A notícia do cancelamento da 9ª edição da da Marcha do Orgulho Trans, prevista para acontecer em São Paulo na última semana, é um dos sinais de avanço do desmonte de políticas de apoio à diversidade no país. O cancelamento acontece no contexto em que a Parada LGBT+ de SP, em seu aniversário de 30 anos, perde 60% de receita de patrocínio.
Em entrevista à Alma Preta, a ativista e pré-candidata a deputada estadual Neon Cunha (PT-SP), de 56 anos, atribuiu o cancelamento da marcha trans a uma combinação de fatores: falta de recurso, desinteresse empresarial e, sobretudo, ausência de empatia.
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“As pessoas precisam se envolver. Se você tem privilégios, precisa reconhecer quem não tem. A marcha é um espaço de celebrar a existência. O que fere tanto as pessoas na existência alheia?”
Neon lembrou que a edição do ano passado contou com patrocínio da Petrobras, mas este ano a empresa, que é controlada pela União, não renovou o apoio.
“Isso também diz qual é a correlação governamental com a população trans”, avaliou, ponderando que, embora esteja filiada a um partido da base governista, o próprio Partido dos Trabalhadores (PT), é necessário reconhecer os limites do apoio institucional.
Retrocessos estruturais e o ‘cheiro de ditadura’
Neon Cunha, que se descreve como “mulher negra, ameríndia e transgênera, nessa ordem”, traçou um paralelo entre o momento atual e o período da ditadura militar.
“Não digo só pela violência física, mas pelo processo de exclusão, que produziu pobreza. A gente vive [novamente] essa retórica de pessoas que adotaram o fascismo como pensamento. É uma lógica individualista e capitalista, em que só importa o que é bom para mim e para os meus”, disse.
A ativista destacou o aumento de projetos de lei antitrans no Brasil e no mundo, citando a influência trumpista e o alinhamento do conservadorismo brasileiro aos interesses do capital financeiro.
Um deles ocorreu no final de maio: a Câmara Municipal de São Paulo aprovou em primeira votação um projeto de lei que proíbe a presença de crianças e adolescentes em eventos que “façam alusão ou fomentem práticas LGBTQIA+”. O texto ainda precisa passar por uma segunda votação em plenário antes de seguir para uma eventual sanção do prefeito.
Dados da plataforma Observatória, da Agência Diadorim, mostram que, de 2019 a outubro de 2024, foram apresentados 575 projetos de lei pró-LGBTQIA+ e 437 propostas consideradas anti-LGBTQIA+ em Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional. Toni Reis, diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+, afirmou ao Congresso em Foco que cerca de 98% dessas propostas são inconstitucionais, mas ainda assim tramitam.
Para Neon Cunha, essa realidade é um reflexo “da extrema direita e do fundamentalismo religioso” que segue padrões internacionais “reproduzidos e adaptados à nossa realidade”.
“A gente está falando de um país que, infelizmente, se espelha muito ainda na cultura americana. Isso diz como o Brasil precisa começar a bater forte na sua soberania interna. Se a gente produz capital, se a população trans vai acessar…”, avalia, para além da pauta de direitos humanos.
Eleições 2026 são ‘a mais importante desde a redemocratização’
Sobre o cenário eleitoral, Neon Cunha é enfática: “Esta é a eleição mais importante desde a redemocratização do Brasil”.
Ela aponta a renovação do Legislativo (Senado, Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas) como peça-chave para frear o que chama de “desmanche da nação”.
“O Estado de São Paulo está sendo rifado. As privatizações, a precarização do funcionalismo público, as terceirizações… O servidor de carreira está sendo substituído há anos por comissionados. Quem fiscaliza?”, questionou.
Entre as prioridades para um eventual mandato estadual, Neon listou educação pública de qualidade, valorização do servidor, moradia, transporte público gratuito, saúde mental e garantia de direitos para a população em situação de rua.
Mudança para o PT e desafios intrapartidários
Neon anunciou recentemente sua migração partidária do PSOL para o PT. Para ela, a mudança representa mais desafios, mas também mais potência.
“As últimas grandes gestões de mobilidade social no ABC foram do PT. Trabalhei com Celso Daniel, com Luiz Marinho, com mulheres incríveis na habitação. Mas o PT também é um desafio: o antipetismo é real”, pondera.
A ativista ressaltou que recebeu convites até de partidos de direita. “Ou eles estão sem quadros, ou precisam de alguém para alguma coisa [cumprir cotas, por exemplo]. Mas a esquerda não vai viver só do voto da esquerda. Precisamos conversar com quem está em abstenção”, analisa.
Atualmente, não há nenhuma pessoa trans na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O primeiro mandato trans na Casa foi da deputada Erica Malunguinho, eleita em 2018 pelo PSOL. Também há muito poucas mulheres negras.
“Minha candidatura recoloca essa pauta na Alesp. Mas gosto de me posicionar que, acima de tudo, sou uma mulher negra. A minha pauta principal sempre será raça. A partir dela, discorro todos os outros fundamentos”, posiciona-se.
‘Estou pronta. Não há humilhação que eu não conheça’
Com 44 anos de serviço público, Neon encerrou a entrevista confiante de que está pronta para assumir o cargo de deputada estadual em São Paulo.
“Todo esse tempo de existência, não há humilhação que eu não conheça. Se isso é estar pronta, eu estou”, afirmou.
“Aprendi na faxina, como dizia minha mãe: a gente vai entrar invisível, mas vão lembrar da gente pela excelência”.
A pré-candidata sintetizou que sua campanha tem responsabilidade social com pessoas que estão na exclusão. Enfatizou, inclusive, que responsabilidade é o que diferencia seu projeto daqueles de candidatos da direita e da extrema direita.
“Não adianta ter boa vontade se você não assume responsabilidade. Do outro lado, quem está fazendo tudo isso não assume. A nossa forma de nos opor é essa”, sintetizou.