Kinshasa, RD Congo – No último dia 25 de dezembro, cerca de 60 pessoas, uma maioria composta de mulheres mais velhas, e cerca de 12 crianças, ouviam com atenção um pastor, um homem negro de pele clara e cabelo curto, com a aparência de 50 anos, dirigir a palavra ao público de fiéis.
“Essa entrega é a chave. Venha aqui e coloque para abrir as portas da sua vida. Venha e coloque aqui em nome de Jesus Cristo. Se você quiser um envelope de doação, pegue do altar”, afirmou o pastor Gilson, que disputava a atenção do público com o barulho das motos que circulavam pela avenida ao lado.
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Durante o culto, o pastor também adotou um tom crítico e disse não ter o Natal como uma data preferida, por ter se tornado muito “comercial”.
De todos os fiéis, apenas três não se levantaram para pedir bençãos para seus projetos para 2026 ou para pegar os envelopes para doação.
O culto aconteceu em um salão, com aproximadamente 270 cadeiras brancas de plástico, daquelas que são alugadas para festas infantis no Brasil. No palco, uma cruz, uma mensagem de que “Jesus é o Senhor”, escrito em francês, e ao lado uma bandeira da República Democrática do Congo (RDC).
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O culto, que poderia ser em qualquer lugar no Brasil, aconteceu em Kinshasa, na capital da RDC, no principal templo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no país africano, um espaço bem diferente dos maiores no Brasil. Da Avenida Democracia, apenas uma faixa indica a presença da igreja, que fica no segundo andar de um prédio de dois andares.

Uma ‘multinacional brasileira’
Presente no país desde 2002, a Igreja Universal tem cinco templos em Kinshasa. O principal fica no bairro que leva o nome da cidade, mas há outros na capital, nos bairros de Kasavubu, Bandal, Ngaliema e Kimbaseke. Não existem núcleos da IURD em outras cidades do país, mesmo em grandes municípios como Lubumbashi, capital da província do Katanga, a mais rica da nação.
O investimento da Universal no país tem fundamento, já que a RDC é uma das nações mais cristãs do continente africano. Entre os congoleses, 40% se consideram católicos e 15%, evangélicos, segundo pesquisas.
Autora do livro “Baixou o santo no reino dos céus”, Bruna David de Carvalho acredita que a expansão internacional da igreja está em seu DNA desde o início. Segundo o site oficial da IURD, a igreja foi inaugurada em 1977, com uma estrutura simples, no local de uma antiga funerária, e já com a participação de Edir Macedo.
“Desde o seu primórdio, a Igreja Universal se coloca como um empreendimento internacional, universalista, literalmente. O Edir Macedo se torna o grande pensador da igreja e, com esse intuito de internacionalizá-la, ele começa nos Estados Unidos”, conta.
A primeira unidade da IURD fora do Brasil foi inaugurada em 1986 em Nova York. A primeira do continente africano foi instalada em Angola, em 1992.
Para Carvalho, a Universal do Reino de Deus pode ser entendida como uma multinacional brasileira. “A Universal construiu o Templo de Salomão aqui em São Paulo. É uma multinacional e dá muito, muito dinheiro”, conta. Segundo o site oficial da Universal, a igreja está presente “em quase 150 países ao redor do mundo”, explica.

Fiéis congoleses entregam dinheiro para a Igreja Universal
Agnes, uma mulher aposentada próxima dos 70 anos, fez uma doação para o culto do dia 25 de dezembro, mas não quis revelar o valor, descrito por ela como confidencial. Antes, ela trabalhava como comerciante no Zando, o maior mercado público de Kinshasa. Hoje, ela vive do apoio dado pelos filhos.
Mesmo com apertos financeiros, ela tem o costume de doar dinheiro para a Igreja Universal, já que, para ela, as doações são motivos de bênção.
“Quando eu comecei a vir à igreja, eu estava vendendo produtos no Zando. Na primeira vez, eu dei 50 francos congoleses (equivalente a R$ 0,12). Aos poucos, eu fui dando mais e mais dinheiro. Quanto mais eu doava, mais eu era abençoada por Deus”, disse.
Agnes não parece preocupada com a possibilidade de ficar sem dinheiro, mesmo que hoje não tenha renda. Para ela, toda vez que faz doações, garante o dinheiro que receberá dos filhos.
“Deus está abençoando meus filhos e eles me dão dinheiro. Eles pagam meu aluguel. Então nós sempre temos comida em casa, a gente nunca fica sem o dinheiro para vir para a igreja aos domingos. Dar o dinheiro destrava as bênçãos”, afirmou.
Thayane Fernandes, doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisadora do cristianismo evangélico, explica que a teologia da prosperidade é uma ideia, baseada na Bíblia, que aproxima os valores cristãos aos princípios do capitalismo.
“Ela é fundamentada a partir de uma ideia de apropriação de bens e sinais da bênção de Deus. É dever do fiel entregar os bens dele para a igreja, porque só assim ele vai ter retorno”, conta.
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Fernandes explica que existe uma pressão sobre os fiéis, que ficam responsáveis pelo seu sucesso pessoal e financeiro.
“Se ele não tiver bens ou dinheiro, deve entregar a sua devoção. E se ele não for bem sucedido, é porque ele está falhando. Você deve estar em paranóia o tempo todo, porque você depende da sua prosperidade financeira. Deus só vai te devolver o que você já merece”, conta.
Dados do Banco Mundial de 2024 mostram que 73% da população congolesa vive com menos de US$ 2 por dia, o que coloca o país entre as cinco nações mais pobres do mundo. Em 2012, 69% da população vivia nesta condição.

Carvalho acredita que a Universal se aproveita da vulnerabilidade e da “ausência de horizontes” de pessoas pobres, seja no Brasil, seja em outros lugares do mundo. Para isso, vende o sonho da prosperidade para os fiéis.
“Uma das bases da Igreja Universal é realmente a coisa da teologia da prosperidade. Seu cerne é essa coisa de você barganhar com Deus. Olha, eu estou dando dinheiro para Deus, para o pastor, que é o representante de Deus, então eu tenho direito a alguma coisa: um pedaço do céu, a salvação ou a melhora da minha vida”, explica.
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Seis meses antes, observamos a mesma cena de uma mulher com mais de 60 anos doando para a Universal. Era 3 de junho, uma terça-feira — a Igreja Universal tem uma programação para todos os dias. De segunda à sexta, os cultos ocorrem às 7h, 12h, 15h e 18h, com duração máxima de 1h. No sábado e no domingo, os cultos são às 9h, com um destaque para a celebração de domingo, que é descrita como a “Grande oração para encontrar Deus”.
Às 18h daquela terça-feira, o pregador foi um homem negro com tom de pele escuro, com uma camisa social azul de manga curta, uma gravata vermelha, uma calça social preta e um sapato social preto.
“O Senhor Jesus estava vivo. Sempre que via alguém doente, ele não brincava. Fazia tudo o que podia para expulsar essa doença”, pregou Brownly, o pastor congolês, há mais de dez anos na Universal.
Ao final do culto, timidamente, Brownly apresentou um envelope e pediu uma contribuição dos fiéis. Apenas a única mulher mais velha do espaço fez uma doação — talvez a única que poderia contribuir. No envelope estava escrito um pedido para que o documento não seja jogado na rua e uma pergunta: “Qual é a sua sentença?”, com um martelo e uma balança, dois símbolos da justiça.
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Textos impressos em preto e branco com trechos da Bíblia também foram entregues para os fiéis. Em um dos papéis, estava um trecho do capítulo 20, versículo 25 do livro de Lucas: “Disse-lhes então: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
Ainda como pastor auxiliar, Brownly percorreu um longo trajeto para alcançar o posto atual. Para isso, é preciso que a pessoa se torne um membro da igreja, depois passe pela evangelização, então trabalhe para a igreja, depois se candidate para ser um pastor estudante e, enfim, um pastor auxiliar.
Os sacrifícios, contudo, não são restritos aos fiéis congoleses. Um pastor associado, que conversou de maneira anônima, disse que ele ainda não é um pastor pleno. Ele prega em outras igrejas da IURD em Kinshasa, diferentes da principal.
“Os pastores não são donos das suas casas. Tudo deles pertence às igrejas. Na Igreja Universal, os pastores não têm pertences. Tudo deles pertence à Igreja. Nós não estamos trabalhando pelos nossos interesses, estamos trabalhando pelas pessoas para elas serem salvas. Essa era a missão de Jesus. Ele veio para servir a Deus. Nós estamos fazendo o mesmo”, afirma.

Com base em sua pesquisa em outras unidades da IURD, Carvalho afirma que existe um desejo por parte da Igreja Universal de controlar o corpo e a vida dos fiéis e também dos pastores.
“A Igreja Universal quer aplicar essa questão do controle a todos os corpos. Dos pastores também, porque é uma forma de coerção. Se você mora na casa da igreja, você não vai se rebelar contra a igreja, senão você vai ficar sem onde morar”, explica.
A realidade é diferente para Edir Macedo, um dos fundadores da IURD. A lista publicada pela Revista Forbes sobre as pessoas mais ricas do Brasil aponta para o pastor na 37ª posição, com um patrimônio líquido de R$ 9,8 bilhões. Ele também é dono da Record, a segunda maior emissora de TV do Brasil.
A Record não é a única empresa do conglomerado de Edir Macedo que ainda é dono do Banco Digimais e do Hospital Moriah, localizado em São Paulo.
Rádio da Universal em Kinshasa alterna palavra de Deus e músicas gospel
A Universal ainda tem uma rádio em Kinshasa, sintonizada na FM 106.7. Sua programação intercala músicas de louvor, em francês e lingala, a língua mais popular entre os congoleses em Kinshasa, e mensagens de pastores, também nas duas línguas.
Para Carvalho, isso faz parte da cultura da Universal, de construir as suas próprias plataformas de comunicação. Edir Macedo é dono da Record desde 1989, e a empresa ganhou espaço na audiência do país. “Isso está no cerne, no DNA da Igreja Universal”, conta.
Em um desses recados para o público, o apresentador apela aos dramas pessoais dos ouvintes e se refere a possíveis desafios familiares que eles estejam vivendo.
“Talvez você esteja enfrentando problemas na sua família. Você não sabe o que fazer para sair desse problema. Talvez você esteja atormentado pelo que está acontecendo na sua casa, família ou o que seu filho está fazendo”, diz.
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O apresentador pede calma para as pessoas e as convida a visitar uma das cinco unidades da Igreja Universal. “Não são eles, são os espíritos que os dominam. Tudo o que você está enfrentando na sua família será resolvido por Deus. Você verá!”, conta.
Em dado momento, uma mulher de Guadaloupe, um dos territórios franceses no Caribe, dá um depoimento durante o culto. Isso porque ela teve problemas familiares depois se mudou para Toulouse, na França, e contou como a Universal foi importante para superar as dificuldades.
“Eu comecei a me sentir mal, por isso eu procurei a Universal próxima da minha casa e fui tocada pelas pregações. Eu comecei a aparecer mais na igreja e a evangelizar. Isso me deu coragem de ligar para o meu pai e me reconciliar com ele. Então eu fui batizada e isso me deu uma profunda alegria”, conta.
O apresentador, então, envia um recado para as pessoas, depois do depoimento. “Glória a Deus, irmãos e irmãs. Veja os desafios que essa irmã tinha. Ela tinha um monte de desafios na sua família, com a sua saúde, sua vida espiritual. Como você pode ver, quando ela se comprometeu com Deus, Deus a ajudou”, disse.
Pastores congoleses da Universal evitam conversar com jornalistas
As duas tentativas de entrevistar os pastores da Universal não surtiram efeito. Na primeira vez, naquele 3 de junho, o pastor congolês pareceu empolgado com o interesse de um repórter brasileiro, ou seja, do país de origem da Universal.
A entrevista, contudo, precisava do aval do pastor Gilson, brasileiro, que ficou desconfiado. Ele aceitou conversar no dia 14 de julho, na sede da Universal em Kinshasa, e explicou que, antes de conceder qualquer entrevista, precisaria da autorização da matriz, no Brasil. A reportagem fez o pedido por e-mail, mas a Universal se recusou a dar entrevista à Alma Preta.
No dia 25 de dezembro, no Natal, houve uma nova tentativa, mas o pastor brasileiro não deu abertura para dialogar com os fiéis. Pediu, novamente, por uma autorização da matriz para autorizar qualquer entrevista.
“Nós não podemos fazer nada sem a autorização do escritório do Brasil. Tudo o que nós sabemos é que a gente só pode dar entrevista com autorização”, disse um dos representantes da Universal.