históricas enfrentadas pelo arquipélago, como secas, fome e limitações econômicas, Cabo Verde consolidou uma produção cultural reconhecida internacionalmente.

“Cabo Verde produziu uma das experiências culturais mais sofisticadas do mundo atlântico, expressa na língua, na música, na literatura, na oralidade, na gastronomia e em formas muito próprias de sociabilidade e pertença”.

Ao analisar as aproximações entre Brasil e Cabo Verde, Delcano aponta que os dois países compartilham heranças históricas ligadas à colonização portuguesa e ao tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.

Segundo ele, as conexões culturais podem ser percebidas na música, na oralidade, na culinária e em diferentes formas de sociabilidade presentes nos dois territórios, especialmente em regiões brasileiras marcadas pelas heranças africanas. 

“Tanto Brasil quanto Cabo Verde são produtos profundos da expansão colonial portuguesa, da escravidão transatlântica, da circulação transoceânica de pessoas, culturas e mercadorias e de intensos processos de mestiçagem”, afirma. 

Para o pesquisador, a presença do país na Copa do Mundo ultrapassa o aspecto esportivo e representa um marco simbólico para a população e para a diáspora cabo-verdiana. 

O docente acrescenta que a classificação também simboliza reconhecimento internacional e fortalecimento da identidade nacional.

Leia mais: Copa 2026: conheça as 10 seleções africanas classificadas para o mundial

“A Copa oferece a oportunidade de apresentar Cabo Verde ao mundo para além dos clichês frequentemente associados à África. Disputar o mundial significa muito mais do que participar de um torneio de futebol: significa inscrever-se, pela primeira vez, numa arena global de enorme visibilidade, reafirmando sua capacidade histórica de transformar limitações estruturais em projeção, pertença coletiva e afirmação internacional”, avalia. 

A construção racial cabo-verdiana

Rubilson Delcano explica que a identidade racial em Cabo Verde foi construída de forma distinta de outros países africanos, devido à própria formação histórica do arquipélago, marcada pela colonização portuguesa, pela escravidão transatlântica e pelos processos de miscigenação cultural e populacional. 

De acordo com o professor, a sociedade cabo-verdiana desenvolveu, ao longo da história, uma identidade atravessada por disputas entre africanidade, cruoulidade e referências europeias, aspecto que ainda influencia a forma como o país debate raça e pertencimento negro. 

“A complexidade cabo-verdiana não deriva de uma ausência de africanidade ou negritude, mas do fato de que sua identidade nacional foi historicamente construída como terreno de negociação permanente entre África e Europa, colonialidade e resistência”.

O especialista ainda destaca que, apesar das tensões históricas, há um movimento crescente de valorização da identidade africana e negra no país, especialmente entre os jovens artistas e pesquisadores. 

“Observa-se entre um renovado movimento de reafirmação da africanidade, frequentemente articulado a debates sobre racismo, colonialidade, memória da escravidão, panafricanismo e pertencimento negro global”, conclui.

Contribua com a cobertura da Alma Preta sobre a Copa 2026

A cobertura da Copa do Mundo de 2026 faz parte das iniciativas apoiadas pelo Catarse da Alma Preta. O financiamento coletivo ajuda a ampliar a produção de reportagens, entrevistas e conteúdos especiais sobre esporte, raça e direitos humanos.Para fortalecer o jornalismo independente e antirracista, os leitores podem participar da campanha e apoiar o projeto pelo site.

Edição: Nataly Simões

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano