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Dossiê expõe conivência de igrejas protestantes com a escravidão no Brasil

Documento lançado pelo Movimento Negro Evangélico debate os impactos do legado escravocrata nas igrejas brasileiras
Pessoas negras escravizadas trabalhando na plantação de café em uma fazenda em 1882, no Vale do Paraíba (SP).

Pessoas negras escravizadas trabalhando na plantação de café em uma fazenda em 1882, no Vale do Paraíba (SP).

— Marc Ferrez/Domínio Público

3 de junho de 2026

O Movimento Negro Evangélico do Brasil (MNE) lançou nesta terça-feira (2) o dossiê “388 anos: E a Igreja com isso?”, uma pesquisa inédita que reúne documentos históricos, artigos acadêmicos e registros sobre a relação de igrejas protestantes históricas com a escravidão e o racismo no Brasil. O material analisa a atuação de denominações evangélicas desde o período colonial até a abolição formal da escravidão, em 13 de maio de 1888, e busca compreender como esse legado histórico ainda impacta as estruturas religiosas e as dinâmicas raciais no presente. 

A pesquisa reúne mais de 100 referências acadêmicas e documentais, organizadas a partir de uma ampla investigação bibliográfica e histórica conduzida pelo MNE. O dossiê aborda denominações como a anglicana, a metodista, a presbiteriana, a batista, a luterana e a congregacional, identificando diferentes formas de participação, silêncio, tolerância e conivência institucional diante do sistema escravocrata brasileiro. 

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O lançamento do dossiê marca o ápice da campanha “388 anos de escravidão: e a Igreja com isso?”, iniciada pelo Movimento Negro Evangélico em 2024. A mobilização surgiu após um congresso evangélico anunciar a participação de um teólogo estrangeiro conhecido por publicações em defesa da escravidão transatlântica.

O episódio provocou reação de lideranças negras cristãs de diferentes tradições religiosas no país e impulsionou o debate sobre o papel histórico das igrejas no sistema escravocrata brasileiro. 

“A partir daquele episódio, entendemos que não bastava apenas denunciar. Era preciso abrir um debate profundo com as igrejas históricas sobre seu papel durante a escravidão e sobre como esse legado ainda impacta as comunidades negras dentro dos espaços de fé. O dossiê nasce desse compromisso com memória, verdade e reparação”, afirma Vanessa Santos, coordenadora nacional do MNE.

A partir dessa articulação, o Movimento Negro Evangélico organizou denúncias públicas, debates e ações de incidência política dentro das comunidades de fé. Desse processo nasceram a campanha nacional, um manifesto público sobre racismo teológico e uma agenda permanente de memória, verdade e reparação histórica nas igrejas brasileiras. 

Além de recuperar documentos históricos pouco explorados, o estudo evidencia contradições entre discursos religiosos e práticas sociais da época, incluindo casos de lideranças religiosas, missionários e membros de igrejas envolvidos diretamente com estruturas escravistas.

Leia mais: Movimento Negro Evangélico pede às igrejas a abertura de arquivos da escravidão

Entre os exemplos analisados está a atuação de anglicanos britânicos ligados à mineração em Minas Gerais durante o século XIX, em empreendimentos que utilizaram mão de obra escravizada mesmo diante de compromissos formais de emancipação. 

O dossiê também destaca personagens e iniciativas religiosas que atuaram em defesa da abolição e da dignidade da população negra, buscando construir uma análise histórica crítica e abrangente sobre o papel das igrejas protestantes no Brasil. Para o Movimento Negro Evangélico, o levantamento representa um esforço reparatório histórica dentro das comunidades de fé. 

Para Brian Kibuuka, professor titular da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e um dos contribuintes da publicação, o dossiê representa uma contribuição histórica, teológica, política e ética de grande relevância para o debate contemporâneo.

“O dossiê convoca as igrejas protestantes brasileiras a encararem, com seriedade documental e responsabilidade pública, sua participação, seus silêncios, suas cumplicidades e suas possibilidades de reparação diante da escravidão, do racismo e de seus legados. A reflexão proposta pelo Movimento Negro Evangélico desloca o debate do campo da mera opinião para o terreno da memória, da verdade histórica, da responsabilidade institucional e da justiça. Trata-se de um chamado necessário para que a fé cristã não seja usada para encobrir violências, mas para produzir arrependimento, compromisso antirracista e transformação concreta das comunidades de fé”, destaca.

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Além da análise histórica, o documento apresenta propostas de reparação institucional, como reconhecimento público das violações históricas, fortalecimento da educação antirracista nas igrejas, valorização de lideranças negras, revisão de currículos teológicos e compromisso permanente com a justiça racial. 

O dossiê está disponível gratuitamente no site oficial do Movimento Negro Evangélico Brasil. 

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